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Escola não
tem teto nem cadeiras, mas empolga crianças |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira, 11 de
outubro de 2004
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JALALABAD -
À primeira vista, a Escola Primária Camp Farm Ada parece
uma praça. As turmas masculinas têm aula ao relento. As meninas
são privilegiadas: suas "salas de aula" ficam debaixo
de lonas fornecidas pelo Unicef. Tanto meninos quanto meninas se sentam
no chão. A pequena lousa se sustenta num tripé de madeira.
Os alunos chegam a ter 13 livros, que os pais compram, com sacrifício,
por cerca de 25 rúpias paquistanesas (a moeda mais usada no leste
do Afeganistão), ou pouco menos de US$ 0,50 cada. "Quando chove,
temos de dispensar os meninos", queixa-se o professor Hulan Nabir.
"Não sei como será no inverno." O governo da província
de Nangarhar tinha dito que na área seria construída uma
escola, mas até agora, nada. Os professores ganham 2.500 rúpias
(menos de US$ 50) por mês, mais ou menos o valor do aluguel de uma
casa em Jalalabad, antigo reduto da al-Qaeda, onde moravam o milionário
terrorista Osama bin Laden e seus seguidores árabes. Vários
professores moram no campo de refugiados de Palimi, que fica em frente
à escola, e abriga 35 mil pessoas. "É muito
difícil dar aulas nessas condições", diz o professor
Abdul Bassir. Mas a disciplina e a concentração dos 3 mil
alunos, divididos em três turnos de três horas cada, são
notáveis. As meninas estão contentes porque agora podem
estudar, o que estava proibido durante o regime taleban (1996-2001). "Claro
que estamos felizes", diz Nilofar, de 12 anos, que cursa a quarta
série. "Os taleban não eram bons porque não
deixavam as meninas estudarem. Quem não estuda fica como um animal."
Metade dos homens e quatro em cada cinco mulheres acima dos 15 anos são
analfabetos no Afeganistão, segundo o Fundo Monetário Internacional. O uniforme das meninas,
em todo o país, é uma túnica e uma calça larga
pretas e um véu branco cobrindo a cabeça. Os meninos não
usam uniforme. De acordo com a Agência dos Estados Unidos para o
Desenvolvimento Internacional (USAid), a proporção de meninas
em idade escolar matriculadas subiu de 18% no ano passado para 75% este
ano. Nilofar começou
a estudar em Peshawar, no oeste do Paquistão, para onde sua família
se mudou durante o regime taleban, voltando depois de sua queda, como
milhares de afegãos. Seu pai é professor e sua mãe
cuida da casa - como a vasta maioria das mulheres -, embora tenha estudado
até a oitava série. Nilofar quer ser médica. Suas
matérias preferidas são pashto, dari (os dois idiomas oficiais
do Afeganistão) e estudos islâmicos. O professor de geografia
garante que já falou do Brasil para as meninas. "Onde fica
o Brasil?", pergunta o repórter. Silêncio. O professor
sopra: "América", e as meninas repetem. Os meninos também
estão mais satisfeitos. "Agora temos muitas matérias
boas para estudar", diz Zakir, de 12 anos, que começou nessa
escola e já está na sexta série. "Antes, só
tínhamos estudos islâmicos, e o professores eram todos mulás.
Os de agora são mais instruídos." Os taleban mandaram
os professores para casa e colocaram sacerdotes para ensinar. Na Camp
Farm Ada só há professores homens. Noutras escolas, no entanto,
as professoras também voltaram ao trabalho. "Ensinamos a
eles que os estrangeiros vieram para trazer paz, estabilidade, para nos
ajudar, e por isso é que podemos vir à escola, porque nos
sentimos seguros", conta o professor Abdel Majod. A disciplina de
história afegã inclui os fatos mais recentes, da ocupação
soviética (1979-89) à guerra civil (1992-96), o regime taleban
e sua derrubada pelos americanos, ajudados pela Aliança do Norte,
no fim de 2001. São 10 horas
e o primeiro turno está encerrado. Farhad, de 15 anos, que nasceu
no campo de Palimi, para onde seus pais se mudaram quando sua casa foi
destruída na guerra com os soviéticos, sai para vender pipas.
Outra coisa proibida na época dos taleban, que diziam que a brincadeira
era objeto de apostas entre meninos que tentavam derrubar as pipas dos
outros colando vidro moído na linha. Pelo mesmo motivo,
os taleban proibiram o buzkashi, um brutal precursor do pólo que
no lugar dos tacos e da bola usava uma rês - ou prisioneiro - decapitada,
ao lado de jogos mais inofensivos, como o xadrez. Esportes com bola, como
futebol e vôlei, muito apreciados pelos afegãos, continuaram
permitidos, desde que os torcedores se limitassem a gritar "Allah-u-Akbar
(Deus é grande)" nos lances mais emocionantes. Farhad compra as pipas
por 10 rúpias (US$ 0,20) e as vende por 15. Segundo ele, a procura
é boa: de sete a oito pipas vendidas por dia. A propósito,
Farhad e seus amigos fazem aquelas guerras de pipa de que os taleban não
gostavam. |