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África selvagem
transforma safáris em meio de preservação |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 4
de julho de 2010
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MBOMBELA, África do Sul Mas a iniciativa privada
não atua só nos parques públicos. Centenas de reservas
privadas surgiram a partir dos anos 40 na África do Sul, em geral
em áreas contíguas ou próximas aos parques nacionais,
aproveitando seus ecossistemas e o fluxo de turistas que eles atraem.
Fazendas de gado e de ovelhas deram lugar a ranchos de safári.
Muitas se consolidaram em cooperativas, formando unidades maiores, chamadas
"conservancies". Parte dos fazendeiros
mudou de negócio, da agropecuária para o ecoturismo. Parte
arrendou suas terras para empresários do setor. Hoje muitos deles
já estão na segunda ou terceira geração, de
filhos e netos de fazendeiros convertidos para o setor do turismo. E o
movimento continua, com muitas fazendas sendo vendidas ou arrendadas para
se tornar locais de safári. Segundo Grant Hine,
presidente da Associação de Guias de Campo da África
do Sul, o setor emprega 50 mil guias - incluindo os de safári,
os de esportes radicais e os de locais turísticos. Desses, entre
85% e 90% trabalham para empresas privadas. Os salários variam
de 1 mil rands (US$ 133) a 8 mil rands (US$ 1.066). Os safáris
- e os seus guias - eram tradicionalmente negócio de brancos. O
governo tem estimulado a contratação de moradores das áreas
em torno das reservas, pagando pelo seu treinamento nas cerca de 100 empresas
credenciadas para isso. Como resultado, entre 35% e 40% dos guias formados
atualmente pela associação são negros, diz Hine. Os parques nacionais
empregam diretamente 4,5 mil pessoas, além dos estagiários
e dos empregos indiretos que geram. Só no Kruger Park, o maior
dos parques nacionais (19 mil km²), são 1.885 funcionários
permanentes, 202 temporários e 64 estagiários. Esses são
os funcionários do governo. Além deles, há os empregados
das oito empresas que mantêm hotéis dentro do parque - com
seus respectivos serviços de safáris - e das três
que operam restaurantes, lojas e áreas de piquenique. O número de
visitantes do parque subiu 7,8% no último ano, de 1,32 milhão
para 1,43 milhão. Os hotéis estavam praticamente todos lotados
essa semana, nas férias de inverno. Quem passa a noite no parque
paga uma "taxa de conservação" de 160 rands (US$
21,33) ao governo. Os visitantes que vão passar o dia, muitos deles
moradores das comunidades locais, não pagam a entrada. Um pouco
menor que o Estado de Israel, e com o mesmo formato alongado, o Kruger
parece um país. Cada hotel corresponde a uma cidade no seu mapa,
que indica os animais mais frequentes nas suas imediações. O último censo,
feito em 2005, mostra um aumento na população de muitas
espécies de animais. Os elefantes, por exemplo, subiram de 7.454,
em 1980, para 12.470; as girafas, de 4.122 para 6.700; e os rinocerontes
brancos, que chegaram perto da extinção no fim do século
19, saltaram de 598 para 6.940. Nos safáris guiados pelas equipes
dos hotéis entre 17h30 e 20h30 e entre 5h30 e 8h30, é fácil
encontrar famílias de leões nas estradinhas que cruzam o
parque. Elefantes, girafas, zebras, rinocerontes, hipopótamos,
búfalos e várias espécies de antílopes são
vistos facilmente durante o dia. Isso também
acontece nas reservas privadas. Até 2002, havia seis fazendas de
gado onde hoje existe a reserva Thanda ("amor", em zulu). O
empresário sueco da área de telefonia Dan Olofsson foi comprando
as terras, que hoje somam 14 mil hectares, num investimento de 400 milhões
de rands (US$ 53,3 milhões). Hoje, ela tem 14 leões, 15
rinocerontes pretos e 21 brancos, pelo menos 14 leopardos, 16 hienas,
18 elefantes e 130 búfalos. A reserva emprega direta e indiretamente
130 pessoas, mantém projetos sociais que envolvem 200 mil pessoas
da comunidade, na província de Kwazulu-Natal (sudeste do país)
e recebe cerca de 3 mil visitantes por ano, que pagam uma média
de 5 mil rands (US$ 667) por noite. Parte da renda vai para a fundação
do rei zulu Goodwill Zwelithini, em cujo território se situa a
reserva. "É um
negócio lucrativo, considerando que os donos se hospedam com amigos
a cada dois ou três meses", diz o gerente da reserva, Pierre
Dalvaux. "Não há caça, e quando temos animais
em excesso, fornecemos para outras reservas." Proibida em todos
os parques nacionais, a caça é permitida, de forma controlada,
em reservas privadas. Apesar de seu aspecto brutal, a caça também
tem impulsionado a criação de reservas e a expansão
do número de animais. Os preços variam, mas, em média,
para caçar um leão pagam-se 500 mil rands (US$ 67 mil);
um leopardo, 75 mil rands (US$ 10 mil); um rinoceronte branco, 650 mil
rands (US$ 87 mil). Com esses preços, as reservas de caça
podem gerar lucros matando poucos animais e criando espaço para
muitos. Richard Sowry, ranger
(policial ambiental) no Kruger Park, defende a "caça sustentável"
como forma de preservar o meio ambiente. Sowry conta que trabalhava na
reserva privada Klaserie. Em todo o ano de 2001, foram caçados
na reserva dois leões, dois elefantes e cinco búfalos, gerando
receita de 1,2 milhão de rands. Isso deu para sustentar a reserva,
que tinha cerca de 100 leões e 400 elefantes, e ainda gerar lucros,
garante o ranger - um dos cerca de 300 que patrulham o Kruger. Sowry diz que uma
reserva de safári apenas para fotografar pode degradar o meio ambiente
se gerar lixo sem destinação adequada, se não tiver
tratamento de esgoto ou causar excessiva aglomeração de
veículos. "O importante é que as reservas sejam geridas
de forma sustentável, independentemente de serem para caça
ou não." Harriet Davies-Mostert,
diretor científico do Endangered Wildlife Trust (Fundo da Vida
Selvagem em Risco), enumera "aspectos positivos da indústria
da vida selvagem": aumento na distribuição e abundância
dos grandes herbívoros; recuperação de várias
espécies em risco, como bontebok (antílope), zebra da montanha
do cabo e rinoceronte branco; redução dos rebanhos e da
degradação do solo que eles causam. Muitos acordos entre
reservas, tanto estatais quanto privadas, têm derrubado as cercas
que as separam, aumentando a quantidade e a qualidade de vida dos animais
- e, com elas, sua atratividade e lucratividade. Assim como as cercas,
caem na África do Sul os tabus que impedem o desenvolvimento sustentável.
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