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Fim das sanções
contra apartheid é prematuro, diz exilado |
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| LOURIVAL SANTANNA |
Quinta-feira, 11 de julho
de 1991
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Não era o momento de levantar as sanções, e os Estados Unidos deveriam ter consultado os negros sul-africanos antes de tomar a decisão. Essa é a opinião do jornalista sul-africano Donald Woods, exilado em Londres desde 1978. Sua amizade com o ativista negro Steve Biko e a espetacular fuga da África do Sul foram contadas no livro Biko, no qual foi baseado o filme Um Grito de Liberdade. Em entrevista ao Estado, Woods, de 57 anos, afirma que o apartheid se mantém nas atitudes dos sul-africanos, embora suas leis tenham caído. Woods, banido pelo governo quando editor do jornal Daily Dispatch, já pensa em voltar a viver, dentro de dois anos, na África do Sul . Ele esteve em agosto no país e prepara um livro sobre suas impressões, que se chamará Return to South Africa. Estado - O apartheid acabou? Donald Woods - O apartheid estatutário, as leis do apartheld, acabaram. Mas o aparcheid em si, não. A discriminação racial não é apenas uma questão de leis, mas de atitudes. Portanto, eu diria que metade do apartheld foi eliminada, o lado oficial, formal. Nosso dever agora é mudar o apartheid não-oficial, as atitudes. Estado - Como? Woods - Por meio da educação. O governo precisa investir nos negros. Estado - O momento é adequado para os EUA levantarem as sanções econômicas? Woods - Eu acho cedo demais. Na minha opinião, os EUA deveriam perguntar à maioria negra: "Quando vocês querem que levantemos as sancões?" Estado - O senhor concorda com a tese de que as sanções foram mais prejudiciais para os negros? Woods - Não. As sanções sempre prejudicaram os brancos, porque são eles que dirigem os negócios. É pura propaganda dizer que os negros foram os mais prejudicados. O levantamento das sanções teria de esperar uma Constituição democrática para a África do Sul. A decisão americana é prematura. Estado - O sr. acha que o princípio "um homem, um voto" poderá ser aplicado em breve? Woods - Sim. Tem de ser. Caso contrário, tudo será posto a perder. Estado - Não lhe parece que o presidenle Frederik de Klerk manobra para estabelecer um sistema de paridade política entre as raças, e não igualdade de voto? Woods - Sim. provavelmente é o que ele deseja. mas não vai conseguir. É como um jogo de pôquer, ou uma barganha. De Klerk oferece o mínimo, mas terá de aceitar a igualdade de voto. É irreversível. Estado - Ainda este ano? Woods - Talvez até o final deste ano, ou no máximo no primeiro semestre de 1992. Estado - A luta entre zulus e cossas pode levar o país a uma guerra civil? Woods - Não há muita luta entre zulus e cossas. A principal luta é entre zulus e zulus, na província de Natal. Zulus do Congresso Nacional Africano contra zulus do Partido Inkatha. A luta não é tribal, é política. Estado - O CNA lidera de fato a maioria negra? Woods - Nelson Mandela, sem dúvida. Numa eleição, creio que o CNA teria 60% dos votos. De Klerk teria uns 7% ou 8% (o chefe zulu Mangosuthu) Buthelezi, 3%, assim como o Partido Democrático (liberais brancos). Estado - A imprensa é livre na África do Sul? Woods - Está começando a ser removida a legislação restritiva. O país, que no passado teve uma imprensa livre, terá de reaprender o que é liberdade. Estado - Há repórteres negros nos jornais do país? Woods - Não. Estado - Nem estudantes? Woods - Sim, há estudantes negros de jornalismo. Eu mesmo consegui verbas na Europa para manter no continente 12 negros estudando jornalismo. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |