|
'Quétchuas
e aimaras têm de governar' |
|
| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado, 18 de outubro
de 2003
|
|
LA PAZ - O humor dos cerca de 200 mil manifestantes espalhados por La Paz foi mudando à medida que chegavam, pelo rádio, as notícias sobre os desdobramentos políticos desse longo dia na história da Bolívia. Os camponeses de origem indígena, mineiros, sindicalistas e moradores da cidade amanheceram para mais um dia de batalha. Lá pelo meio da tarde, a vitória, para eles, foi deixando de ser uma aposta para se tornar realidade. No centro de La Paz, centenas de mineiros
festejaram a renúncia do presidente com explosões de dinamite
que trouxeram das minas na região de Oruro, 200 quilômetros
a sudeste da capital administrativa. Dezenas de milhares de indígenas
que ocupavam a Praça San Francisco, a principal da cidade, e outras
praças e avenidas da cidade começaram a gritar em júbilo.
Nas pequenas ruas em redor do Parlamento, fortemente guardado por cordões
de isolamento da polícia, apoiada por tanques do Exército,
os índios circulavam em pequenos grupos, sob o olhar atento das
forças de segurança. "Viemos porque estamos deprimidos com
esse governo, com esse presidente sanguinário, que vendeu nosso
gás e, não contente, matou muita gente", resumiu Juana
Luque, plantadora de coca de Coroico, norte de Yungas, 95 quilômetros
a sudeste de La Paz. "Viemos caminhando", disse Juana, 38 anos,
mostrando os pés machucados e mascando folhas de coca. "A
Bolívia vive graças à coca", justificou Valentín
Apazochoque, 46 anos, que caminhou 105 quilômetros desde Churumani,
também na região de Yungas, forte produtora da folha proibida.
A coca, aqui, reúne uma mescla de
significados. Cansados, com pouco para comer, dormindo no chão,
os índios recorrem à folha como fonte de energia e ânimo.
É seu ganha-pão, além disso. Mas, neste momento,
a coca tem um forte significado político: os principais líderes
do movimento que derrubou o presidente são Evo Morales e Felipe
Quispe, representantes dos índios em geral e dos plantadores de
coca em particular, cuja atividade foi severamente prejudicada pelo governo
anterior, do ex-general Hugo Bánzer, que tentou erradicar o cultivo
ilegal. À pergunta sobre se aceitariam que
o vice-presidente Carlos Mesa assumisse o governo, os índios disseram
que sim, mas por um prazo de uns seis meses. "Os quétchuas
e os aimaras têm de governar", gritou uma camponesa, apoiada
pelas dezenas de pessoas que rodeavam o repórter do Estado. Morales
é da etnia quétchua e Quispe, conhecido como Malku (côndor),
da maioria aimara. À pergunta sobre se esse governante ideal seria
um deles, vários índios se mostraram cautelosos: "Veremos,
não se sabe." A tomada de La Paz por dezenas de milhares
de índios, desde a quinta-feira, foi certamente decisiva para a
queda de Gonzalo Sánchez de Lozada. Mas o movimento não
se resumiu aos camponeses e aos mineiros. Cerca de 200 intelectuais, liderados
pela ex-defensora pública Ana María Romero, faziam greve
de fome desde quarta-feira. Além disso, juntaram-se às
passeatas de protestos centenas de moradores da zona sul, onde se concentram
os bairros elegantes de La Paz. "Chega de sangue, o presidente tem
de ir embora", gritavam os manifestantes, que se apresentavam como
"vizinhos" de Sánchez de Lozada, já que a residência
presidencial fica em San Jorge, na zona sul. De um momento para outro, índios vindo
de longe e moradores pobres da periferia foram-se misturando a esse grupo
de pessoas bem-vestidas. Cena rara na história da Bolívia,
marcada pela separação entre as classes sociais. E, para
Gonzalo Sánchez de Lozada, o prenúncio do fim. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
| Anterior |