Sob o signo dos guerreiros
Tribo majoritária na África do Sul, os zulus cultivam a alma aguerrida de quem resistiu ao
domínio britânico e ainda inspiram os anfitriões da primeira Copa do Mundo realizada no continente africano

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Domingo, 13 de junho de 2010

ULUNDI, África do Sul
Com suas 11 línguas oficiais e nove etnias negras, além de brancos, mulatos, hindus, malaios, indonésios, outros asiáticos e os aborígines, a África do Sul é um país vertiginosamente diverso. Mas, se fosse para escolher um grupo para representar o país, certamente seria o dos zulus. Não só porque são a maior fatia da população: um em cada quatro sul-africanos é zulu. Mas porque a maioria das imagens que singularizam o país - ou a sua face africana - vem dos zulus: seus guerreiros cobertos de peles de leões e de leopardos, suas lanças e escudos, suas danças ritualísticas, sua militante poligamia, suas moças com os seios de fora, para demonstrar a virgindade e atrair pretendentes, sua música de coros cálidos e compasso envolvente.

Orgulhosos de seu passado de guerras contra os colonizadores britânicos e de expansão e domínio sobre outras etnias negras, os zulus têm uma preocupação com sua imagem e identidade que para outros poderia parecer exacerbada. Na semana passada, o rei dos zulus, Goodwill Zwelithini kaBhekuzulu, ordenou que fosse retirada do novo aeroporto de Durban, construído para a Copa do Mundo, uma estátua de seu antepassado, o rei Shaka, fundador do reino zulu no século 19, porque ele não parecia suficientemente belicoso.

Na estátua de US$ 400 mil encomendada pelo governo da Província de Kwazulu-Natal ao escultor branco Andries Botha, Shaka é representado sem as suas armas, e no meio de vacas. "O rei Shaka nunca se pareceria com um menino cuidando do gado", protestou o príncipe Mbonisi, porta-voz de Zwelithini. "Ele é o rei dos zulus. " Descerrada pelo presidente sul-africano, Jacob Zuma, em maio, a escultura teve de ser removida do aeroporto, que leva o nome de Rei Shaka.

Rei desde 1968, quando seu pai, Cyprian Bhekuzulu kaSolomon, morreu, Zwelithini, de 62 anos, tem um poder mais que tudo simbólico. Mas ele se dedica também a objetivos bastante pragmáticos. Na quarta-feira, o rei recebeu em Ulundi, em Kwazulu-Natal, o presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo - um quase monarca, no poder desde 1979. O encontro teve cerimônias de exaltação por guerreiros zulus e danças ritualísticas, mas o principal tema era a atração de investimentos para a província sul-africana.

"Temos de transformar boas intenções em ação", discursou Zwelithini, que já visitou a Guiné Equatorial e havia recebido Mbasogo outra vez, quando o condecorou como súdito zulu. "Quero que vocês percorram nossa província em busca de oportunidades de negócios e voltem para investir aqui e criar empregos para o meu povo", pediu o rei, em perfeito inglês, enumerando as vantagens oferecidas por Kwazulu-Natal, entre elas "a melhor infraestrutura de transporte e o melhor aeroporto do país" - o Rei Shaka. "A terra dos zulus é um paraíso para todos", declarou o rei, numa referência ao significado da palavra "zulu" (paraíso).

Zwelithini pressionou recentemente o governo da província - que sustenta as onerosas contas de suas 6 esposas e 27 filhos - para consertar as estradas que conduzem aos seus quatro palácios em Nongoma (300 km ao norte de Durban), argumentando que eles são atrações turísticas que podem gerar receita. Mas é preciso pedir autorização para visitar os palácios, que abrigam algumas das rainhas. No mais importante está a sua terceira mulher, Mantfombi Dlamini, irmã do rei Mswati III da Suazilândia, que se casou com ele sob a condição de se tornar a rainha principal, para que seu primogênito fosse herdeiro do trono.

A arquitetura dos palácios não tem nada a ver com a acepção europeia da palavra. Eles são conjuntos de cabanas com paredes de argila e tetos de palha, inspiradas nas moradias tradicionais dos zulus - apenas mais suntuosas. Os zulus não reúnem os cômodos em uma casa, mas os mantêm separados. Em nome da privacidade, cada quarto dos filhos é uma cabana, assim como a cozinha.

O rei também tem buscado aliar a tradição a um dos temas mais delicados na África do Sul: o combate à aids num país onde 17% das pessoas de 15 a 49 anos estão infectadas com o vírus HIV. Isso representa 10,6% da população total, ou 5,21 milhões de pessoas (no Brasil, são 630 mil infectados, ou 0,3% da população).

Zwelithini defende a retomada da tradicional prática da circuncisão como forma de debelar a epidemia. Os zulus eram circuncidados em rituais quando atingiam os 18 anos. Segundo estudos feitos na África do Sul, Quênia e Uganda, citados pela imprensa sul-africana, homens circuncidados têm 60% menos risco de infectar-se. O governo da província estipulou a meta de circuncidar 186 mil adultos e 47 mil recém-nascidos neste ano.

"O nosso rei é muito respeitado, tem mais poder que o primeiro-ministro (equivalente a governador) de Kwazulu-Natal", avalia o empresário Skhumbuzo Xaba, de 34 anos, que promove alguns dos eventos de Zwelithini. "Ele representa o que nós somos. O que você está vendo aqui hoje, a música, a dança, o poeta que exalta o rei, os guerreiros que o acompanham na sua entrada, tudo isso nos faz acreditar no que somos."

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