A Bolívia pára. Sánchez de Lozada busca apoio da coalizão
La Paz, tomada por manifestantes, vive tensa espera, enquanto presidente e dirigentes políticos negociam

LOURIVAL SANT’ANNA
Enviado especial
Quarta-feira, 15 de outubro de 2003

LA PAZ - Os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança deram lugar ontem em La Paz a uma tensa espera, enquanto o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada negociava uma saída política com seus aliados no governo de coalizão. O cenário na capital administrativa do país era de campo de batalha, com barricadas erguidas nas ruas e veículos blindados patrulhando as estradas, mas, depois das 27 mortes na segunda-feira, não houve confrontos. Noutras cidades do país, ocorreram violentos choques. Um manifestante morreu.

O líder da Nova Força Republicana (NFR), Manfred Reyes Villa, que participa da base de sustentação do governo, reuniu-se ontem com Sánchez de Lozada, mas adiou para hoje a decisão sobre se retirará ou não o apoio ao presidente, cuja renúncia é exigida pelos manifestantes. "Temos de ponderar se a manutenção da democracia passa ou não pela renúncia", disse Reyes, ao sair do encontro na residência presidencial. Reyes, que retornou ontem dos EUA, se havia dado prazo até ontem para tomar uma decisão, mas adiou-a para hoje, quando tem nova reunião com o presidente, marcada para as 9h locais (10h em Brasília).

A NFR tem três ministros. Seu afastamento chegou a ser anunciado na segunda-feira por dirigentes do partido, mas a informação não foi confirmada. As negociações entre Sánchez de Lozada e Reyes incluem mudanças na Constituição e na legislação sobre a exploração do gás natural e do petróleo. Reyes propôs ao presidente a convocação de referendo para decidir sobre a exportação de gás.

O estopim da crise foi a decisão do governo de utilizar o porto chileno de Iquique para a exportação de gás natural para os Estados Unidos e o México. O principal dirigente da oposição, o líder cocaleiro Evo Morales, incitou a maioria indígena do país a um levante contra o governo, explorando os ressentimentos dos bolivianos contra os chilenos, que em 1883 derrotaram a Bolívia numa guerra, tirando-lhe o acesso ao mar. Sánchez de Lozada suspendeu as exportações e aceitou submetê-las a "mais debate".

O líder do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), Jaime Paz Zamora, mantém o apoio ao presidente, apesar de Jorge Torres, que pertence ao partido e chefiava o Ministério do Desenvolvimento, ter-se demitido na segunda-feira. Segundo Paz Zamora, manter-se na coalizão agora é uma questão de "responsabilidade", embora ele tenha acusado o presidente de não cumprir o programa de governo em torno do qual se formou a coalizão.

Evo Morales, líder do Movimento ao Socialismo (MAS), impôs condições para que o vice-presidente Carlos Mesa, que retirou o apoio a Sánchez de Lozada na segunda-feira, assuma a presidência. Para tanto, segundo o líder indígena, Mesa terá de assumir o compromisso de não exportar gás e de convocar uma Constituinte. "Prefiro que a sucessão constitucional seja consensuada com os movimentos sociais que estão em luta, mas seria um erro nesse momento adiantar quem seria o presidente", afirmou Morales, segundo colocado na eleição presidencial de junho do ano passado. Ele reiterou também que não haverá diálogo se o presidente não renunciar.

O líder indígena acusou o presidente de "comprar" o apoio das Forças Armadas: segundo ele, "sacos de dinheiro" teriam sido entregues a oficiais no quartel-general do Exército. Em seu pronunciamento à nação na segunda-feira, no qual denunciou uma "conspiração subversiva para instaurar uma ditadura sindicalista no país", Sánchez de Lozada apareceu ao lado dos comandantes militares, assegurando que tinha seu apoio irrestrito. O comandante das Forças Armadas, general Roberto Claros, fez ontem, no entanto, uma intrigante declaração à TV boliviana: "Não apóio o presidente como pessoa, mas sim sua investidura."

O prefeito de La Paz, Juan del Granado, juntou-se ontem aos políticos que pedem a renúncia do presidente. "A democracia boliviana vai muito além da pessoa de Sánchez de Lozada", disse o prefeito, pertencente ao partido Movimento Sem Medo. Del Granado propôs uma "saída constitucional em torno do vice-presidente da República" e um "governo de unidade nacional".

Uma delegação da Organização dos Estados Americanos chegou ontem a La Paz para tentar mediar uma saída política para a crise. "O governo manifestou total abertura para encontrar uma solução negociada", assegurou um porta-voz da delegação, depois de se reunir com o presidente. "Esperamos encontrar o mesmo clima entre os dirigentes das organizações sociais."

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