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Abstenção
foi de 95% em Kandahar, diz pesquisador |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado, 22 de
agosto de 2009
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KANDAHAR O alemão Felix
Kuehn, autor do estudo, diz que esse número é extremamente
conservador. "Um índice realista de comparecimento seria de
5%." No interior da província de mesmo nome, e noutros redutos
dos insurgentes na zona rural, pode ter sido até mais baixo. A
província tem 1.080.000 eleitores registrados - de um total de
15 milhões em todo o país. Kandahar é um caso crítico,
evidentemente. Mas em várias regiões do país, incluindo
Cabul, o cenário não foi tão diferente assim. Dados sobre o comparecimento
só serão divulgados pela Comissão Eleitoral Independente
(CEI) dentro de dois a três dias. Zekria Barakzai, funcionário
da CEI, estimou à Associated Press que o comparecimento será
de 40% a 50%. Esses números estão bem aquém dos 70%
alcançados na primeira eleição presidencial do Afeganistão,
em 2004, e bem além da impressão dos observadores independentes.
Em Kandahar, o Estado conversou com 14 eleitores, dos quais apenas
três votaram. Não é uma amostra válida, mas
é difícil encontrar nas ruas da cidade alguém com
a tinta indelével colocada no indicador direito de quem votou,
e que leva semanas para apagar. A tinta serve para
evitar que os eleitores votem mais de uma vez. Mas nas áreas de
maior presença do Taleban, ela funciona como um estigma mortal.
Muitos eleitores poderiam até ter comparecido, confiando no forte
esquema de segurança montado em torno das seções
eleitorais e nas ruas. Em Kandahar, cidade de cerca de 700 mil habitantes,
havia 10 bloqueios militares, nos quais os carros e motoristas eram revistados.
As autoridades disseram ter frustrado seis "incidentes com explosivos"
na cidade. Mas a tinta preta fez muitos deles recuar. "Moro em Arghand
(distrito rural de Kandahar), e o Taleban tem muita influência lá",
disse Sharif Ullah, de 29 anos, dono de uma mercearia. "Tive medo
de que os taleban vissem meu dedo. Ouvi falar que eles iam cortar os dedos
com tinta." "Não votei ontem porque não havia segurança", resume Ahmad Ullah, de 25 anos, dono de um armazém. "Vi muitos panfletos na área onde vivo advertindo as pessoas a não participar da eleição", conta Ullah, que mora em Sarpozah, bairro na periferia de Kandahar, onde os taleban libertaram há dois anos 2 mil militantes que estavam numa prisão, arrombando o portão com uma bomba. Segundo Ullah, os
panfletos diziam: "Aqueles que votarem serão punidos. Fique
longe das seções eleitorais." Se tivesse comparecido,
no entanto, Ullah não teria votado de novo em Karzai, como em 2004.
"Ele fez muitas promessas e não cumpriu. Todos os políticos
são iguais." O caso de Ullah desmente
a tese de que a abstenção alta prejudica Karzai, por ser
da etnia pashtun, maioria nas áreas do sul onde os taleban são
mais fortes. E não é um caso isolado, segundo Mussa Khan,
jornalista em Kandahar. "Não acho que os pashtuns gostem do
Karzai", diz Khan. "Ele não fez nada para os pashtuns,
só para outras etnias. Por exemplo, deu-lhes altos cargos e criou
duas províncias, Panjshir, para os tajiques, e Daikondi, para os
hazaras." A segunda explicação
para a alta abstenção é a descrença com os
políticos. "Não votei porque nenhum presidente vai
ser honesto e trabalhar pelo bem do país", explica o fazendeiro
Golab Shah, de 20 anos. "Essa eleição é uma
encenação." Agha Gul, de 25 anos,
está entre os poucos eleitores que compareceram ontem em Kandahar,
e para votar em Karzai. "Ele reconstruiu nosso país em poucos
anos", elogia Gul, técnico em computação na
Agência de Cooperação Internacional do Japão.
"O Afeganistão estava totalmente destruído pelas guerras.
Ele precisa de mais tempo." "Não houve
problema nenhum de segurança", testemunhou Gul, ignorando
os 15 foguetes disparados pelo Taleban contra Kandahar na quinta-feira.
"Violência e luta existem no Afeganistão há 30
anos", explica Mohammed Ali, de 54 anos, dono de uma confeitaria
no centro da cidade, que votou no deputado Ramazan Bashardost, hazara
como ele. "Não tive medo. Estamos acostumados." |