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Ex-vizinho de Bin
Laden quer ser mulá |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 10 de
outubro de 2004
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JALALABAD -
Árvores frondosas e campos de cultivos demarcam os dois lados da
estrada que leva à Vila Yunas Khalis, na periferia de Jalalabad.
Hoje, as casas por trás de muros altos, que um dia abrigaram combatentes
da Al-Qaeda que vieram com suas famílias, estão abandonadas.
Entre elas, a de Osama bin Laden, que ocupava um quarteirão inteiro,
e hoje está reduzida a paredes semidestruídas. Com a queda dos taleban
e a fuga dos terroristas, há três anos, funcionários
do novo governo da província de Nangarhar vieram retirar os móveis,
portas, tetos e tudo o mais que podia ser arrancado - e supostamente doado
para escolas - das cerca de 40 casas. Até o imponente haras, onde
Bin Laden e seu braço direito, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi,
mantinham seus cavalos árabes e afegãos, foi dilapidado. Por último,
Yunas Khalis, o mulá que dá nome à vila, teve de
deixar sua casa, e partir para o exílio no Paquistão, há
um ano, depois de ter convocado a jihad contra os americanos. Até
então, Khalis era protegido pelo secretário de Segurança
da província, Hazarat Ali, antigo seguidor do mulá. Se não
fosse por ele, os americanos teriam prendido Khalis antes. Ex-oficial do comandante
mujaheddin Gulbuddin Hekmatyar, Khalis conheceu Bin Laden durante a guerra
contra os russos, nos anos 80. Em meados dos anos 90, quando Bin Laden
estava no Sudão, Khalis o convidou para se instalar no Afeganistão,
oferecendo-lhe a vila que leva seu nome e apresentando-o para o mulá
Mohammed Omar, líder dos taleban, que consolidavam seu domínio
sobre o Afeganistão. Bin Laden, um milionário
saudita, não teve dificuldades de impressionar e cativar Omar,
um mulá pobre e semi-analfabeto do interior da província
de Kandahar. Bin Laden construiu uma mansão para Omar em Kandahar
e se casou com uma filha do mulá, elevando a amizade a parentesco.
Omar nunca veio a Jalalabad. Aliás, só saiu de Kandahar
uma vez, para visitar Cabul. Bin Laden ia até ele quando necessário,
em Kandahar. A relação se inverteu. De hóspede, Bin
Laden se tornou anfitrião, passando a dar ordens no país.
Os moradores da vila
lembram-se das caravanas de veículos japoneses 4x4 que entravam
e saíam, mas afirmam que os árabes não conversavam
nem se misturavam com os afegãos. Nem mesmo o taxista Nur Agha,
que diz ter sido motorista de Khalis durante 16 anos, teve contato com
os comandantes da Al-Qaeda. Inicialmente, recordam os moradores, Bin Laden
era desconhecido. Eles dizem tê-lo visto várias vezes chegando
de táxi comum, sozinho, a sua casa. Na desolação
da vila empoeirada, um dos poucos moradores que ficaram é um vizinho
de Bin Laden: Kassim Sierkhod, de 21 anos, que está estudando para
ser mulá. Sierkhod, que mora há seis anos com a família
na casa ao lado da do milionário saudita, cujo aluguel é
de 700 rúpias paquistanesas (US$ 13), ingressou na madrassa (seminário
islâmico) em maio de 2001, cerca de quatro meses antes dos atentados
de 11 de setembro, que desencadearam a perseguição da Al-Qaeda
e a derrubada dos taleban. "Na época
dos taleban, o estudo era melhor", compara ele. "Havia muitos
mulás, comida e livros de graça, e eu morava na madrassa."
Agora, não há mais comida, e Siekhod voltou para a casa
do pai, operário da construção civil. "Se os
taleban tivessem continuado no poder, eu seria mais importante na sociedade",
reconhece Siekhod. "Mas não me importo com profissão.
Quero ser mulá porque gosto da religião." |
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