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Em Cabul, paz americana
e relativa prosperidade |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado, 9
de outubro de 2004
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CABUL - O posto
do soldado Ahmed Chabir - um barraco de madeira - ocupa uma posição
estratégica, na Rodovia do Norte, distrito de Sarai Khodjai. Por
aqui, há três anos, os milicianos da Aliança do Norte
entraram em Cabul. "Os aviões americanos bombardeavam a área,
os taleban fugiam e nós íamos avançando", lembra
Chabir, que na época integrava a Aliança, e conta ter matado
dois taleban no campo em frente de onde monta guarda agora, com a farda
do Exército afegão. O chefe de sua milícia,
o tajique Amanullah Gusar, que comandava cerca de 4 mil mujaheddin ("combatentes
da liberdade"), integrou-se ao Exército nacional há
dois anos. Chabir e seus companheiros foram submetidos a 45 dias de treinamento
por oficiais afegãos e incorporados ao Exército. Atualmente,
seu soldo equivale a US$ 45. Dentro de dez dias, no entanto, Chabir pretende
ingressar no novo Exército Nacional Afegão, que está
sendo formado com patrocínio e treinamento dos EUA. A partir daí,
diz ele, seu soldo subirá para US$ 150 - uma pequena fortuna para
os padrões afegãos. Chabir está
otimista. "Nosso futuro é brilhante", diz o soldado,
cujo posto fica ao lado de um imenso cartaz do general Ahmad Shah Massoud,
o líder da Aliança do Norte morto por dois suicidas da al-Qaeda
no dia 9 de setembro de 2001, dois dias antes do atentado contra as torres
gêmeas, em Nova York. Nesses dois anos, não houve nenhum
incidente na área, relata o soldado. Mesmo tendo lutado com os
taleban, Chabir, de 30 anos, não acha que eles devam ser excluídos
do novo Afeganistão. "Será bom se eles se juntarem",
declara o soldado. "Eles também são afegãos
e podem nos ajudar a reconstruir o país." O alfaiate Djamshed
Nur Mohammed, de 19 anos, também está confiante. Há
apenas uma semana, ele abriu uma pequena confecção na margem
da rodovia. Djamshed e sua família, no total dez pessoas, voltaram
há três meses de Teerã, onde viviam desde 1998. Eles
se mudaram para a capital iraniana porque um de seus irmãos matou
um homem em Teerã e foi condenado à morte. Não conseguiram
entrar na prisão para se despedir antes da execução.
Mas acabaram ficando. "Não havia
trabalho aqui na época do Taleban", diz Djamshed, que está
pagando 2 mil afganis (US$ 40) por mês de aluguel na loja. "Temos
esperança de que nosso negócio dê certo", diz
o rapaz, que costura os vestidos de mulheres - com desenhos impensáveis
na época dos taleban -, enquanto seu irmão faz os shaluar
kamiz, a túnica e calça larga usada pelos homens. "Karzai é
o melhor candidato, porque trouxe paz", diz o alfaiate de etnia tajique,
oferecendo uvas de sua cidade natal, Mirbachakot, no norte do Afeganistão.
"Quando Karzai tiver tornado o país seguro, não precisaremos
mais dos estrangeiros aqui e será melhor eles irem embora. Os americanos
nos ajudaram a expulsar os taleban, e estamos gratos a eles. Agora estamos
refazendo nosso país." "Estamos tranqüilos
com a presença dos americanos porque eles vieram trazer a paz",
confirma o pashtun Nurullah Djamdarhan, desempregado, que também
voltou do Paquistão há quatro meses. "Quando vemos
os americanos, ficamos felizes, porque eles estão aqui para zelar
pela nossa segurança." É muito difícil
encontrar um afegão que fale abertamente contra a presença
americana - até mesmo na área tribal autônoma, na
fronteira com o Paquistão, onde há três anos os pashtun
prometiam enfrentar os americanos e explodir-se na frente dos seus tanques.
"Naquela época
pensávamos que os americanos fossem iguais aos russos, mas agora
vimos que eles trouxeram paz e segurança", explica Herat Gul,
de 30 anos, vendedor de autopeças no bazar de Torkham. "Se
não fosse a Aliança do Norte, os americanos não teriam
conseguido entrar no Afeganistão", contesta um ex-líder
taleban local, que, como muitos outros, segue a vida discretamente em
seu vilarejo. Como Djamshed e outros
milhares de afegãos, o sapateiro Said Omar também voltou
para o país depois da queda dos taleban. Durante o regime fundamentalista,
ele se mudou com a família para Karachi, no vizinho Paquistão.
"Não havia trabalho, e eles nos prendiam e batiam sem motivo
nenhum, inventando um pretexto, só porque somos persas", conta
Omar, de 55 anos. Omar, que mora num acampamento à beira da rodovia,
não sabe se o país vai melhorar. "O Afeganistão
já mudou tantas vezes", diz o sapateiro, acrescentando que
vai votar em Karzai porque "ele veio para reconstruir o país". "Continuamos
morando em tendas", impacienta-se Ghulam Mohammed, que nunca teve
casa. "A TV já veio várias vezes nos entrevistar, mas
ninguém vem nos ajudar." Mohammed, que também foi morar
em Karachi durante o regime taleban, vive de carregar e descarregar material
nas madeireiras da beira da estrada, ganhando no máximo 2.500 afeganis
(US$ 50) por mês. As lojas de materiais
de construção são um negócio florescente,
com o boom de novas casas e sobretudo de reformas que vem acompanhando
a consolidação da paz no Afeganistão, cuja moradia
popular é tradicionalmente feita de argila e madeira. "Estão
construindo algumas casas pequenas aqui por perto, mas nada mudou",
queixa-se Gul Khan, de 28 anos, dono de uma das madeireiras. "A situação
não é boa. Talvez depois da eleição do Parlamento
(prevista para maio) a economia possa melhorar", estima ele. "Quando
todos se desarmarem, o poder não vier mais das armas e os direitos
humanos forem respeitados, haverá esperança." Khan, de etnia pashtun,
a mesma do presidente Karzai, também voltou recentemente do Paquistão,
mas não de espontânea vontade. O governo paquistanês
tem mandado de volta os milhões de refugiados afegãos, argumentando
que eles agora "têm um país independente". Sua
mulher e cinco filhos, porém, ficaram em Islamabad, e ele só
pretende trazê-los depois que todas as milícias se desarmarem.
Do contingente de
100 mil homens declarado pelo Ministério da Defesa, o programa
de desarmamento conduzido pela ONU e patrocinado pelo Japão conseguiu
arrolar apenas 24.861. Desses, 12.808 foram desmobilizados. Em geral,
os grupos que se sentem contemplados no governo de Karzai entregam as
armas e se incorporam às forças regulares. Do contrário,
não. A própria Aliança
do Norte, parceira da primeira hora dos Estados Unidos na tomada de Cabul,
está dividida. Seu líder de etnia usbeque, o general Abdul
Rashid Dostam, ainda não quis entregar as armas, enquanto seus
ex-aliados tajiques se mostram plenamente integrados no novo governo.
O retrato de Massoud no Aeroporto de Cabul, um dos pontos estratégicos
tomados dos taleban pela Aliança, é maior que o do presidente
Karzai. Seu sucessor político, Fahim Khan, ocupa o cargo de ministro
da Defesa e seu irmão, Ahmad Zia Massoud, acaba de se tornar assessor
do presidente. Telhados de lojas
e casas do norte de Cabul exibem bandeiras pretas, em sinal de luto pelo
terceiro aniversário da morte de Massoud. Será que o general
tajique estaria feliz com o que está se passando no Afeganistão?
O pashtun Djamdarhan acha que sim. "Antes de morrer, ele disse na
TV que nós precisávamos de democracia." |
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