|
QUNU, África do Sul
O barracão
de Alven Mandela fica quase em frente do sobrado de seu primo, protegido
por policiais. Mas há mais do que uma estrada separando sua vida
da de Nelson Mandela. Quando veem dois brancos conversando com Alven e
seu neto Mashiya na frente de seu barracão, na beira da estrada,
policiais negros param o carro e perguntam ao repórter e ao fotógrafo
do Estado. "Está tudo bem? " O apartheid acabou
há quase duas décadas, mas a alta criminalidade faz os policiais,
mesmo os negros, dedicarem-se à proteção dos brancos.
Depois de horas tentando localizar o vilarejo de Qunu, que não
figura no GPS, e a casa de Alven, repórter e fotógrafo chegam
no exato momento em que vai começar África do Sul x México.
Informado por eles sobre a partida, Alven, de 65 anos, liga o rádio
em sua sala de chão de terra batida na emissora Umhlobo Wenene
("Amigo Verdadeiro", em cossa), que transmite a partida no idioma
de seu grupo étnico. Praticamente todos os moradores da região,
situada na província de Eastern Cape, são negros, e praticamente
todos os negros são cossas, que representam 18% da população
sul-africana.
Alven, que está morando só com o neto de 32 anos, depois
que sua segunda mulher foi embora de casa há três meses,
tem televisão, mas, com a visão prejudicada pela catarata,
prefere ouvir a assistir ao jogo. Mas ele está interessado mesmo
é em seus visitantes: "Estou muito feliz de estarem aqui",
diz, com a cordialidade que caracteriza seu famoso primo - cujo pai, Gadla,
era irmão de seu pai, Solomon. Pela tradição africana,
Alven e Nelson são considerados irmãos, por causa da linhagem
paterna.
A última vez em que estiveram juntos foi na Páscoa. Com
quase 92 anos, que completará dia 18, o líder negro vem
a Qunu de helicóptero. "Ele sempre organiza alguma coisa para
nós quando vem aqui", conta Alven, cujo rosto é muito
parecido com o do primo. Mandela tem casas também em Johannesburgo
e em Maputo - sua atual mulher, Graça, é moçambicana,
viúva do ex-presidente Samora Machel.
Em boa forma, Alven chegava de uma caminhada, segundo ele, de 4 horas.
"Fui visitar minha namorada", cochichou com olhar maroto, apontando
para um grupo de árvores altas ao longe. Ela tem 45 anos. Sua primeira
mulher morreu há cerca de 10 anos.
Batizado Rolihlahla,
Mandela nasceu em Mvezo, a 40 km de Qunu, onde veio estudar com cerca
de 7 anos. Na antiga escola de missionários britânicos, recebeu
o nome inglês Nelson. Da escola restam pedaços de paredes.
A seu lado, foi construída uma das duas sedes do Museu Nelson Mandela
(a outra fica em Mthatha, sede do município).
"Ele fez muito
por nós", afirma Alven, lembrando o tempo do apartheid: "Eu
catava tiras de casca de laranja do chão para comer. Andava daqui
a Mthatha (a 30 km) para procurar trabalho, tentando escapar da polícia,
porque não tinha permissão para sair daqui", conta.
Alven conta que foi
assaltado recentemente, e pede dinheiro aos visitantes. Seu neto diz que
está desempregado. "Se você tiver um emprego, por favor
me dê, eu suplico", pede Mashiya. Ele ganha alguns trocados
fazendo serviços esporádicos para um médico, segundo
ele, o único branco que mora em Qunu, que reúne 18 vilas
e 70 mil habitantes. "Nós
o amamos muito, ele é como se fosse um Madiba para nós,
mesmo sendo branco", diz Mashiya, referindo-se ao nome do clã
da família Mandela.
Solteiro, ele é sustentado pela mãe, que trabalha como cozinheira
em East London, a 185 km, onde ela mora com seu marido e filhos do segundo
casamento, depois de ter ficado viúva do pai de Mashiya. "Quando
ela vem, sempre me dá algo, nem que seja um ovo, ou 10 rands (US$
1,50). "
Mesmo sendo parentes de Mandela e morando em frente da sua casa, as vidas
de Alven e de Mashiya não diferem muito da de milhões de
negros sul-africanos, que não precisam mais de autorização
para se deslocar de um lugar para outro, mas continuam pobres - e visados
pela polícia.
Copyright
© O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados
|