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Saem as execuções,
entra em campo a seleção |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Terça-feira, 12
de outubro de 2004
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CABUL - Os
afegãos são diferentes dos brasileiros em praticamente tudo.
Em suas indumentárias saídas dos contos das mil e uma noites;
nos casamentos arranjados entre primos; na reverência pelos mais
velhos; em seu declarado gosto pela guerra; em sua religião e no
fervor com que a seguem; no confinamento claustrofóbico das mulheres,
simbolizado pela burka - tão persistente depois quanto antes do
Taleban. Mas há um traço
em comum, e não é pouca coisa: o futebol. Não pela qualidade
dos jogadores, obviamente - nisso também os dois ocupam extremos
opostos. "É só entusiasmo, mais nada", resigna-se
o ucraniano Aleksander Buyard, contratado há cinco meses como preparador
físico da seleção afegã. Mas pela paixão.
O futebol é o esporte nacional afegão, embora perca em originalidade
para o buzkashi, um precursor do pólo no qual os cavaleiros têm
de atravessar o campo com uma carcaça de ovelha ou um prisioneiro
decapitado - o que estiver mais à mão. Há muitas narrativas
para o absurdo passado recente afegão. O futebol é uma delas.
Ontem à tarde, os jogadores da seleção regional de
Cabul treinavam no mesmo estádio - aliás o único
do país - que foi palco de alguns dos atos mais chocantes do regime
taleban, em seus cinco anos de existência (1996-2001). O Estádio de
Cabul foi construído em 1973 pelo presidente Mohammed Daud, logo
depois de assumir o poder, num golpe de Estado contra seu primo, o rei
Zahir Shah. E destruído durante a guerra dos mujaheddin (1992-96),
na qual o general usbeque Rashid Dostum - um dos candidatos a presidente
que boicotaram a eleição presidencial de sábado -
o transformou em seu quartel-general, impiedosamente bombardeado por seus
inimigos. Entre eles, o general tajique Ahmed Shah Massud, assassinado
por suicidas da al-Qaeda dois dias antes dos atentados de 11 de setembro
de 2001. Seu retrato num outdoor domina hoje o estádio, ao lado
de outros dois, do presidente Hamid Karzai e do imperador Ahmed Shah Baba,
que fundou a dinastia no século 18. Depois que os taleban
tomaram, em 1996, o controle de Cabul e, com ela, de 90% do país,
a ONU resolveu presentear os afegãos com a reforma do estádio
- simbolizando a nova era de paz. Mas os taleban tinham outros símbolos
em mente. Atraídos pelo futebol, que chega a reunir 22 mil pessoas
no estádio, os afegãos eram induzidos a assistir a execuções
de condenados à morte pelos mulás. "Eu já
era funcionário da Federação Afegã de Futebol
nessa época e, quando ficava sabendo que ia haver execução,
ia embora do estádio", lembra Sayed Mozafari, hoje secretário-geral
da entidade. "Nunca assisti a uma execução." Milhares
de afegãos assistiram. As execuções ocorriam nos
intervalos, ou quando os taleban - que costumavam invadir o campo interrompendo
os jogos para orações - considerassem conveniente. Por causa
da oração das 17h, os jogos foram antecipados para as 14h.
Já voltaram para o horário normal, mais adequado, em vista
do calor desértico que faz no verão. "Naquela época
era tudo muito difícil", recorda Bashir Soldat, de 26 anos,
que joga na defesa do Sabol, um dos 18 times da primeira divisão,
e foi escalado para a seleção de Cabul no primeiro campeonato
nacional do país, que começa dentro de duas semanas. "Tínhamos
de usar barbas compridas e jogar de shalwar kameez (a vestimenta tradicional
dos afegãos, composta de túnica comprida e calça
larga)." Calções e camisetas, como as que a seleção
usa agora, doadas por ingleses que vieram dar um curso há uma semana,
eram proibidos. Bashir mora em frente
ao estádio, e na época da guerra civil teve de se mudar
com a família para o Paquistão. Depois de voltar, em 1996,
formou-se engenheiro, e trabalha para se sustentar, como todos os outros
jogadores. O futebol no Afeganistão é amador. Os jogadores
recebem ajuda de custo de 50 afeganis (US$ 1) ao fim de cada treino, que
agora está ocorrendo todos os dias, na preparação
para o campeonato. Os afegãos
guardam na lembrança glórias passadas, como uma partida
em que derrotaram o Irã, há 23 anos. Sustentado por um orçamento
anual de US$ 280 mil para todas as categorias, doado pela Fifa, o futebol
afegão acalenta expectativas modestas - de apenas poder seguir
adiante, sem ser abruptamente interrompido, como faziam os taleban com
as partidas. É só o que pede o Afeganistão também.
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