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Relação
entre drogas e terror desafia governo |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 17
de outubro de 2004
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CABUL - No longo prazo, o apoio da
comunidade internacional ao Afeganistão depende de seu êxito
no combate ao narcotráfico. A pasta de ópio produzida no
Afeganistão responde por 75% da matéria-prima da heroína
consumida no mundo. O cultivo da papoula - da qual é extraído
o ópio - está presente em 26 de suas 34 províncias.
A venda de ópio rende ao Afeganistão US$ 1,3 bilhão
por ano. Sem contar as drogas, a renda per capita do país é
de US$ 199; considerando-as, ela salta para US$ 240. De acordo com Mirwais Yasini, diretor-geral
do Departamento Anti-Narcóticos do governo afegão, o cultivo
da papoula aumentou consideravelmente em 2003, embora a produção
tenha caído, por causa da seca. "É muito difícil
erradicar", reconhece Yasini, cujo programa é patrocinado
pela Grã-Bretanha e os EUA, que, juntos, já investiram US$
240 milhões. No leste do Afeganistão, 20 laboratórios
de refino de heroína foram destruídos e 18 toneladas de
pasta de ópio, apreendidas. O objetivo este ano é erradicar
25% do cultivo e, até 2011, chegar à eliminação
total. "Estamos dizendo aos agricultores que cultivar papoula e haxixe
é crime", diz Yasini, que foi vice-presidente da chamada Loya
Jirga Constituinte, a assembléia formada por líderes tribais
que promulgou a Constituição afegã. A mensagem ainda não chegou ao vilarejo
de Bam Khel, cerca de 60 quilômetros ao sul de Jalalabad. "Estamos
muito felizes com o fim do Taleban, porque eles tinham proibido o cultivo
da papoula", conta Sardar Wali, em sua lavoura de haxixe. "Agora,
podemos trabalhar livremente." Dez agricultores das redondezas, que
vieram atraídos pelo carro da reportagem, acenam, em concordância.
Segundo eles, os taleban os espancavam e cortavam os talos das papoulas,
quando flagravam o cultivo ilícito. A papoula é plantada em fevereiro.
Em junho, a flor é raspada, extraindo um líquido que seca
em três dias, transformando-se na pasta de ópio. No resto
do ano, a terra é aproveitada para o haxixe - que nem os taleban
proibiram - e os cultivos convencionais, como milho, amendoim, cana-de-açúcar,
arroz, algodão, hortaliças, etc. Segundo Wali, sua gleba,
cerca de 1 jirib, rende 12 quilos de ópio por ano. Os agricultores da região vendem o
quilo da pasta por 10 mil rúpias paquistanesas (US$ 182) para compradores
de Jalalabad. Assim, uma safra rende 120 mil rúpias (US$ 2.184).
Sua plantação de haxixe produz 2 quilos de fumo, vendidos
por 5 a 6 mil rúpias. Todo o restante que ele consegue produzir
em cultivos lícitos em um ano lhe rende 2 mil rúpias. E se o governo resolver proibi-los de cultivar
papoula e haxixe, o que eles vão fazer? "O que você
faria?" rebatem os agricultores. Os dez dizem que votaram em Karzai.
Yasini afirma que o mulá Mohammed
Omar, líder dos taleban, era patrocinado pela venda de ópio.
"O Taleban baniu o cultivo de papoula em 1999. Pois bem. O quilo
da pasta de ópio subiu de US$ 50 para US$ 850", lembra ele,
sugerindo que foi uma manobra para aumentar a receita. Com as próprias pernas - Se
pretende combater as drogas e dispensar sua receita fácil, o Afeganistão
terá de se estruturar para isso. A USAid contratou a empresa Bearing
Point, antiga KPMG, para ajudar o governo afegão na reestruturação
dos ministérios. A prioridade é a área financeira.
No ano passado, a meta de US$ 200 milhões
em receita própria foi atingida. Este ano, é de US$ 300
milhões - 85% provenientes de tarifas alfandegárias. "O
Afeganistão precisa levantar recursos próprios", diz
Patrick Fine, diretor da USAid no país. "Nossa estratégia
é de cinco anos. Queremos que depois disso os afegãos possam
andar com as próprias pernas." Segundo Fine, os fiscais, que ganharam da
USAid cinco automóveis para fazer batidas, estão confiscando
de 15 a 25 cargas de contrabando por dia, vinda do Paquistão, Irã
e Usbequistão. Ao todo, serão doados 65 carros, para formar
unidades móveis de combate ao contrabando. Um trajeto de algumas dezenas de quilômetros,
na província de Kandahar, chegou a ter cinco pedágios. A
circulação pelo país se tornou inviável. Esse
foi o principal motivo que levou o Paquistão - que tem no Afeganistão
um mercado para seus produtos e rota para a Ásia Central - a apoiar
os taleban. Com a queda dos taleban, a fragmentação
do poder volta a assombrar o Afeganistão. Até meados deste
ano, o então governador de Herat (oeste), o comandante mujahed
Ismael Khan, vinha retendo a maior parte dos impostos de importação
cobrados nas fronteiras com o Irã e o Turcomenistão, entregando
uma pequena parte para o governo central. Khan, que lidera o grupo ao qual pertencem
o ministro da Defesa, marechal Mohammed Fahim Khan, e o comandante do
Exército, Bismullah Khan, é considerado o segundo homem
mais poderoso do país. Foi um teste para a autoridade de Karzai,
que finalmente o substituiu. "Os afegãos gostam de governantes
fortes", diz Richard Christenson, número 2 da embaixada americana
em Cabul. "E, quer saber? Nós também gostamos." Karzai, o único líder tribal
que nunca teve um exército próprio, e cuja fama de conciliador
tem sido encarada com ambigüidade pelos afegãos, conduz o
Afeganistão por uma transição delicada, na qual o
Exército nacional em formação convive com duas outras
forças armadas - os milicianos subordinados ao Ministério
da Defesa, mas ainda não incorporados ao efetivo regular, e os
grupos mujaheddin. Além, é claro, dos insurgentes: taleban,
Al-Qaeda e o grupo de Gulbuddin Hekmatyar, que se uniram contra o governo. O Ministério da Defesa tem 100 mil
militares em sua folha de pagamento. Mas só 25 mil foram identificados
pelo programa de desarmamento conduzido pela ONU. Desses, pouco mais da
metade foi desarmada e incorporada ao novo Exército ou participa
de programas de reintegração à sociedade, financiados
pelo Japão, que investe US$ 100 por homem desarmado em projetos
escolhidos pela sua comunidade. Os japoneses já destinaram US$
740 milhões ao programa. Entre os grupos que não se subordinaram
ainda ao governo está o do general usbeque Rashid Dostum, candidato
a presidente, que participou do boicote da eleição, dia
9, alegando fraudes, junto com outros 14 candidatos da oposição.
Entretanto, na semana passada, Dostum veio
a Cabul e negociou o apoio ao resultado de uma investigação
que está sendo feita pelo Comitê Eleitoral Conjunto, formado
pela ONU e o governo. Com isso, reforçou as análises otimistas
segundo as quais tem buscado apenas uma posição de força
para barganhar politicamente. Mesmo entre os grupos armados que já
se incorporaram ao Exército, como o do próprio comandante
Bismullah Khan, ligado ao candidato presidencial tajique Yunas Qanuni,
as divisões ainda são visíveis. Todos sabem que o
Forte de Bala-e-Hisar, sobre uma montanha a sudeste de Cabul que domina
estrategicamente a cidade, é base da milícia do ministro
da Defesa, Fahim Khan. Por dentro das fardas do Exército e da polícia
nacionais, pulsam as lealdades dos ex-mujaheddin a seus ex-comandantes.
Os pashtuns contam que, depois de criar o
mundo, Deus resolveu fazer o Afeganistão com as pedras que sobraram.
Muitas delas estão agora no caminho de Karzai. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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