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Sob o signo dos
guerreiros |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 13
de junho de 2010
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ULUNDI, África do Sul Orgulhosos de seu passado de guerras contra
os colonizadores britânicos e de expansão e domínio
sobre outras etnias negras, os zulus têm uma preocupação
com sua imagem e identidade que para outros poderia parecer exacerbada.
Na semana passada, o rei dos zulus, Goodwill Zwelithini kaBhekuzulu, ordenou
que fosse retirada do novo aeroporto de Durban, construído para
a Copa do Mundo, uma estátua de seu antepassado, o rei Shaka, fundador
do reino zulu no século 19, porque ele não parecia suficientemente
belicoso. Na estátua de US$ 400 mil encomendada
pelo governo da Província de Kwazulu-Natal ao escultor branco Andries
Botha, Shaka é representado sem as suas armas, e no meio de vacas.
"O rei Shaka nunca se pareceria com um menino cuidando do gado",
protestou o príncipe Mbonisi, porta-voz de Zwelithini. "Ele
é o rei dos zulus. " Descerrada pelo presidente sul-africano,
Jacob Zuma, em maio, a escultura teve de ser removida do aeroporto, que
leva o nome de Rei Shaka. Rei desde 1968, quando seu pai, Cyprian Bhekuzulu
kaSolomon, morreu, Zwelithini, de 62 anos, tem um poder mais que tudo
simbólico. Mas ele se dedica também a objetivos bastante
pragmáticos. Na quarta-feira, o rei recebeu em Ulundi, em Kwazulu-Natal,
o presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo
- um quase monarca, no poder desde 1979. O encontro teve cerimônias
de exaltação por guerreiros zulus e danças ritualísticas,
mas o principal tema era a atração de investimentos para
a província sul-africana. "Temos de transformar boas intenções
em ação", discursou Zwelithini, que já visitou
a Guiné Equatorial e havia recebido Mbasogo outra vez, quando o
condecorou como súdito zulu. "Quero que vocês percorram
nossa província em busca de oportunidades de negócios e
voltem para investir aqui e criar empregos para o meu povo", pediu
o rei, em perfeito inglês, enumerando as vantagens oferecidas por
Kwazulu-Natal, entre elas "a melhor infraestrutura de transporte
e o melhor aeroporto do país" - o Rei Shaka. "A terra
dos zulus é um paraíso para todos", declarou o rei,
numa referência ao significado da palavra "zulu" (paraíso).
Zwelithini pressionou recentemente o governo
da província - que sustenta as onerosas contas de suas 6 esposas
e 27 filhos - para consertar as estradas que conduzem aos seus quatro
palácios em Nongoma (300 km ao norte de Durban), argumentando que
eles são atrações turísticas que podem gerar
receita. Mas é preciso pedir autorização para visitar
os palácios, que abrigam algumas das rainhas. No mais importante
está a sua terceira mulher, Mantfombi Dlamini, irmã do rei
Mswati III da Suazilândia, que se casou com ele sob a condição
de se tornar a rainha principal, para que seu primogênito fosse
herdeiro do trono. A arquitetura dos palácios não
tem nada a ver com a acepção europeia da palavra. Eles são
conjuntos de cabanas com paredes de argila e tetos de palha, inspiradas
nas moradias tradicionais dos zulus - apenas mais suntuosas. Os zulus
não reúnem os cômodos em uma casa, mas os mantêm
separados. Em nome da privacidade, cada quarto dos filhos é uma
cabana, assim como a cozinha. O rei também tem buscado aliar a tradição
a um dos temas mais delicados na África do Sul: o combate à
aids num país onde 17% das pessoas de 15 a 49 anos estão
infectadas com o vírus HIV. Isso representa 10,6% da população
total, ou 5,21 milhões de pessoas (no Brasil, são 630 mil
infectados, ou 0,3% da população). Zwelithini defende a retomada da tradicional prática da circuncisão como forma de debelar a epidemia. Os zulus eram circuncidados em rituais quando atingiam os 18 anos. Segundo estudos feitos na África do Sul, Quênia e Uganda, citados pela imprensa sul-africana, homens circuncidados têm 60% menos risco de infectar-se. O governo da província estipulou a meta de circuncidar 186 mil adultos e 47 mil recém-nascidos neste ano. "O nosso rei é muito respeitado,
tem mais poder que o primeiro-ministro (equivalente a governador) de Kwazulu-Natal",
avalia o empresário Skhumbuzo Xaba, de 34 anos, que promove alguns
dos eventos de Zwelithini. "Ele representa o que nós somos.
O que você está vendo aqui hoje, a música, a dança,
o poeta que exalta o rei, os guerreiros que o acompanham na sua entrada,
tudo isso nos faz acreditar no que somos." |