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No ar, o telejornal
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SANTANNA Enviado especial |
Quarta-feira, 13 de
outubro de 2004
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CABUL - Abdul
Ahmad Norzad entrou no curso de jornalismo da Universidade de Cabul no
início de 2000. Na época, os taleban estavam solidamente
instalados no poder, e ninguém poderia imaginar que, daí
a dois anos, seriam derrubados por uma coalizão entre os Estados
Unidos e a Aliança do Norte. Assim, o horizonte de Norzad era incrivelmente
limitado. Havia no país
uma estação de rádio, a Voz da Sharia (lei islâmica),
que transmitia orações e aquilo que os taleban considerassem
notícia. Era proibido ouvir música. E um jornal, o Sharia,
um tablóide de quatro páginas sem fotos, que também
eram proibidas, seguindo à risca a proscrição islâmica
de imagens humanas - razão pela qual eles destruíram as
estátuas de Bamiyan, as primeiras a darem forma humana ao Buda,
erguidas por volta do século 2.°. Pelo mesmo motivo, televisão
também era proibido, e muitos aparelhos foram espatifados pelos
taleban. Mesmo assim, Norzad
seguiu sua vocação. "Já na época dos
taleban eu tinha muita vontade de ser jornalista. Eu observava os problemas
da sociedade e queria poder relatá-los e ajudar as pessoas a refletir
sobre eles", conta o repórter, hoje com 24 anos. Norzad reconhece
que isso seria difícil se os taleban tivessem continuado no poder.
"Naquela época não havia liberdade. Ninguém
podia contar os fatos." Quando os taleban caíram, Norzad estava
no segundo ano de jornalismo. Há seis meses,
o jornalista ouviu no rádio que uma emissora de TV independente
ia entrar no ar e estava procurando repórteres. Norzad, que já
tinha trabalhado no Kabul Times Weekly, um tablóide bilíngüe
de 12 páginas, levou seu currículo e foi selecionado. Entre
outros quesitos, por falar inglês, além de dari e pashto,
as três línguas em que a TV Afegã transmite seus noticiários.
Os estrangeiros não são muitos no Afeganistão, mas
o seu poder aquisitivo atrai anúncios. Depois de seis meses de
testes, a emissora foi ao ar há uma semana, nas vésperas
da eleição presidencial do dia 9. "Nunca imaginei
que fosse acabar na televisão", sorri Norzad, um dos quatro
repórteres da emissora - dois em Cabul, um em Kandahar (sul) e
outro em Herat (nordeste). "Os afegãos gostam muito de televisão",
diz ele. "A maioria não sabe ler e, junto com o rádio,
é o meio ideal para eles. A TV é melhor ainda, porque eles
podem ver os fatos." O analfabetismo acima dos 15 anos abrange 49%
dos homens e 79% das mulheres, segundo relatório de 2003 do Fundo
Monetário Internacional. Nenhum resquício
de hostilidade contra a TV, entre os que confiavam na leitura que o Taleban
fazia do Islã? "Quem pensa dessa forma vive afastado. Na cidade,
não há esse problema", garante o repórter. "Não
creio que haja afegãos que sejam contra a TV", diz Abdul Rahman
Panjshiri, diretor de Planejamento da TV Afeganistão, a tradicional
emissora estatal, que transmite em dari e pashto, as duas principais línguas
do país. "Todo mundo gosta de assistir." Se fotografia servir
de parâmetro, então os afegãos adoram imagens. Eles
não só permitem como pedem para ser fotografados, tanto
nas cidades quanto na zona rural. E agradecem depois, mesmo sem saber
que podem ver o resultado nas câmeras digitais; apenas por se sentirem
bonitos, ou importantes, quando fotografados. "Eles",
bem entendido, refere-se aos homens e às crianças. Não
ouse fotografar uma mulher sem autorização expressa do homem
que a estiver acompanhando. A reação pode ser violenta.
Há 35 emissoras
de rádio no país e dezenas de jornais em formato tablóide,
vários deles com uma parte em inglês e outra em idioma local.
Há uma semana, surgiu em Cabul a Tlo (Amanhecer), que, como a TV
Afegã, pretende viver de anúncios publicitários.
A TV estatal é considerada pró-governo. Mas as outras, pertencentes
a empresários, querem construir uma imagem de imparcialidade. O horário de
transmissão, por enquanto, é escasso. A TV Afegã
transmite das 17h30 às 21h30 e a estatal, das 14h às 23h.
É bem verdade que, onde existe serviço público de
eletricidade, ela não dura muito mais que isso. A programação
é recheada de filmes, novelas e videoclipes indianos e iranianos.
Panjshiri, que nunca ouviu falar das novelas brasileiras, conta que acaba
de fechar a compra de seriados japoneses. Também está recebendo
ajuda da TV holandesa para produzir um programa de notícias para
crianças. A precariedade é
grande. Os estúdios não têm teleprompter, e os apresentadores
têm de ler no papel. Os telejornais de meia hora por dia em cada
língua são os únicos programas ao vivo. As transmissões
ao vivo de fora dos estúdios, via internet, são raras. Não
há links por satélite. |