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África
do Sul avança com Zuma |
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| LOURIVAL SANTANNA |
Domingo, 20
de setembro de 2009
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O novo presidente Jacob Zuma "liberou
o gene do populismo" na política sul-africana. Mas manteve
a bem-sucedida política econômica seguida há 15 anos
e tem promovido a integração racial, nomeando integrantes
das minorias branca (10% da população) e hindu (2%) para
postos-chave do governo. O balanço dos primeiros quatro meses do
governo é de Ann Bernstein, diretora do Centre for Development
and Enterprise, de Johannesburgo, dedicado ao estudo de políticas
públicas. O populismo de Zuma é produto de seu
perfil pessoal. Pouco instruído - ele estudou como autodidata na
lendária prisão de Rodden Island e no exílio -, Zuma
fala e se comporta como o negro comum sul-africano, diz Ann. Ele tem oficialmente
três mulheres e incontáveis casos extramaritais. Um vídeo
feito antes da eleição mostra-o com roupas tradicionais,
cantando e dançando o agressivo hino zulu "Traga-me minha
metralhadora", com a arma em punho. "Ele é muito orgulhoso de ser
zulu", observou Ann, em entrevista ao Estado depois de dar
uma palestra na quarta-feira no Instituto FHC, em São Paulo. "Está
muito à vontade sendo o que é." Ela não considera
que isso seja necessariamente ruim: "Precisamos ver a realidade do
país. É saudável." A capacidade de comunicar-se
com o povo explica a vitória de Zuma sobre o ex-presidente Thabo
Mbeki na disputa pela liderança do Congresso Nacional Africano
(CNA), o partido dominante no país. Zuma era vice-presidente no governo de Mbeki,
e foi destituído em 2005 sob acusação de corrupção.
Três anos depois, desafiou a liderança de Mbeki no CNA e
tornou-se presidente do partido - passo decisivo para presidir o país.
O CNA, fundado por Nelson Mandela, domina a política sul-africana
desde o fim do apartheid e das primeiras eleições multirraciais,
em 1994. O presidente é eleito indiretamente, e o CNA - que obteve
66% dos votos em maio - tem maioria absoluta no Parlamento. Mbeki presidia
o país desde 1999, estava no fim de seu segundo mandato e postulava
um terceiro. Zuma é o primeiro presidente da etnia
zulu, a maior do país, com 23,8% da população. Tanto
Mandela quanto Mbeki são da etnia cossa, a segunda maior, com 17,6%.
Ele derrotou o líder nacionalista zulu Magosuthu Buthelezi em seu
reduto, a província de KwaZulu-Natal. Ann afirma que, até
aqui, a ascensão de Zuma não tem despertado temores nos
cossas. Ao contrário, diz ela, "Zuma começou a reparar
parte do dano racial", em contraste com Mbeki, que frequentemente
lançava mão da "carta racial" contra os que discordavam
dele. Diante das críticas por causa das altas taxas de criminalidade,
por exemplo, o então presidente alegou que o crime era "problema
de branco". Segundo a analista, Zuma formou uma equipe
econômica "excelente", e tem nomeado técnicos brancos
e hindus. "Precisamos dos talentos deles", diz Ann, ela mesma
da minoria branca. Ainda pesa, no entanto, a forte tradição
do CNA de nomear preferencialmente negros e militantes do partido. "O
clientelismo impera no CNA", critica a analista. Ela explica que
a eleição não é distrital, e os políticos
não prestam contas aos eleitores de suas bases, mas aos chefes
do partido. O grupo de Mbeki, incluindo ministros de
seu governo, deixou o CNA e fundou o Congresso do Povo, que obteve 7%
dos votos na eleição de maio e hoje faz oposição
ao governo de Zuma. "É o surgimento de uma oposição
formal", celebra Ann. "É fantástico para a África
do Sul ter uma outra escolha e caminhar para uma verdadeira política
partidária." Até aqui, diz a analista, a maioria negra
(79%) votava de modo automático no CNA, independentemente de todas
as queixas que tinha em relação ao partido. Como arquétipo do negro sul-africano,
Zuma pode não ser um bom modelo no que se refere a um dos grandes
problemas do país: a epidemia de aids. Cerca de 11% dos 49 milhões
de sul-africanos têm o HIV. Em 2006, durante julgamento em que era
acusado de estuprar uma mulher de 31 anos mesmo sabendo que ela era portadora
do vírus da aids, Zuma explicou que não havia com que se
preocupar porque "tomou uma ducha" depois do ato sexual. Depois de Mbeki ter passado metade de seu
governo de dez anos negando a gravidade da epidemia de aids no seu país,
não é exatamente inspirador. "A batalha contra a aids
requer engajamento sem ambiguidades de todos os líderes sul-africanos",
diagnostica Ann. Desde que Mbeki reconheceu, na metade da década,
a necessidade de fazer algo, o governo tem feito campanhas, e conduz o
maior programa de distribuição de retrovirais do mundo. O maior problema do governo Zuma é
o desemprego. Graças ao crescimento econômico, que entre
2004 e 2007 teve média de 5%, o índice oficial caiu nos
últimos dez anos de 28% para 23,5%, mas continua alto. Esse índice
exclui a vasta mão-de-obra subempregada, e Ann estima que o déficit
de empregos formais esteja entre 36% e 38%. Entre os jovens de 18 a 30
anos, diz ela, o índice chega a 60%. Ao mesmo tempo em que faltam
empregos para a grande massa de negros sem capacitação profissional,
falta também mão-de-obra especializada e de nível
superior, como médicos e engenheiros. "Praticamente não
há desempregados brancos e hindus", constata a analista. "O
desemprego é um fenômeno negro." Para gerar mais empregos formais, diz Ann,
seria necessário mudar a legislação trabalhista -
inspirada na alemã -, que garante muitos direitos para quem tem
carteira assinada mas encarece muito a contratação. Isso
implicaria enfrentar os sindicatos, que têm forte influência
sobre o CNA. |