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Afeganistão
tem eleição histórica |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 16 de
agosto de 2009
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CABUL Segundo pesquisa divulgada
na sexta-feira pelo Instituto Republicano Internacional (IRI), organização
não-governamental e apartidária americana que monitora o
processo eleitoral no Afeganistão, 44% dos eleitores pretendem
votar em Karzai. Em segundo lugar vem Abdullah, com 26%, seguido pelo
ex-ministro do Planejamento e deputado Ramazan Bashardost, com 10%, e
pelo ex-ministro das Finanças Ashrafi Ghani, com 6%. A sondagem,
que ouviu 2.400 afegãos em todo o país, revela que a segurança
é o problema mais importante para 34% dos entrevistados; para outros
5%, os conflitos internos e para 2%, o terrorismo - três problemas
relacionados. O desemprego é apontado por 17% e a economia, também
um tema correlato, por 16%. A corrupção vem depois, com
4%, ao lado da pobreza e do analfabetismo. Na eleição
de outubro de 2004, Karzai, chefe do governo interino desde 2002, elegeu-se
no primeiro turno, com 55,4% dos votos. Dessa vez, se as pesquisas estiverem
certas, haverá segundo turno seis semanas depois da votação
do dia 20. Karzai tem respondido
ao conflito buscando assegurar o apoio da comunidade internacional e boas
relações com os vizinhos Paquistão, Índia
e Irã; aumentando o número de soldados e policiais afegãos,
atualmente 92 mil e 83 mil, respectivamente; aliando-se aos líderes
tribais e ex-comandantes mujaheddin (que resistiram à ocupação
soviética entre 1979 e 1989); e acenando com diálogo com
os taleban depois da eleição. Em 2001, Karzai emergiu
do exílio como o favorito dos americanos e europeus para governar
o país, sendo confirmado por uma loya jirga (assembléia
de líderes tribais) em dezembro daquele ano. Nos últimos
meses, esse apoio tem sofrido severa erosão, com críticas
de corrupção e incompetência administrativa. Ainda assim, o presidente
é favorecido pela dispersão dos adversários. "Se
a oposição estivesse unida, o quadro seria outro",
analisa Haroun Mir, diretor do Centro de Pesquisas e Estudos de Políticas
do Afeganistão. A cédula terá 42 nomes, embora 6
deles tenham retirado suas candidaturas em favor de outros. "Para
os eleitores afegãos, a maioria (perto de 90%) analfabeta, será
muito confuso identificar os candidatos em fotos pequenas. Karzai, o mais
conhecido, levará vantagem", prevê Mir. Segundo o analista,
o presidente é visto como um bom conciliador e um mau administrador.
Ghani, doutor em antropologia pela Universidade de Columbia (Nova York),
foi o que apresentou nos debates as propostas mais sólidas, mas
tem apelo apenas entre os intelectuais, descreve Mir. "Sei que Karzai
não é o mais instruído, mas vou votar nele porque
ainda tem apoio internacional e, com cinco anos de experiência como
presidente, é capaz de enfrentar os problemas internos e externos",
diz Ghazal Hassan, de 24 anos, formada em ciência política
e funcionária do Ministério das Relações Exteriores.
"Karzai tem mais experiência e pode atrair a atenção
do mundo para o Afeganistão", concorda Rahman Gul, de 22 anos,
que abriu uma loja de cortinas no ano passado e vai bem nos negócios.
Filho de feirante, ele diz que o comércio de frutas também
melhorou muito, graças à melhora do escoamento das províncias
para Cabul. O Afeganistão
produz damascos, maçãs, melancias, melões, amêndoas
e nozes de excelente qualidade. Mas elas são vendidas a preços
baixos no mercado interno por causa da dificuldade de exportá-las.
O Paquistão impede a passagem dos produtos para o melhor mercado
da região, a Índia, com a qual se mantém em estado
de guerra; os Estados Unidos não deixam os afegãos exportar
para seu inimigo Irã, o outro mercado atraente da região.
Nesses anos de ocupação,
floresceu uma classe média instruída, que trabalha para
as agências internacionais e para as forças estrangeiras,
recebendo em dólar. Mas ela representa entre 10% e 15% da população,
calcula Mir, economista pela Universidade George Mason (Virgínia,
EUA). "Entre 40% e 50% dos afegãos, especialmente jovens das
cidades, não têm emprego decente." Shoiab, de 25 anos,
que como muitos afegãos não tem sobrenome, voltou há
três anos do Irã, onde trabalhava como metalúrgico,
porque lhe disseram que a reconstrução do Afeganistão
demandava mão-de-obra. Não conseguiu emprego e está
desapontado com Karzai. "Vou votar em Abdullah, porque ele nunca
saiu do Afeganistão, e conhece nossa situação muito
bem", diz Shoiab. Educado na Índia, Karzai viveu no exílio
durante o regime do Taleban (1996-2001). "Abdullah participou da
jihad (guerra santa) contra a União Soviética e da resistência
contra o Taleban, sempre esteve no Afeganistão e conhece nossa
dor muito bem", confirma Tawab Rahman, de 22 anos, estudante do ensino
médio e também desempregado. "A situação
tem melhorado", testemunha Mohammed Alim, que tem "entre 65
e 67 anos" (registros de nascimento são uma prática
recente no Afeganistão) e é dono de uma loja na Chicken
Street, o popular bazar de Cabul. "Mas vou votar em Abdullah porque
no governo Karzai o dinheiro doado pela comunidade internacional desapareceu.
Se tivesse distribuído, cada família teria recebido centenas
de milhares de dólares." |