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Bosquímanos
são vestígio de povo antigo e quase extinto |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 27
de junho de 2010
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ANDRIESVALE, África do Sul "Por volta das
5 horas, passou aqui um gato selvagem", continua o rapaz de 27 anos,
falando em africâner, a língua dos descendentes de holandeses.
Witbooi sabe que ele passou mais tarde porque as marcas de suas garras
estão sobre as pegadas das gazelas. "Estava procurando pássaros
e ratos para comer." Seus rastros levam a um pé de jatobá
com um imenso ninho de pássaros tecelões, que vivem em numerosas
comunidades. Mais adiante, pegadas na forma das garras de tamanduá
conduzem a um buraco sob a sombra de uma árvore, partilhado com
pássaros que lhe servem de guarda e anunciam a chegada de algum
perigo. Witbooi vive de rastrear
vestígios de animais na areia vermelha do Deserto do Kalahari,
para os turistas que vêm fazer safári nessa região
inóspita do noroeste da África do Sul. Mas ele próprio
é o vestígio de um povo antigo e quase extinto. Os bosquímanos,
ou homens dos bosques, vivem no sul da África há pelo menos
100 mil anos, segundo datação de carbono em pinturas feitas
nas rochas. Primeiros habitantes da região, elo mais antigo dos
homens das cavernas, eles caçavam e colhiam frutos na savana e
nos bosques quando os negros bantos vieram do norte e tomaram suas terras
para plantar e criar animais, há cerca de 2.500 anos. Exames de
DNA provaram que eles estão entre os povos mais misturados - e
portanto mais antigos - do mundo. Os bosquímanos
foram legalmente reconhecidos em 1996 com o nome de povo san na África
do Sul, Namíbia, Botsuana e Angola, mas pelo menos os sul-africanos
gostam mesmo é de ser chamados de bushmen, ou bosquímanos
em inglês. "Os negros, para se tornarem homens, têm de
ir para o mato. Nós nascemos no mato", orgulha-se Andries
Steenkamp, de 50 anos, presidente do Conselho San da África do
Sul. Segundo ele, há no país cerca de 9 mil bosquímanos
reconhecidos. Somando com os outros países, totalizam por volta
de 100 mil. Em cada região
os bosquímanos falam uma língua diferente. Na África
do Sul, sua língua original é o !nu (com ponto de exclamação
no início, que assinala um dos 74 estalos que constituem fonemas
do idioma), mas apenas sete anciãos ainda falam essa língua.
Ao perder suas terras, primeiro para os negros e depois para os mulatos
e brancos, eles passaram a trabalhar para os descendentes de holandeses,
e por isso a língua materna das últimas gerações
tornou-se o africâner. Como aconteceu com os escravos no Brasil,
eles adotaram até mesmo os nomes dos donos das fazendas. Um dos
trabalhos do Conselho é promover aulas de !nu para crianças,
que são dadas por três anciãos, na tentativa de evitar
que a língua desapareça completamente com a morte deles. Os bosquímanos
distinguem-se dos negros pela estatura mais baixa, compleição
mais franzina, pele alaranjada, cabelos de um crespo mais arredondado,
pálpebras protuberantes, a testa mais sobressalente e os olhos
afundados. E pela atitude diferente: "Você percebe quando entra
numa comunidade de bosquímanos", descreve Steenkamp. "Eles
são muito medrosos, não são ousados. Se querem ir
até aquele carro, não vão diretamente, mas esgueirando-se.
Têm muito medo de conviver com outras pessoas. Em geral não
conseguem terminar o ensino médio. Já no mato são
os melhores. É a vida deles." No ambiente árido
do Kalahari, os bosquímanos desenvolveram técnicas ancestrais
de sobrevivência. No período da chuva, armazenam água
em ovos de avestruz, que enterram e depois retiram para beber na seca.
Alimentam-se também de uma espécie de melão chamado
tsama, que contém bastante líquido, e da hoodia, um cacto
que além de matar a sede elimina completamente o apetite. E são
notáveis caçadores, embora se tenha perdido no tempo o veneno
que colocavam na ponta de suas flechas, e que matava lentamente os animais
sem contaminar a carne. Os bosquímanos
contam que, em 1992, Regostaan Kruiper, pai do atual chefe deles, Dawid,
curou de uma doença, com rituais e plantas medicinais, o advogado
de direitos humanos sul-africano Roger Chennells, hoje com 60 anos. O
advogado perguntou o que Regostaan o queria em troca. O chefe respondeu:
"Quero minha terra de volta." Até aqui, trata-se de uma
lenda, disse Chennells ao Estado. Mas o que se segue é fato. Chennells
conseguiu que o governo do então presidente Nelson Mandela desapropriasse
36 mil hectares de seis fazendas no município de Andriesvale, ao
norte da província de Eastern Cape, perto da fronteira com Botsuana.
Duas delas são
reservas de caça, que renderam 1.630 rands (US$ 217) em 2009, além
de 35 gazelas caçadas pelos bosquímanos para seu consumo.
Este ano, não poderão ter esse uso, porque parte das cercas
está danificada e os animais fogem para outras fazendas. Outras
três fazendas são destinadas à criação
de animais, mas sem muito êxito. "Precisamos que fazendeiros
nos ensinem a administrar fazendas", pede Frederik Brow, de 29 anos,
gerente do South African San Institute (Sasi). A sexta é usada
para cultivar plantas medicinais. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |