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Em Kandahar, jovens
querem volta do Taleban |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 23 de
agosto de 2009
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KANDAHAR Depois de quase oito
anos de ocupação, muitos moradores de Kandahar - maior reduto
e capital espiritual dos taleban, 480 km ao sul de Cabul - estão
cansados disso tudo. Uma geração de jovens de classe média
começa a expressar sua simpatia pelo Taleban, uma espécie
de nostalgia por uma época não vivida: eles eram crianças
quando os taleban ocuparam Kandahar em 1994, sua primeira conquista, daqui
subindo para o norte até tomar Cabul em 1996; e adolescentes quando
foram derrubados pelos americanos, no fim de 2001. Na tarde de sexta-feira,
descanso semanal muçulmano, quatro deles conversavam no Café
Kandahar, o mais elegante da cidade. "A vida era muito boa na época
dos taleban", disse Abid, de 23 anos, dono de uma mercearia e estudante
do ensino médio. "Não havia ladrões, corrupção
nem bombas." "Os americanos
deviam se retirar", opinou Ziaul Haq, de 21 anos, que trabalha num
instituto que dá cursos de negócios. "Eles disseram
que vinham para nos salvar e não fizeram nada. O Afeganistão
está só piorando." Ziaul Haq compara: "Os taleban
são muito melhores que os americanos. São afegãos
e muçulmanos." "Os taleban que
governaram o Afeganistão são pessoas muito boas, mas a maioria
foi morta", justificou Aziz Ahmad, de 19 anos, que está se
preparando para os exames para entrar no curso de engenharia. "Agora
há pessoas que se autodenominam taleban e que estão prejudicando
a reputação deles." Assim como os outros
três jovens - e, de resto, a imensa maioria da população
em Kandahar -, Khoshal, de 18 anos, não votou na quinta-feira.
"O presidente não faz nada e não confio em nenhum dos
candidatos", explicou Khoshal, também no último ano
do ensino médio, e preparando-se para entrar em medicina. "Todos
são corruptos e fantoches dos Estados Unidos." "O Taleban é
o melhor regime, porque só tem um líder, uma decisão",
elogia o jovem. "A lei era cumprida e não havia corrupção."
Ele acrescentou: "Enquanto os americanos estiverem aqui, a situação
não vai mudar. Eles são responsáveis por essa anarquia.
Interferem na vida dos outros e matam quem não colabora com eles." Khoshal contou que
em Arghandab, distrito rural de Kandahar de onde vem sua família,
e reduto dos taleban, alguém disparou um tiro contra um soldado
americano, sem atingi-lo. Em retaliação, "os americanos
vieram com seus aviões e bombardearam a área, matando crianças,
mulheres e velhos". "Mesmo que estivesse,
de acordo com a tradição pashtun, o Taleban não poderia
entregá-lo, porque era nosso hóspede", concluiu Khoshal,
repetindo os argumentos dos taleban em 2001, quando ele tinha 10 anos
de idade. Os jovens negam até
mesmo a face repressora do Taleban, como a proibição às
garotas de estudar e aos meninos de soltar pipas (sua diversão
favorita) e o banimento oficial da TV e de outras imagens. "Na época
do Taleban havia escolas para garotas, eu tinha TV por satélite,
tínhamos tudo", disse Ziaul Haq. "Eu brincava de pipa",
garantiu Khoshal, mostrando as cicatrizes deixadas na sua mão pelo
cerol, o vidro moído colado nas linhas para cortar as linhas dos
outros meninos e derrubar suas pipas, em apostas consideradas antiislâmicas
pelos taleban. "Esses jovens
não conheceram o regime do Taleban", reage Zulmai, de 52 anos,
formado em história e pedagogia e ex-diretor de uma fábrica
de frutas estatal. "Os taleban não são gente civilizada.
Se votar ao poder, os jovens verão o que é o Taleban, e
também o odiarão." Zulmai, demitido há seis
meses da fábrica por rivalidades tribais, está muito longe
de ser um fã de Karzai: "Este governo é pior que o
Taleban. Nenhum dos dois criou oportunidades para uma vida normal no país."
Zulmai compara: "O Taleban arruinou a imagem do Islã e do
Afeganistão. Os americanos e Karzai arruinaram a imagem da democracia." Mas nem todos os mais
velhos detestam os taleban. "Na época deles não era
muito ruim, e eles tinham muitos pontos positivos", pondera Mohammed
Ali,de 54 anos, dono de uma confeitaria em Kandahar e membro da minoria
hazara. "A principal coisa que proporcionaram foi segurança.
Os pontos negativos são que perturbavam as pessoas por causa de
corte de cabelo, barba, etc." O pesquisador alemão
Felix Kuehn, especialista em relações tribais, há
cinco anos no Afeganistão - dos quais um ano e meio em Kandahar
-, diz que essa associação entre o tempo do Taleban e a
segurança é generalizada: "Do ponto de vista de um
camponês, de que adianta as mulheres terem direitos, se ele não
tem segurança para ir trabalhar na sua terra, e se todas as famílias
agora têm um parente próximo morto no conflito?" |