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Karzai apóia-se
nos 'senhores da guerra' em eventual segundo mandato |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sexta-feira, 21 de
agosto de 2009
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CABUL Até a invasão
do Afeganistão pela União Soviética, em 1979, o poder
local estava nas mãos dos líderes tribais. Pela tradição,
as decisões importantes se tomavam reunindo esses líderes
na chamada loya jirga - literalmente, "grande assembléia".
A invasão soviética deslocou o poder local desses líderes
para os comandantes "mujaheddin", ou "guerreiros da liberdade",
que resistiriam nos dez anos seguintes à ocupação.Depois
de vitoriosos, armados até os dentes com ajuda dos Estados Unidos,
da Arábia Saudita e do Paquistão, eles passaram a disputar
poder entre si. Criados pelo Paquistão
para reunificar o Afeganistão sob influência paquistanesa,
os taleban começaram a conquistar o país, pelo sul, em 1994,
chegando a Cabul dois anos depois. Os mujaheddin passaram então
a lutar contra os taleban, concentrando-se no norte, sob o comando do
general tajique Ahmed Shah Massud. Nesse ponto, um ex-militar e chefe
de milícia que tinha estado do lado soviético, o general
uzbeque Abdul Rashid Dostum, juntou-se aos mujaheddin. Depois dos atentados
de 11 de setembro de 2001, com apoio americano, eles derrubaram o Taleban. No calor de sua participação
na guerra contra os taleban, os mujaheddin tiveram presença de
destaque na loya jirga que ungiu Hamid Karzai chefe do governo interino,
e assumiram postos importantes nele. Mas seu passado de crimes de guerra
logo começou a incomodar os governos americanos e europeus que
patrocinavam o novo regime. Pressionado, Karzai foi-se afastando da maioria
deles, um a um. O último foi
Dostum, denunciado no ano passado pelo procurador-geral - com apoio velado
de Karzai - de manter um desafeto político em cativeiro. Diante
da iminência de sua prisão, Dostum, ainda no cargo de chefe
de gabinete do comandante do Estado-Maior, partiu para o exílio
na Turquia, país que procura exercer influência na Ásia
Central e do Sul por meio das etnias túrquicas, como é o
caso dos uzbeques. No decorrer do ano
passado, no entanto, Karzai foi-se sentindo abandonado pelo Ocidente,
onde ganharam corpo as críticas à corrupção
e ineficiência no uso dos US$ 30 bilhões doados pela comunidade
internacional. O presidente George W. Bush, que tinha uma aliança
quase incondicional com Karzai, foi substituído por Barack Obama,
que mantém sérias reservas ao desempenho do líder
afegão. O definhamento do
apoio de Karzai no exterior coincidiu com o recrudescimento dos ataques
do Taleban. Mais recentemente, o ex-chanceler Abdullah Abdullah passou
a ameaçar Karzai num eventual segundo turno da eleição
presidencial. A sensação de fragilidade levou o presidente
a reaproximar-se dos "senhores da guerra". Há diferentes
visões sobre o tema no Afeganistão. O economista Haroun
Mir, que lutou com Massud e hoje dirige o Centro de Pesquisa e Estudos
de Políticas do Afeganistão, acha que a comunidade internacional
cometeu um "grande erro" ao lançar os chefes de milícias
no ostracismo. "O país não tinha ainda um Exército
e uma polícia fortes. O Taleban se reagrupou e ocupou esse vazio."
Segundo Mir, os insurgentes precisaram só de cinco ou seis combatentes
para ocupar vilarejos sem encontrar resistência alguma, na ausência
total de autoridades. O desarmamento das
milícias, financiado pelo governo japonês, foi em grande
parte uma encenação, recorda, entretanto, o cientista político
francês Lorenzo Delesgues, no Afeganistão desde 2002. "Alguns
entregaram só suas armas velhas e ficaram com as boas", diz
ele. "Outros chegaram a comprar armas no Paquistão para receber
a indenização pelo 'desarmamento', com lucro." Essa tese é
reforçada pelo deputado independente Mir Ahmad Joyenda, do Movimento
para a Democracia e o Progresso, que observa que o Exército afegão
está dividido segundo linhas étnicas. Não há
um alistamento militar obrigatório, e o recrutamento é feito
de acordo com a lealdade aos comandantes de milícias. O comando
do Exército reflete essa divisão, diz Joyenda: o chefe do
Estado-Maior, general Bismillah Khan Mohammadi, é tajique; o segundo
no comando, general Baz Mohammed Jawhari, é da minoria hazara;
em seguida, vem o general Humayun Fawzi, da etnia uzbeque, ligado a Dostum. Se no primeiro mandato
Karzai simbolizou a conciliação e a união nacional,
num eventual segundo governo ele pode vir a representar o oposto disso. |
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