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Mosaico étnico
e religioso busca nova acomodação depois do apartheid |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Terça-feira, 29
de junho de 2010
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DURBAN Na Índia, esse
convívio é em muitos casos impossível, com hinduístas
- em geral passivos - queimando mesquitas e muçulmanos destruindo
templos hindus. Em Durban, está o que os moradores locais consideram
a maior mesquita do Hemisfério Sul, a Jumah Masjid e, a poucos
quilômetros dali, o maior templo hinduísta da África,
o Alayam Temple, dedicado ao Deus Shiva (e a 12 outras formas por ele
assumidas). Ambos pertencem à comunidade de origem indiana, paquistanesa
e cingalesa, que representa 14,5% da população da cidade
- 11,3% hinduístas e 3,2% muçulmanos (68% são cristãos). O bazar da Madressa
Arcade (Galeria da Escola), construída em 1927, poderia bem estar
na parte muçulmana da Índia ou no Paquistão - não
fosse cerca de metade dos lojistas negros, alguns convertidos ao islamismo.
Abubakr Mohammed Dawood, de 38 anos, tem uma loja de utensílios
domésticos no bazar. Vestindo shalwar kameez (longo robe islâmico),
a barba espessa sem bigode, a cabeça coberta pelo tupi (pequeno
chapéu de algodão), Dawood sorri afavelmente para os estrangeiros.
Seu pai e avós
maternos nasceram no Estado indiano de Gujarat, como boa parte dos muçulmanos
de Durban. Embora o gujarati mais famoso que viveu na cidade fosse hinduísta:
Mahatma Gandhi, líder da independência indiana, trabalhou
em 1893 num escritório de advocacia na então colônia
inglesa de Natal, cujo nome veio de sua descoberta pelo português
Vasco da Gama em 25 de dezembro de 1497. Dawood fala com seus
pais em urdu, a língua predominante dos muçulmanos indianos,
e memon, dialeto de sua região. Já com seu filho de 15 anos,
fala inglês. Quando estava com 9 a 10 anos, o garoto estudou em
uma escola pública, frequentada por crianças negras. Não
deu certo. "Ele ficou sujeito a exposição demais, a
liberdade demais, a Facebook, sexo, drogas, forças do mal",
resume Dawood. "Estava ficando desobediente em casa." Agora
o rapaz está em uma escola islâmica, na qual aprende a ler
o Alcorão, o livro sagrado muçulmano, escrito em árabe,
e a "manter a sua cultura". Indianos e negros
tradicionalmente nutrem desconfiança entre si na África
do Sul, embora ambos fossem discriminados no apartheid, como "não-brancos".
"Eles sempre nos consideraram dominantes, porque temos negócios",
observa Dawood. "Mas agora os negros estão amolecendo bastante
com a gente, por causa do futebol. Há muito mais união,
gente de todas as cores nos estádios. Sentem que estamos com eles." Como quase todo indiano
e paquistanês, Dawood é um amante do críquete, levado
à Índia e ao Paquistão pelos ingleses. "Agora
meus amigos estão gostando de futebol", diz ele. Cassim Bassa,
de 67 anos, que nasceu na sobreloja de sua banca de sapatos e roupas no
bazar e é neto de gujaratis, ia desde jovem nas partidas de futebol
entre indianos, mulatos e negros. "Não podíamos
jogar contra os brancos", recorda Bassa, que fala em gujarati com
seus três filhos adultos. Ele tinha futebol nas aulas de educação
física da escola e também acompanhava pela televisão.
Os dois times da época, o Aces United e o Avalon Athletic, não
existem mais. Com sua imensa maioria zulu - dois terços da população
da cidade -, Durban é considerada um dos berços do futebol,
o esporte preferido dos negros sul-africanos. "Os indianos
e chineses contavam como negros", diz Bassa, lembrando os tempos
do apartheid. "No correio, havia duas filas. Nos ônibus, os
não-brancos tinham de sentar no fundo. A praia era separada."
O comerciante reconhece que era mais difícil para os negros: "Eles
(os brancos) sabiam que os negros eram maioria. Os indianos e asiáticos
são minoria. Não ameaçam." Como grande parte
dos brancos, os indianos associam o fim do apartheid ao aumento da criminalidade.
"O crime aumentou muito e trouxe muito medo", diz Dawood, para
quem a razão é que as fronteiras se abriram para imigrantes
de países vizinhos, como Moçambique a Zimbábue. Cassim
não vai ao estádio por causa da violência: "Temos
medo de ir porque os negros bebem muito e ficam violentos quando perdem." Zahir Mohammed Sacoor,
de 39 anos, que tem uma loja de fraldas descartáveis e guardanapos,
pretende assistir à final da Copa Uefa. Torcedor do Manchester
United, ele diz que não tem time na África do Sul: "Não
gosto da forma como eles jogam." Quanto à Índia, eles
gostam de ir para passear, mas não se adaptariam: "Tem gente
demais e é muito sujo", concordam Cassim e Sacoor. "Há muitos
zulus e cossas muçulmanos. O Islã está crescendo
muito rápido, estamos construindo mesquitas na área rural",
celebra o pregador. Na oração das 13h da mesquita Jumah,
havia cerca de 500 pessoas, um terço dos quais, negros, e os restantes,
de origem indiana. Mncanywa é sustentado pelo Abangoni Islamic
Trust, um fundo muçulmano negro, e se autodenomina "ministro",
usando ainda a terminologia protestante. Criado em família metodista,
ele diz que mudou de religião porque "não podia fazer
perguntas" no cristianismo. Mncanyma defende a tese de que os negros tinham um só deus antes da chegada dos europeus. Como os muçulmanos, não cultivavam imagens dele, tanto assim que o chamavam umveli ngkangi, que significa "aquele que aparece desconhecido" no idioma ngoni, tronco banto das línguas faladas pelos negros sul-africanos. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |