Reunificação de Berlim está no meio, diz arquiteto
Reconstituição do tecido urbano da capital alemã deverá durar mais uns 20 anos, afirma brasileiro

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Domingo, 15 de novembro de 2009

BERLIM
A divisão de Berlim deixou profundas marcas. Vinte anos e € 100 bilhões em investimentos depois, a cidade deslocou seu centro de volta para onde estava antes e tem-se reformulado drasticamente. Mas a "reunificação de Berlim" - assim como a da Alemanha, da qual a capital é um microcosmo - está longe do fim.

"A reformulação de uma cidade é um longo processo", diz o arquiteto brasileiro Pedro Moreira, de 44 anos, que vive há 18 em Berlim, onde mantém escritório desde 1994. "Chegamos à metade dele. Apesar dos enormes esforços já feitos, o processo de reunião e reconstituição do tecido urbano deverá durar mais uns 20 anos." Em entrevista ao Estado, Moreira descreve as transformações por que tem passado a cidade, e o que ainda tem pela frente.

Ao longo dos 40 anos de separação, Berlim Ocidental desenvolveu um estilo arquitetônico que a diferencia muito de Berlim Oriental, ou a feição anterior da cidade, apesar da extensa destruição na 2.ª Guerra, ainda lhe dá certa homogeneidade?

A meu ver, não cabe a expressão "estilo arquitetônico" para descrever como os dois lados da cidade desenvolveram-se após a 2ª Guerra. Já antes dela havia diferenças entre o lado leste, tradicionalmente mais ocupado pelo operariado, e o oeste, pela burguesia. Se a compararmos com outras cidades europeias, constatamos que Roma, Londres ou Paris têm uma história riquíssima e milenar, mas muito de sua importância vem de um passado longínquo. Falamos de 200, 500, 2 mil anos de história. Os acontecimentos mais relevantes da história de Berlim concentram-se no século 20. É uma história dramática, recente, que se apresenta frente a nossos olhos em cada esquina, todo dia, e que ainda não foi digerida. Mitte era o centro histórico, com arquiteturas diversas, do século 16 ao 20. Portanto, a "homogeneidade" era relativa. A guerra destruiu muito disso, mas também no pós-guerra se destruiu tanto quanto, dada a emergência de se viver numa cidade arrasada, a falta de meios para obras de recuperação e de uma mentalidade de preservação. Os berlinenses passaram os rigorosos invernos do pós-guerra a céu aberto ou vivendo em ruínas, cortando todas as árvores da cidade para se aquecerem. Foi um gigantesco esforço, em ambos os lados, para a construção de milhares de moradias em poucos anos. No leste, os grandes conjuntos habitacionais são mais concentrados.

A demolição do Muro deixou espaços vazios. Como a sua ocupação - ou não - influi na conformação da cidade, agora e no futuro?

Os espaços vazios são resultado das dramáticas rupturas ocorridas no século 20 e, como tais, terão destinos diferenciados. Enquanto muitas áreas passam e passarão por processos de reconstituição do traçado urbanístico e das edificações, na maioria dos casos de acordo com políticas públicas que disciplinam a ação do mercado imobiliário, outras áreas permanecerão livres, servindo como uma "memória" dos fatos históricos, permitindo a reorganização do tecido urbano ou aumentando a quantidade de áreas verdes da cidade.

Do ponto de vista da circulação na cidade, como foi a convergência entre os dois lados? Ela está concluída? Os dois lados estão plenamente integrados?

Não se pode ainda falar de uma "conclusão" ou plena integração entre ambos os lados. A radical divisão do país por mais de 40 anos deixou marcas profundas em todos os setores, individual e coletivamente. A superação dessas diferenças será tarefa para diversas gerações. A divisão de Berlim em duas metades foi feita com violência, dilacerou a cidade, suas ruas, sua infraestrutura. Ela foi ainda dividida em territórios ocupados por forças militares dos Aliados e dos russos por mais de 40 anos, isolada e cercada por um arsenal nuclear. Depois de 1990, foi preciso recuperar milhares de edifícios históricos abandonados, reconstruir escolas, hospitais, pontes, edifícios públicos, ruas, praças e parques. Tudo isso em meio a uma situação delicada de restituição de propriedades a famílias desaparecidas ou espalhadas pelo mundo, e destituição de pessoas que durante 40 anos de socialismo tiveram garantido o uso da propriedade, e de um dia para outro perdem tudo. Apesar dos enormes esforços já feitos e somas já investidas, o processo de reunião e reconstituição do tecido urbano é lento e deverá durar mais uns 20 anos. Quanto ao sistema de tráfego, a conexão entre as ruas foi restabelecida, o mesmo tendo acontecido com os túneis do sistema de U-Bahn/S-Bahn (metrô e trem de superfície). No entanto, o bonde, por exemplo, circula somente em Berlim Oriental, já que nos anos 60 e 70 fez-se em Berlim Ocidental a grande besteira de eliminá-los. Disso todos se arrependem até hoje. Grandes obras como os túneis sob o Tiergarten (grande parque no centro de Berlim) foram necessárias não só para melhor "reunificar a cidade", mas essencialmente para modernizá-la como uma capital para o século 21. O mesmo dá-se em relação ao sistema aéreo, com a construção do Aeroporto Internacional Berlim-Brandenburgo (Schönefeld) e a gradual desativação de Tempelhof e Tegel, cujos extensos territórios deverão ser integrados ao tecido urbano.

Os bairros que ficavam ao longo do Muro, como Kreuzberg, ainda sofrem com a degradação ou se beneficiam de sua posição central na cidade?

A degradação de Kreuzberg por causa da posição junto ao Muro não deve ser vista somente de maneira negativa. Houve uma transformação em seu perfil, de bairro proletário e industrial a bairro multiétnico e de extrema vitalidade cultural. Já a Exposição Internacional de Arquitetura (IBA) de 1987 iniciou, antes da queda do Muro, um extenso processo de revitalização da área. Com a queda do Muro, a localização central de Kreuzberg passou a ser estratégica e o próprio mercado tem encaminhado sua revitalização.

A degradação da região do Jardim Zoológico, celebrizada pelo livro "Christiane F.", foi de alguma forma atenuada pela queda do Muro?

Essa região, que desde os anos 90 é denominada "City West", vem recebendo uma série de melhorias e investimentos, num processo que já dura mais de 10 anos, mas ainda não foi encerrado. A Estação Zoo continua sendo local de encontro de mendigos, mas de forma menos acentuada que nos anos 70 e 80. Ela perdeu parte de sua função como estação intermunicipal e interestadual desde a inauguração da nova Estação Central (Hauptbahnhof) em 2006.

O deslocamento do centro de Berlim unificada para Mitte fez com que Charlottenburg - antigo centro de Berlim Ocidental - ficasse parada nos anos 80?

Charlottenburg era, até 1920, um município separado de Berlim, com um centro próprio (Zoo/Kurfürstendamm) que se desenvolveu no final do século 19. Foi por um bom tempo a área chique da cidade. Já historicamente, Berlim era uma cidade com muitos subcentros. Com a construção do Muro em 1961, Charlottenburg tornou-se inevitavelmente o centro do lado ocidental. Era um lugar bastante consolidado de Berlim Ocidental, que tinha uma área problemática, o Zoo. Fora isso, estava em boas condições. Nos anos 90, sem dúvida houve uma atenção maior do Poder Público em relação às áreas do antigo Muro e às de Berlim Oriental, por uma situação emergencial clara. E houve também um fator de especulação imobiliária, uma corrida para ocupar os espaços em Berlim Oriental, que durou 15 anos. Berlim Ocidental inteira vivia um período de exceção. A cidade não crescia e vivia de subsídios do Ocidente. Os investimentos privados também foram mais lentos, porque muito do capital nacional e internacional foi investido no grande jogo de especulação que ocorreu no Leste. Mas hoje já se vê uma "redinamização" de Charlottenburg. Há novos edifícios já prontos, outros em construção; a praça principal será em breve inteiramente reformada; o Boulevard Kurfürstendamm abriga as grandes butiques de grifes internacionais, etc. A reformulação de uma cidade é um longo processo. Chegamos apenas à metade dele.

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