|
Esporte dos negros,
futebol agora estimula a integração |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Segunda-feira, 21
de junho de 2010
|
|
BLOEMFONTEIN "Prefiro rúgbi",
diz Ben, um fazendeiro de 44 anos, desculpando-se pelo seu inglês,
já que seu idioma nativo é o africâner, derivado do
holandês dos primeiros colonizadores. Ele não quer sofrer.
"Não acho que os Bafana vão ganhar dessa vez."
Com os Springboks, a seleção nacional de rúgbi, a
coisa é diferente. "Eles venceram a última partida,
contra a França, e já foram três vezes campeões
mundiais." O resultado da partida
vai dando razão a Ben: o Uruguai vence por 3 a 0. Mas essa não
é a razão principal da indiferença do casal. O futebol
tem sido, historicamente, o esporte dos negros na África do Sul,
enquanto os brancos têm o rúgbi, trazido pelos segundos colonizadores,
os ingleses (que afinal também criaram o futebol, mas o apartheid
sempre encontrou os meios mais artificiais de separar os sul-africanos
pela cor da pele). E o que eles acham
de a África do Sul ser sede do torneio mundial de futebol? "No
início ficamos com medo, não sabíamos o que esperar,
não sabíamos que tipo de gente viria para cá",
relata Sanmarie, de 40 anos, dona de um açougue na pequena Dealeville,
a 70 km de Bloemfontein, onde o casal mora. "Mas depois vimos que
são pessoas legais. É bom ter diferentes tipos de pessoas
juntas." O filme que eles acabavam
de ver falava exatamente disso: Schuks Tshabalala's Survival Guide to
South Africa 2010, do diretor sul-africano Leon Schuster, um bem-humorado
"guia de sobrevivência" para os turistas que vêm
à Copa, e na verdade uma ácida exposição das
contradições desse país diverso, que ao longo do
último século lidou terrivelmente mal com essa diversidade.
Ben e Sanmarie não
eram os únicos. Na noite fria de quarta-feira, o shopping, situado
no bairro tradicionalmente branco de West Dene, estava repleto de pessoas
caminhando indiferentes ao jogo. Michael Halakatevas, de 38 anos, dono
do Euro Caffé, um dos bares que estavam exibindo o jogo, tinha
uma explicação interessante sobre por que havia menos gente
assistindo do que na estreia da África do Sul contra o México,
dia 11: "O jogo de hoje foi mais tarde (20h30). Os negros vêm
de transporte público e para eles fica mais difícil. O jogo
anterior era de tarde (16h)." Na noite de quarta,
havia 29 brancos e 4 negros assistindo a partida. Mas a poucos metros
dali o Bar Richelieu tinha a relação inversa: estava lotado
de negros e só um casal branco. "Ainda há muita separação",
reconhece Halakatevas, integrante da expressiva comunidade grega de Bloemfontein. Numa mesa separada,
três estudantes negros da Universidade Free State, exclusivamente
branca na época do apartheid, e agora de maioria negra, assistem
à partida. "Nós gostamos de futebol há muito
tempo", dizem os irmãos Mooki, de 22 anos, e Tsireletso Makhetha,
de 19, que estudam psicologia e contabilidade, respectivamente. Mooki
torce para o Celtics de Bloemfontein; Tsireletso, para o Kaizer Chiefs
de Soweto - ambos clubes que nasceram de trabalhos sociais nas cidades-dormitórios.
Dibho Seotsanyane, de 20 anos, estudante de recursos humanos e namorada
de Mooki, diz que está começando a acompanhar futebol agora
na Copa. "O futebol está
unindo muito as pessoas", observa Mooki. "Eu assisto rúgbi,
mas não faz muito tempo." Ele e o irmão dizem que torcem
para os Cheetas de Bloemfontein. "Os brancos e os negros ainda estão
muito separados", reconhece Dibho. "Estão se integrando
devagar." Segundo Mooki, o rúgbi continua bem mais forte que
o futebol na universidade. "Acho que depois da Copa do Mundo vai
ser diferente." Frustrados, muitos
torcedores se levantaram e foram embora depois do terceiro gol do Uruguai.
Mas, acabado o jogo, seis adolescentes negros passaram festejando. "Não
temos de ficar tristes porque os Bafana perderam", explicou Thuto
Ntsiuda, estudante do ensino médio, de 17 anos. "Pelo menos
jogamos. Se não fôssemos anfitriões, não teríamos
nos classificado para jogar na Copa." Os cinco rapazes e uma garota
garantiram que têm amigos brancos onde moram, no bairro de Hilton
Gardens, antes exclusivamente branco, e agora habitado também pela
classe emergente negra. "Eles são portugueses", disse
Ntsiuda, referindo-se a outra comunidade expressiva da cidade. "Não
vieram porque não tinham os 12 rands (US$ 1,60) da condução." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |