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Observadores aprovam
eleição e impasse é superado |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira, 11 de
outubro de 2004
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CABUL - As
incertezas criadas pelo boicote de todos os 15 adversários do presidente
interino Hamid Karzai à eleição de sábado
pareceram em grande parte superadas ontem, depois que os organismos que
monitoraram a votação aprovaram formalmente o processo.
Havia informações ontem em Cabul de negociações
em curso para alguns dos candidatos voltarem atrás e reconhecerem
a legitimidade do pleito - e, com ela, a eleição praticamente
certa de Karzai já no primeiro turno. A Equipe de Apoio
Eleitoral da Organização para a Segurança e a Cooperação
na Europa distribuiu ontem em Cabul um comunicado rejeitando a exigência
dos candidatos da oposição de anular o pleito. O comunicado
apóia a decisão de sábado do Comitê Conjunto
de Gestão Eleitoral (JEMB, na sigla em inglês), composto
por representantes da ONU e do governo afegão, de levar adiante
a votação. "Com base nos
relatos de nossas próprias equipes, assim como a informação
dada por especialistas em eleições da União Européia,
monitores afegãos e delegações de vários países,
concordamos com a visão do JEMB de que o pedido dos candidatos
de anular a eleição é injustificado", afirma
o comunicado. "Essa ação colocaria em questão
o desejo expresso de milhões de cidadãos afegãos
que saíram para votar, registraram os eleitores e trabalharam nas
seções eleitorais, apesar do grande risco pessoal." Funcionários
de algumas seções eleitorais confundiram a tinta que deveria
ser usada pelos eleitores para assinalar o candidato escolhido na cédula
eleitoral com a tinta indelével destinada a marcar o polegar esquerdo.
Um número indeterminado de eleitores lavou o dedo e votou de novo.
As seções não tinham listas de eleitores. Eles podiam
votar onde quisessem. Além disso, segundo os oposicionistas, a
votação foi encerrada mais cedo em redutos eleitorais de
seus candidatos. O porta-voz da ONU em Cabul, o português Manoel
de Almeida e Silva, informou que as queixas dos candidatos estão
sendo estudadas pelo Comitê Eleitoral. Apesar dos problemas,
a Fundação Eleições Livres e Justas do Afeganistão,
que conta com mais de 2.300 observadores em 100 distritos eleitorais de
todo o país, também aprovou o processo. "Embora as
razões para a aplicação incorreta da tinta indelével
precisem ser esclarecidas, um ambiente razoavelmente democrático
foi em geral observado na maioria dos locais de votação",
declarou ontem a fundação. "Isso inclui a presença
de observadores locais e internacionais e fiscais partidários.
A segurança, de maneira geral, foi bem melhor que o esperado pelos
pessimistas." As urnas estão
sendo levadas das 22 mil seções eleitorais para os oito
centros de votação montados no país - em aviões,
helicópteros, caminhões e até burros de carga. A
contagem dos votos deve começar somente dentro de três ou
quatro dias, estima o porta-voz da ONU. O resultado final sairá
dentro de duas ou três semanas. Segundo o Comitê Eleitoral,
483 mil refugiados afegãos votaram no Paquistão, o que representa
79% dos eleitores inscritos. Outros 260 mil votaram no Irã. Ao longo das últimas
semanas, as preocupações se centravam nas tentativas do
grupo terrorista Al-Qaeda e do movimento Taleban - derrubado no fim de
2001 por uma coalizão liderada pelos EUA - de sabotar a eleição.
Houve no sábado uma série de incidentes violentos em todo
o país, com impacto limitado a algumas seções eleitorais,
segundo o Ministério da Defesa. Três policiais e um miliciano
das forças sob comando do Ministério da Defesa foram mortos
em confronto com taleban. "Nas últimas 12 horas, os ataques
dos taleban foram descoordenados e ineficazes graças ao patrulhamento
agressivo da polícia, do Exército e das forças internacionais",
disse ontem à noite o porta-voz do Ministério do Interior,
Lutfullah Mashal. A maior ameaça
ao processo eleitoral partiu dos candidatos da oposição,
que se uniram no sábado para denunciar a votação.
A atitude não foi de todo surpreendente: vários analistas
e mesmo pessoas comuns previam que os candidatos anunciassem apoio a Karzai
ou rejeitassem o pleito. Dois candidatos escolheram a primeira opção;
os outros 15, a segunda. Com isso, Karzai concorreu sozinho. "Esses candidatos
já tinham decidido fazer isso bem antes", diz Maula Tanival,
membro da Academia de Ciências do Afeganistão. "Não
foi correto eles saírem no dia da votação. Mas isso
não terá conseqüências. A grande maioria dos
afegãos apóia Karzai." A Academia, que funcionou precariamente
durante o regime taleban (1996-2001), com muitos de seus membros sendo
expulsos ou indo embora voluntariamente, está agora se revigorando,
diz Tanival, com 180 membros, dos quais 4 mulheres - banidas desse tipo
de atividades pelos taleban. "Claro que não
haverá problema, porque os Estados Unidos estão com Karzai",
diz Farhad Olomi, de 24 anos, dono de uma loja de informática.
"É só os americanos lhes darem dinheiro que eles ficarão
quietos." Cético em relação aos políticos,
Olomi não foi votar no sábado. "Sabe o que as pessoas
diziam? Que as urnas já chegariam às seções
eleitorais cheias de votos para Karzai. Então, para que votar?" Karzai foi escolhido
presidente do governo interino em dezembro de 2001, numa loya jirga (assembléia
de líderes) emergencial, depois que os Estados Unidos derrubaram
o governo taleban. "A maioria das
pessoas votou em Karzai e os candidatos procuraram uma desculpa por vergonha
de não receber votos", opina Abdel Rahman, um vendedor de
produtos eletrônicos de 24 anos. "Não se pode tapar
o sol com dois dedos", diz ele, citando um provérbio popular. "Definitivamente,
o boicote dos candidatos não compromete a legitimidade da eleição
e a autoridade de Karzai em seu novo governo", acredita Asila Jamal,
diretora em Cabul do Fundo de Desenvolvimento das Nações
Unidas para as Mulheres. "Quinze candidatos não representam
dez milhões de eleitores afegãos." Asila, que trabalhou
para incentivar as mulheres a irem votar, na primeira eleição
presidencial com voto direto e universal da história do Afeganistão,
declarou-se contente com a participação feminina. Ela estima
que metade dos afegãos que foram às urnas no sábado
eram mulheres. |