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Corrupção
consome até 40% da ajuda externa ao Afeganistão |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quinta-feira, 20 de
agosto de 2009
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CABUL De novo, apenas alguns
prédios privados, como o Safi Landmark, um hotel e shopping center
que constitui o grande orgulho da cidade, por ter a sua primeira - e única
- escada rolante. A telefonia melhorou, com quatro companhias disputando
o mercado de celulares. Com exceção de algumas estradas
construídas ou em construção no país, uma
ou outra obra de infra-estrutura, Cabul é um microcosmo do que
acontece no resto do Afeganistão. Então, o que terá
acontecido com os US$ 30 bilhões que a comunidade internacional
desembolsou em ajuda civil para o Afeganistão? É o que muitos
eleitores afegãos se perguntam. Entre 35% e 40% foram
consumidos em corrupção e em outras formas de "falta
de integridade" no uso do dinheiro, como superfaturamento de contratos
, direcionamento de licitações, salários e aluguéis
altos demais, veículos quatro por quatro blindados de centenas
de milhares de dólares e toda forma de gastos perdulários,
responde Lorenzo Delesgues, diretor da Integrity Watch Afghanistan, organização
não-governamental que monitora o uso do dinheiro público
no país. Delesgues, um cientista político francês que mora desde 2002 em Cabul, calcula que, dos US$ 30 bilhões, apenas US$ 10 bilhões ficaram no Afeganistão. O restante foi absorvido pelas empresas estrangeiras que ganharam os contratos nas áreas de construção civil, segurança e outros serviços. E desses US$ 10 bilhões,
ele estima que apenas US$ 100 milhões movimentaram a economia afegã,
injetados na forma de salários. Toda a matéria-prima e equipamentos
usados na execução desses contratos vieram de fora. Para o cientista político
Wadir Safi, da Universidade de Cabul, o problema é que a comunidade
internacional priorizou a chamada "construção de regime"
e negligenciou a reconstrução do país. A ONU montou
em Cabul pesadas estruturas com grande número de funcionários,
enormes prédios em complexos cercados de vigilância, dedicadas
à abstrata tarefa de transformar o Afeganistão numa democracia.
"Não há melhoria nenhuma na vida prática, nem
o domínio da lei nem Justiça, e portanto não há
respeito pelo governo", resume Safi. O Estado afegão
continua dependente da ajuda internacional e frágil diante da economia
do narcotráfico. Delesgues compara o orçamento anual de
US$ 890 milhões do governo do Afeganistão, que tem uma população
de 33 milhões de habitantes, com o de Timor Leste, US$ 309 milhões
para 1 milhão de pessoas. "O Afeganistão tem um dos
menores orçamentos per capita do mundo", diz o especialista.
Dessa receita, em torno de US$ 450 milhões são arrecadação
de impostos e royalties (como licenças de telefonia e tráfego
aéreo). O restante é coberto por ajuda internacional. Só o que foi
gasto nessa campanha eleitoral - US$ 300 milhões - equivale a um
terço do orçamento. Já o dinheiro da droga, entre
US$ 3 bilhões e US$ 3,5 bilhões por ano, é comparável
com a ajuda não-militar dos Estados Unidos no Afeganistão:
em torno de US$ 4 bilhões, diz Delesgues. Passados mais de sete
anos, o Afeganistão está muito longe de criar condições
de andar com as próprias pernas - pelo menos legalmente. O país dispõe
de grandes riquezas naturais inexploradas: petróleo, gás,
urânio, cobre, ferro, zinco, ouro, esmeralda, lapislazuli, carvão
etc. Companhias estrangeiras, chinesas à frente, estão movimentando-se
para firmar contratos de exploração de 30 a 80 anos - num
país com leis frágeis e sem um sistema regulatório,
observa Delesgues. A receita da exploração
desses recursos vai substituir a ajuda internacional. Para o especialista,
o futuro do Estado afegão depende desses contratos, e da receita
que possa extrair deles para prestar serviços à população.
"É dos serviços públicos que o Estado extrai
sua legitimidade", diz ele. "Se o Estado fizer bem o seu trabalho,
ninguém mais vai querer o Taleban." |
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