|
Às vésperas
da eleição, atentado suicida do Taleban mata 10 em Cabul |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Quarta-feira, 19 de
agosto de 2009
|
|
CABUL Foi o segundo carro-bomba
em três dias em Cabul. No sábado, atentado semelhante matou
7 civis e feriu 91 pessoas, incluindo quatro militares das forças
internacionais e quatro policiais afegãos. O autor do atentado
entrou com o carro, um Corolla cinza, no meio de um comboio militar britânico
de três veículos, numa estrada que leva para a base aérea
de Bagram. Ele se chocou com o carro do meio e detonou os explosivos.
Vários veículos pegaram fogo. Ontem foi um dos dias
mais violentos do Afeganistão, em meio a uma escalada do conflito
entre as forças internacionais e afegãs, de um lado, e os
taleban, de outro, que procuram intimidar os eleitores a não comparecerem
amanhã para votar para presidente e para os conselhos das 34 províncias.
Granadas de morteiros foram lançados contra Cabul, uma caindo perto do palácio presidencial, e outra numa delegacia de polícia, sem deixar feridos. A explosão de uma bomba numa estrada na província de Helmand, no sul, matou um casal, cinco filhos e quatro filhas, que viajavam numa van. Na provincia de Uruzgan,
também no sul, um suicida detonou seus explosivos nos portões
de uma base do Exército afegão, matando três soldados
e dois civis. Dois militares americanos morreram e três ficaram
feridos com a explosão de uma bomba numa estrada no leste do país.
Finalmente, oito taleban e dois policiais morreram durante combate no
norte do país. As forças da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),
que combatem os taleban no sul, confirmaram que vão suspender todas
as operações para a realização das eleições.
O chefe do serviço secreto afegão, Amrullah Saleh, disse
no domingo que havia negociações entre líderes tribais
e comandantes locais do Taleban para uma trégua na quinta-feira.
Parece não haver "coesão de comando" entre os
taleban locais, disse ele, e pode ser que alguns acordos sejam obedecidos.
Mas o Taleban não parece disposto a uma trégua. Em entrevista
ao Estado, publicada ontem, Qari Yousef Ahmadi, porta-voz do movimento,
desmentiu que haja essas negociações. "Os Emirados
Islâmicos deixam agora claro para o povo que o resultado desta eleição
nunca será aceitável", afirma comunicado do Taleban
enviado ontem por email aos jornalistas. "A comunidade internacional
e nossos concidadãos não devem ver esse processo como florescente
nem como afegão." Cabul está
sob alerta vermelho desde o atentado de sábado, em frente ao quartel-general
da Otan e do Exército afegão, a menos de 100 metros da embaixada
americana - a área mais protegida da capital. Por toda parte há
policiais e militares, com os dedos nos gatilhos de seus fuzis-metralhadoras.
Barricadas de blocos de concreto e sacos de areia protegem todos os edifícios.
Para entrar no seu hotel, na área central de Cabul, o repórter
do Estado passa por cinco homens armados de fuzis, até chegar a
um pátio em que outro homem se protege detrás de uma barricada
de sacos de areia, com uma pequena janela da qual desponta o seu fuzil.
O ministro da Defesa,
Abdul Rahim Wardak, disse no domingo que terroristas suicidas são
inimigos muito difíceis de enfrentar, que não podia garantir
que não haveria mais atentados e que, para evitá-los por
completo, seria necessário revistar todos os carros da cidade.
"Não vamos ceder à pressão do inimigo para mudar
o estilo de vida dos cidadãos nem violar seus direitos", disse
ele. Mas ontem um bloqueio da polícia revistava aleatoriamente
carros que passavam numa avenida a cerca de 3 km do local do atentado.
As ruas de Cabul tinham
ontem bem menos movimento do que de costume. Muitas pessoas estão
saindo só por motivos essenciais. Funcionários estrangeiros
de agências da ONU, de organizações não-governamentais
e de empresas deixaram o país, para só voltar depois das
eleições. Hoje é feriado do dia da independência
do Afeganistão. Amanhã, dia das eleições,
o tráfego de veículos estará proibido. O Ministério
das Relações Exteriores emitiu comunicado recomendando aos
meios de comunicação afegãos e estrangeiros que não
noticiem incidentes violentos entre 6 horas e 20 horas de amanhã,
"para assegurar ampla participação do povo afegão
nas eleições". As ameaças
do Taleban e sua visível disposição de cumpri-las
mudaram, sim, a rotina dos afegãos. |