|
Sánchez
de Lozada renuncia e deixa La Paz |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado, 18 de outubro
de 2003
|
|
LA PAZ - Depois de seis semanas de
violentos distúrbios que deixaram 74 mortos, o presidente Gonzalo
Sánchez de Lozada renunciou ontem à noite, por meio de carta
enviada ao Congresso. A renúncia foi aceita e o vice-presidente,
Carlos Mesa, empossado. "A democracia está sob o assédio
de grupos corporativos, políticos e sindicais, que não crêem
nela", afirmou Sánchez de Lozada na carta, apontando um "quadro
de sedição" no país. "Os perigos na pátria
seguem intactos." A renúncia foi aprovada por 97 votos
a favor e 30 contra. A sessão, precedida de um minuto de silêncio
em homenagem aos mortos, foi conturbada pelos gritos de "assassino"
de parlamentares da oposição. E pelas vaias quando alguém
votava contra a renúncia. A votação foi oral. Os deputados e senadores de todo o país
chegaram em ônibus escoltados pelo Exército, no fim da tarde,
à sede do Congresso, fechado desde o início dos distúrbios
na semana passada. Antes de empossar o vice, o presidente do Senado, Hormando
Vaca Diez, agradeceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por
ter enviado seu assessor Marco Aurélio Garcia para mediar o conflito.
Garcia, que estava na galeria do Congresso, levantou-se e foi aplaudido. Sánchez de Lozada e a primeira-dama,
Ximena, embarcaram à tarde no helicóptero da presidência,
da residência oficial, onde estavam confinados desde o fim de semana,
para Santa Cruz de la Sierra, 900 quilômetros a leste. De lá,
embarcariam à noite para Miami, num vôo do Lloyd Aereo Boliviano,
às 22h20 (23h20 de Brasília), minutos antes de o Congresso
empossar Carlos Mesa. Vários ministros embarcaram com o presidente. Na segunda-feira, Mesa afastara-se do governo,
em repúdio à violenta repressão das manifestações
pelas forças de segurança. Segundo os constitucionalistas,
o vice pode prosseguir no cargo até concluir o mandato, em agosto
de 2007. Esse cenário, no entanto, pode não
se concretizar. Mesa, jornalista e historiador, não tem vínculos
partidários, e poderia enfrentar dificuldades no Congresso. Nesse
caso, uma das possibilidades seria a convocação de eleições,
embora sigam, na linha sucessória, o presidente do Senado, do Movimento
de Esquerda Revolucionária (MIR), e o presidente da Câmara
dos Deputados, Oscar Arrien, do Movimento Nacionalista Revolucionário
(MNR), partido de Sánchez de Lozada. Na visão do dirigente do Movimento
ao Socialismo (MAS), Evo Morales, principal líder da oposição,
o vice-presidente deveria conduzir um governo de transição.
Segundo ele, Mesa deveria atender ao "clamor do povo" pela convocação
de uma Assembléia Constituinte, num processo que levaria de um
a dois anos. Depois disso, seriam realizadas novas eleições. Logo de manhã, as horas do presidente
já pareciam estar contadas, depois que ele perdeu o apoio de Manfred
Reyes Villa, dirigente da Nova Força Republicana (NFR), que apenas
dois dias antes tinha reiterado seu respaldo a Sánchez de Lozada.
"Não podemos continuar assim", disse Reyes, capitão
da reserva, ao sair da residência oficial. "Pedi ao presidente
que renuncie." Em princípio, Sánchez de Lozada se recusou,
argumentando que não seria uma solução, pois, dentro
de dois meses, o país voltaria a mergulhar na crise. "As reformas vieram tarde demais",
justificou Reyes, referindo-se ao manifesto anunciado pelo presidente,
ao lado do dirigente da NFR e do Movimento de Esquerda Revolucionária
(MIR), Jaime Paz Zamora, também integrante da coalizão.
O documento previa um referendo sobre a exportação de gás,
a revisão da Lei de Combustíveis e a convocação
de uma Assembléia Constituinte. Depois de Reyes, foi a vez de o dirigente
do MIR reunir-se longamente com o presidente - que, entre um aliado e
outro, recebeu Marco Aurélio Garcia, enviado do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. Paz Zamora evitou a palavra "renúncia".
Disse ter pedido ao presidente que fizesse uma "reflexão",
e que esperava dele "comportamento responsável". Na quinta-feira, num indício de que
a transição poderia estar em marcha, o embaixador americano
em La Paz, David Greenlee, reuniu-se com o vice-presidente. O comandante das Forças Armadas, general Roberto Claros, manteve publicamente o respaldo ao presidente até o fim. Mas, com cerca de 200 mil manifestantes em La Paz exigindo a renúncia, os militares reconheciam que a situação de Sánchez de Lozada se tornara insustentável. "Não há como segurar essa gente", disse ao Estado um oficial do Exército. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |