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Dentro do antigo
santuário da Al-Qaeda |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 10 de
outubro de 2004
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DARGAI - Para
Osama bin Laden e seus companheiros, era bem mais fácil chegar
ao seu antigo santuário em Tora Bora, uma magnífica cadeia
de montanhas na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão.
Yunas Khalis, o principal arrecadador de fundos para a jihad (guerra santa),
que trouxe Bin Laden para o leste do Afeganistão, mandou construir
uma estrada de 15 quilômetros no topo das montanhas de 4.406 metros
de altitude, para que seus amigos árabes pudessem chegar com seus
veículos 4x4 até a porta de "casa". Depois de um mês
de bombardeio e três anos de abandono, essa estrada está
intrafegável. Quem quer conhecer hoje o antigo campo de treinamento
e esconderijo da Al-Qaeda precisa seguir, a cavalo, as trilhas tradicionais
usadas pelos pastores de ovelhas e cortadores de madeira que exploram
os vales férteis de Tora Bora. Depois de duas horas de solavancos
na acidentada estrada de terra partindo de Jalalabad, a principal cidade
do leste do Afeganistão, a reportagem do Estado chegou ao vilarejo
de Agam, a 50 quilômetros de distância, onde fica o último
posto da polícia. Lá, um policial embarcou no jipe para
escoltar os visitantes por uma área onde ainda há remanescentes
do grupo terrorista árabe. Mais uma hora para
percorrer apenas 15 quilômetros pela estrada que acompanha o despenhadeiro,
passando por chácaras e pequenos cemitérios de árabes
da Al-Qaeda, bem cuidados pelos camponeses locais, que conservam bandeiras
coloridas sobre túmulos marcados apenas por uma pedra irregular.
O grupo chegou então a Dargai, a última vila ao pé
das montanhas de Tora Bora, onde alugou dois cavalos, ao preço
de 900 rúpias paquistanesas (US$ 16), para subir as trilhas cobertas
de pedregulhos, que levam ao topo da montanha. Depois de duas horas
a cavalo, surge a paisagem esplêndida de campos verdes intercalados
de areia amarela clara, que encobrem as montanhas onduladas. Essa era
a vista das janelas da "casa de campo" de Bin Laden, semidestruída
pelos mísseis lançados por aviões americanos, assim
como numerosas casas de outros comandantes da Al-Qaeda e as trincheiras
de pedra erguidas pelos combatentes, estimados em 600 homens. Uma companhia contratada
pelo governo americano retirou o grosso da sucata dos mísseis.
Mas, depois de três anos, a miudeza dos projéteis e cartuchos
de foguetes disparados pelos árabes continua ali, semi-enterrada,
junto com embalagens de biscoito, creme de leite, pilhas, cacos de porcelana,
solas de sapato, um quepe branco e até rações despejadas
pelos aviões americanos durante a guerra, com a mensagem: "Um
presente do povo dos Estados Unidos da América". Do topo da montanha,
onde ficavam as casas, o terreno desce em direção a um córrego
cristalino, passando por grandes degraus terraplanados, onde os antigos
ocupantes plantaram batatas, tomates, cebolas e outros mantimentos. Do
outro lado do córrego, estão as famosas cavernas, escavadas
na terra dura do pé da montanha seguinte. No chão de uma
dessas cavernas, que não passam de 3 metros de largura por 3 de
profundidade, com cerca de 2,5 metros de altura, ainda brilha a embalagem
dourada dos biscoitos Golbou, com recheio de creme de limão, fabricados
em Tabriz, no Irã. Bin Laden e seus companheiros
ocuparam Tora Bora durante praticamente todo o período que durou
o regime taleban (1996-2001), transformando-a em refúgio e campo
de treinamento. Em Dargai e nos barracos
de argila que circundam a montanha, os moradores se acostumaram com os
estrondos dos disparos feitos durante os treinamentos. Até que,
numa noite, chegaram os aviões de guerra americanos, cujos sobrevôos
e mísseis chacoalhavam as casas. Por essa época, as forças
especiais americanas montaram acampamento em Dargai, cujos moradores tiveram
então a chance de ver pessoas negras pela primeira vez. Os moradores de Dargai,
um povoado de 200 habitantes, não gostam de falar disso - dizem
ter "medo de ir para Guantánamo", onde os americanos
mantêm presos membros da al-Qaeda -, mas trabalharam intensamente
para os árabes, como entreposto de abastecimento e transporte.
"A Al-Qaeda chegou aqui e disse que ia impor as leis islâmicas",
lembra o líder da comunidade, Baghram Khan, de 99 anos. "Ficamos
felizes com isso. Eles eram muçulmanos." Mas quem tem a lembrança
mais vívida daqueles dias é o policial Khaista Gul, de 27
anos. Na época integrante do grupo mujaheddin comandado por Haji
Zaman, que se juntou à Aliança do Norte e aos americanos
para expulsar a Al-Qaeda e derrubar os taleban, Gul recorda que estava
com 3 mil combatentes afegãos em Dargai quando 40 soldados chegaram
e jogaram as armas no chão: "Não vamos mais lutar contra
os árabes." Os soldados contaram
que tinham sido presos pela Al-Qaeda em Tora Bora, e que os terroristas
os libertaram sob a condição de jurar que não os
combateriam mais: "Vocês são muçulmanos",
disseram eles. "Por que vêm lutar com árabes? Por que
não mandam os americanos virem lutar?" |
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