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BERLIM
A divisão de Berlim deixou profundas marcas. Vinte anos e €
100 bilhões em investimentos depois, a cidade deslocou seu centro
de volta para onde estava antes e tem-se reformulado drasticamente. Mas
a "reunificação de Berlim" - assim como a da Alemanha,
da qual a capital é um microcosmo - está longe do fim.
"A reformulação
de uma cidade é um longo processo", diz o arquiteto brasileiro
Pedro Moreira, de 44 anos, que vive há 18 em Berlim, onde mantém
escritório desde 1994. "Chegamos à metade dele. Apesar
dos enormes esforços já feitos, o processo de reunião
e reconstituição do tecido urbano deverá durar mais
uns 20 anos." Em entrevista ao Estado, Moreira descreve as transformações
por que tem passado a cidade, e o que ainda tem pela frente.
Ao longo dos 40 anos
de separação, Berlim Ocidental desenvolveu um estilo arquitetônico
que a diferencia muito de Berlim Oriental, ou a feição anterior
da cidade, apesar da extensa destruição na 2.ª Guerra,
ainda lhe dá certa homogeneidade?
A meu ver, não cabe a expressão "estilo arquitetônico"
para descrever como os dois lados da cidade desenvolveram-se após
a 2ª Guerra. Já antes dela havia diferenças entre o
lado leste, tradicionalmente mais ocupado pelo operariado, e o oeste,
pela burguesia. Se a compararmos com outras cidades europeias, constatamos
que Roma, Londres ou Paris têm uma história riquíssima
e milenar, mas muito de sua importância vem de um passado longínquo.
Falamos de 200, 500, 2 mil anos de história. Os acontecimentos
mais relevantes da história de Berlim concentram-se no século
20. É uma história dramática, recente, que se apresenta
frente a nossos olhos em cada esquina, todo dia, e que ainda não
foi digerida. Mitte era o centro histórico, com arquiteturas diversas,
do século 16 ao 20. Portanto, a "homogeneidade" era relativa.
A guerra destruiu muito disso, mas também no pós-guerra
se destruiu tanto quanto, dada a emergência de se viver numa cidade
arrasada, a falta de meios para obras de recuperação e de
uma mentalidade de preservação. Os berlinenses passaram
os rigorosos invernos do pós-guerra a céu aberto ou vivendo
em ruínas, cortando todas as árvores da cidade para se aquecerem.
Foi um gigantesco esforço, em ambos os lados, para a construção
de milhares de moradias em poucos anos. No leste, os grandes conjuntos
habitacionais são mais concentrados.
A demolição
do Muro deixou espaços vazios. Como a sua ocupação
- ou não - influi na conformação da cidade, agora
e no futuro?
Os espaços vazios são resultado das dramáticas rupturas
ocorridas no século 20 e, como tais, terão destinos diferenciados.
Enquanto muitas áreas passam e passarão por processos de
reconstituição do traçado urbanístico e das
edificações, na maioria dos casos de acordo com políticas
públicas que disciplinam a ação do mercado imobiliário,
outras áreas permanecerão livres, servindo como uma "memória"
dos fatos históricos, permitindo a reorganização
do tecido urbano ou aumentando a quantidade de áreas verdes da
cidade.
Do ponto de vista
da circulação na cidade, como foi a convergência entre
os dois lados? Ela está concluída? Os dois lados estão
plenamente integrados?
Não se pode ainda falar de uma "conclusão" ou
plena integração entre ambos os lados. A radical divisão
do país por mais de 40 anos deixou marcas profundas em todos os
setores, individual e coletivamente. A superação dessas
diferenças será tarefa para diversas gerações.
A divisão de Berlim em duas metades foi feita com violência,
dilacerou a cidade, suas ruas, sua infraestrutura. Ela foi ainda dividida
em territórios ocupados por forças militares dos Aliados
e dos russos por mais de 40 anos, isolada e cercada por um arsenal nuclear.
Depois de 1990, foi preciso recuperar milhares de edifícios históricos
abandonados, reconstruir escolas, hospitais, pontes, edifícios
públicos, ruas, praças e parques. Tudo isso em meio a uma
situação delicada de restituição de propriedades
a famílias desaparecidas ou espalhadas pelo mundo, e destituição
de pessoas que durante 40 anos de socialismo tiveram garantido o uso da
propriedade, e de um dia para outro perdem tudo. Apesar dos enormes esforços
já feitos e somas já investidas, o processo de reunião
e reconstituição do tecido urbano é lento e deverá
durar mais uns 20 anos. Quanto ao sistema de tráfego, a conexão
entre as ruas foi restabelecida, o mesmo tendo acontecido com os túneis
do sistema de U-Bahn/S-Bahn (metrô e trem de superfície).
No entanto, o bonde, por exemplo, circula somente em Berlim Oriental,
já que nos anos 60 e 70 fez-se em Berlim Ocidental a grande besteira
de eliminá-los. Disso todos se arrependem até hoje. Grandes
obras como os túneis sob o Tiergarten (grande parque no centro
de Berlim) foram necessárias não só para melhor "reunificar
a cidade", mas essencialmente para modernizá-la como uma capital
para o século 21. O mesmo dá-se em relação
ao sistema aéreo, com a construção do Aeroporto Internacional
Berlim-Brandenburgo (Schönefeld) e a gradual desativação
de Tempelhof e Tegel, cujos extensos territórios deverão
ser integrados ao tecido urbano.
Os bairros que ficavam
ao longo do Muro, como Kreuzberg, ainda sofrem com a degradação
ou se beneficiam de sua posição central na cidade?
A degradação
de Kreuzberg por causa da posição junto ao Muro não
deve ser vista somente de maneira negativa. Houve uma transformação
em seu perfil, de bairro proletário e industrial a bairro multiétnico
e de extrema vitalidade cultural. Já a Exposição
Internacional de Arquitetura (IBA) de 1987 iniciou, antes da queda do
Muro, um extenso processo de revitalização da área.
Com a queda do Muro, a localização central de Kreuzberg
passou a ser estratégica e o próprio mercado tem encaminhado
sua revitalização.
A degradação
da região do Jardim Zoológico, celebrizada pelo livro "Christiane
F.", foi de alguma forma atenuada pela queda do Muro?
Essa região,
que desde os anos 90 é denominada "City West", vem recebendo
uma série de melhorias e investimentos, num processo que já
dura mais de 10 anos, mas ainda não foi encerrado. A Estação
Zoo continua sendo local de encontro de mendigos, mas de forma menos acentuada
que nos anos 70 e 80. Ela perdeu parte de sua função como
estação intermunicipal e interestadual desde a inauguração
da nova Estação Central (Hauptbahnhof) em 2006.
O deslocamento do
centro de Berlim unificada para Mitte fez com que Charlottenburg - antigo
centro de Berlim Ocidental - ficasse parada nos anos 80?
Charlottenburg era,
até 1920, um município separado de Berlim, com um centro
próprio (Zoo/Kurfürstendamm) que se desenvolveu no final do
século 19. Foi por um bom tempo a área chique da cidade.
Já historicamente, Berlim era uma cidade com muitos subcentros.
Com a construção do Muro em 1961, Charlottenburg tornou-se
inevitavelmente o centro do lado ocidental. Era um lugar bastante consolidado
de Berlim Ocidental, que tinha uma área problemática, o
Zoo. Fora isso, estava em boas condições. Nos anos 90, sem
dúvida houve uma atenção maior do Poder Público
em relação às áreas do antigo Muro e às
de Berlim Oriental, por uma situação emergencial clara.
E houve também um fator de especulação imobiliária,
uma corrida para ocupar os espaços em Berlim Oriental, que durou
15 anos. Berlim Ocidental inteira vivia um período de exceção.
A cidade não crescia e vivia de subsídios do Ocidente. Os
investimentos privados também foram mais lentos, porque muito do
capital nacional e internacional foi investido no grande jogo de especulação
que ocorreu no Leste. Mas hoje já se vê uma "redinamização"
de Charlottenburg. Há novos edifícios já prontos,
outros em construção; a praça principal será
em breve inteiramente reformada; o Boulevard Kurfürstendamm abriga
as grandes butiques de grifes internacionais, etc. A reformulação
de uma cidade é um longo processo. Chegamos apenas à metade
dele.
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