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'Osama bin Laden
pode estar bem perto daqui' |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 10 de
outubro de 2004
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ASADABAD - Reza a
crença popular na província de Konar, oeste do Afeganistão,
que, se você matar um kafar, ou seja, um não-muçulmano,
vai direto para o paraíso. Nos últimos tempos, kafars não
têm se aventurado por essas bandas, mas os afegãos e árabes
que se instalaram aqui se viram com o que tem. Dia e noite, integrantes
da Al-Qaeda, taleban e milicianos do líder fundamentalista Gulbuddin
Hekmatyar castigam Asadabad, a capital da província, com mísseis
terra-terra de fabricação chinesa e granadas propelidas
por foguetes, as temidas RPGs, além de minas colocadas nas estradas. Aqui, cerca de 400
árabes da Al-Qaeda fundaram seu novo santuário há
três anos, depois de fugir das montanhas de Tora Bora, fustigados
pelos americanos. A 50 quilômetros de Asadabad, a Al-Qaeda e os
taleban ocupam um vila de 8 mil habitantes, chamada Koran Gal. Entre os
comandantes está o molui (líder espiritual) Abder-Ramin,
que comandava a região na época dos taleban. Bem ao seu gosto,
a região é cortada por uma cadeia de montanhas, a Kashmund,
separando o Afeganistão de uma área autônoma em território
tecnicamente paquistanês, dominado pela tribo Safi, de etnia pashtun,
a mesma dos taleban. No interior dessa cadeia de montanhas, crivada de
túneis e cavernas, os membros da Al-Qaeda e seus companheiros transitam
de um lado para outro. "Osama bin Laden
pode estar bem perto daqui, mas do lado paquistanês", estima
o brigadeiro Ahmad Shah, comandante local da Polícia de Fronteira,
cuja patente é equivalente à de coronel. "Todo mundo
sabe que os líderes dos taleban e da Al-Qaeda estão se escondendo
no Paquistão. Temos relatórios do serviço de inteligência
que mostram a movimentação deles do outro lado da fronteira."
"Se soubéssemos
onde Bin Laden está, iríamos lá pegá-lo",
disse ao Estado o general David Barno, comandante das tropas americanas
no Afeganistão. Barno elogiou a cooperação, nas últimas
semanas, das forças de segurança paquistanesas, do outro
lado da fronteira, exatamente nessa região. Há duas semanas,
o serviço secreto americano instalou um radar que detecta a movimentação
terrestre nos 4 postos de fronteira que ainda estão abertos nessa
região (outros sete foram fechados). Quando perceberam para que
servia o equipamento, conta Shah, tanto o Exército paquistanês
quanto os terroristas o atacaram. "Temos testemunhas que dizem que
o primeiro ataque, há uma semana, foi do Exército paquistanês",
afirma o brigadeiro. O segundo foi de um dos grupos terroristas que atuam
em conjunto na região. Dois soldados ficaram feridos. "Toda noite temos
confrontos com eles", relata Shah. Segundo ele, nos últimos
três anos, 24 soldados afegãos foram mortos e 37 ficaram
feridos nesses confrontos. O brigadeiro não sabe dizer quantas
foram as baixas dos americanos, que mantêm uma grande base nos arredores
de Asadabad. Ao meio-dia de quinta-feira,
enquanto o Estado conversava com o brigadeiro no quartel-general
da polícia, dois mísseis foram disparados das montanhas
no flanco sudeste da cidade. Imediatamente, dois helicópteros do
Exército americano que já sobrevoavam a região começaram
a vasculhar a área de origem dos disparos. O trânsito de
veículos Humvee, com metralhadoras montadas sobre eles, também
era intenso, ao lado das patrulhas do Exército e da polícia
afegãos. Os ataques se intensificaram
nos últimos dois meses, com a aproximação da eleição
presidencial de ontem, que os terroristas pretendiam sabotar. Segundo
Shah, cerca de 40 terroristas chegaram à área para reforçar
as operações de sabotagem das eleições. "A
população local nos apóia", garantiu o comandante.
"Só em Koran Gal é que quem se opuser a eles é
morto." "Não nos
preocupamos com a situação", diz Khal Mohammed, dono
de uma loja de autopeças no bazar de Asadabad. "Somos afegãos.
Isso é normal para nós." Mohammed diz que na cidade
continuam vivendo muitos ex-integrantes do governo local dos taleban.
"Antes eles eram taleban. Hoje são pessoas normais",
explicou o comerciante. A província
de Konar tem mais de 600 mil habitantes. O governo distribuiu 177 mil
cédulas eleitorais. "Não conseguimos entregar nas montanhas",
lamenta o brigadeiro. A polícia de fronteira conta com 309 homens.
Há ainda 250 soldados do novo Exército Nacional Afegão,
treinados pelos americanos. Pelo menos um batalhão (300 homens)
do Exército americano está estacionado no local, com apoio
permanente de helicópteros. Na sexta-feira e no
sábado, Asadabad mergulhou num toque de recolher 24 horas por dia,
proibindo o movimento de carros. A entrada da cidade é controlada
com uma cancela. Os guardas revistam os carros e perguntam aos motoristas
aonde vão e o que pretendem fazer. "Vocês parecem pessoas
boas", disse um deles ao motorista e ao intérprete afegãos
que acompanhavam o repórter do Estado, depois de examinar a credencial
dada pelo governo afegão. "Podem ir. Espero que não
vão destruir seu país." |
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