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No
país destroçado, tudo por fazer |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 17
de outubro de 2004
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CABUL - A intensidade da luz aumenta e diminui, ao sabor do inconstante suprimento de eletricidade, no Qasr Shahi, ou Palácio do Rei, onde o presidente Hamid Karzai mora e trabalha. Algumas janelas e paredes ainda guardam marcas de balas disparadas durante a guerra civil (1992-96). Sem poder confiar sua segurança a afegãos, Karzai é protegido por guarda-costas da empresa texana Dyncorp, contratada pelo Departamento de Estado americano. São sinais que fazem parte do dia-a-dia do presidente, lembrando-o de que tudo está por fazer no seu país. Em 25 anos de guerras, que deixaram 1,5 milhão
de mortos, a infra-estrutura do Afeganistão foi destroçada,
assim como as residências, os negócios, os serviços
públicos e as instituições. Oito anos depois do fim
da guerra entre os mujaheddin ("combatentes da liberdade"),
a maior parte das casas, prédios, palácios e monumentos
atingidos por seus foguetes ainda não foi reparada, deixando por
toda parte ruínas que dão às cidades afegãs
um ar de sítio arqueológico. Karzai tem de lidar com comandantes de milhares
de milicianos remanescentes dessas guerras, armados até os dentes.
E com uma arraigada produção de drogas, que constitui uma
das bases da enfraquecida economia, e aparentemente está alimentando
alguns dos grupos armados que tentam desestabilizar seu governo. Seus maiores trunfos: o apoio da comunidade
internacional e dos afegãos comuns, cansados de guerra. As expectativas desses afegãos são
enormes, entretanto. Bagher Ali Mardan representa 20 mil ex-refugiados
que voltaram do Irã e do Paquistão e agora estão
sem teto. "Os afegãos destruíram suas casas lutando
entre si", explica Mardan, ex-integrante dos grupos mujaheddin que,
depois de expulsar os soviéticos, em 1989, passaram a disputar
o poder entre si. "Eu destruí a mim mesmo", lamenta o
velho combatente, com um sorriso amargo. Segundo Mardan, os sem-teto que
ele lidera votaram em Karzai. Agora, esperam que ele lhes dê casas.
"É obrigação dele." Segundo o Alto Comissariado das Nações
Unidas para Refugiados (Acnur), cerca de 3,7 milhões de afegãos
voltaram ao país depois da queda do Taleban, no fim de 2001. Outros
2 milhões continuam no Paquistão e 1 milhão, no Irã.
Além deles, 170 mil afegãos tiveram de deixar suas casas
- por perseguições ou extorsões - e vivem sem teto
dentro do país. Somados, dão um quarto da população
de 24,5 milhões de habitantes. O Acnur destina US$ 120 milhões por
ano aos refugiados nos três países. Desde 2002, o organismo
forneceu material para a construção de 100 mil moradias
no Afeganistão. "É o maior programa do Acnur",
diz Nader Farhad, porta-voz do organismo. Segundo Farhad, os afegãos
em geral não pedem casa, mas um pedaço de terra para poderem
construir. E só quem pode dar essa terra é o governo. "Fico
contente de saber que eles têm a expectativa de que o governo lhes
dê moradia." Durante a ocupação do Afeganistão
(1979-89), os militares soviéticos adquiriram o hábito de
percorrer as estradas asfaltadas do país com os seus tanques, alegando
que as margens das rodovias estavam infestadas de minas. Todo o asfalto
foi destruído nesse período. Grande parte da rede de eletricidade,
telecomunicações e irrigação do país
também ficou comprometida. Estradas - Depois da expulsão
soviética, seguiu-se a guerra civil, o período da maior
destruição. Armados com fuzis e foguetes, os combatentes
derrubavam transformadores e torres para vender como sucata. A partir
de 1996, quando passaram a controlar 90% do território, os taleban
restauraram algumas estradas e serviços - contando, para isso,
com a ajuda do milionário saudita Osama bin Laden. Isolado do mundo, com relações
diplomáticas só com três países (Paquistão,
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), contando apenas
com os parcos impostos alfandegários, o regime taleban não
pôde fazer muita coisa. Até porque se mostrava mais preocupado
em impor a observância de princípios morais medievais e destruir
relíquias, obras de arte e livros considerados profanos - incluindo
as pinturas a óleo do palácio e os volumes de anatomia das
faculdades de medicina - do que em modernizar o país. Em Jalalabad, nos cinco anos de governo,
os taleban asfaltaram 3 quilômetros de ruas e avenidas dentro da
cidade, a maior do leste do país, e outros 15 quilômetros
de estradas. Em três anos, o novo governo está asfaltando
13 quilômetros só dentro de Jalalabad. "Na época
dos taleban não havia dinheiro porque eles não recebiam
ajuda de fora", lembra o engenheiro Fazal Rabbi, que trabalha no
Departamento de Estradas há 15 anos. "Agora, há."
Os trepidantes 200 quilômetros de estrada
de terra que separam Cabul de Torkham - parte da histórica Rodovia
do Grande Entroncamento, ligando o Sul ao Centro da Ásia -, que
hoje em dia levam mais de seis horas para serem percorridos, foram divididos
em três trechos e estão sendo asfaltados por uma empresa
turca, uma chinesa e uma paquistanesa, com financiamento da União
Européia. A presença dos operários estrangeiros
gera renda na região. O técnico em mecânica Wahid
Dulleih, de 38 anos, especializado em tanques de guerra, faz todos os
dias o percurso de 40 quilômetros transportando os operários
chineses do canteiro de obras para Jalalabad, onde estão alojados.
"Na época dos taleban, a gente era obrigado a trabalhar de
graça", diz ele, contando que foi forçado durante três
meses e fazer manutenção de tanques. No fim de 2001, depois
que os taleban se retiraram de Jalalabad para Tora Bora, ele mudou de
lado e foi pilotar um tanque da Aliança do Norte. "As coisas
estão melhorando", diz Dulleih. "Com a estrada boa, os
preços das mercadorias vão baixar." Em dezembro, foi concluída a pavimentação
de 439 dos 482 quilômetros da estrada ligando Cabul a Kandahar,
a cidade mais importante do sul, quartel-general do antigo regime taleban.
O trecho restante estava em boas condições. A duração
da viagem caiu de 12 para 5 horas. A obra foi financiada pelos Estados
Unidos (389 quilômetros) e pelo Japão (os outros 50). Habituados a dirigir tão rápido
quanto a estrada permite, os motoristas afegãos se excedem na nova
rodovia. O Hospital Regional de Ghazni, por onde passa a rodovia, continua
realizando 3 mil cirurgias por ano, como fazia durante a guerra. Segundo
a secretária de Saúde da província, Ziagul Esfandi,
os ferimentos em combates deram lugar aos acidentes de trânsito.
No Afeganistão se dirige na pista
da direita, com o volante do lado esquerdo, como no Brasil. Mas a maior
parte dos carros que circulam no país vem do Paquistão,
onde se dirige na pista da esquerda, com o volante do lado direito, como
na Inglaterra. Assim, os motoristas não têm visibilidade
para ultrapassar. Freqüentemente, eles trocam de mão no meio
da estrada, dirigindo em zigue-zague. Indiferentes aos apitos frenéticos
dos novos guardas de trânsito treinados pelos alemães, os
motoristas circundam as rotatórias das formas mais criativas. Até
os semáforos foram destruídos. Os novos serão instalados
pelos italianos. De acordo com a Agência dos Estados
Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAid), os projetos de construção
ou restauração envolvem mil quilômetros de rodovias
principais e 1.500 de estradas vicinais. Do US$ 1,2 bilhão que
a agência está destinando este ano ao Afeganistão,
US$ 500 mil vão para infra-estrutura. O restante, para as áreas
sociais e fortalecimento de instituições. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |