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Novo
presidente admite risco de 'naufrágio total' |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 19 de outubro
de 2003
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LA PAZ - O novo presidente da Bolívia, Carlos Mesa, admitiu ontem que seu governo de transição corre o risco de "naufrágio total". "Se o presidente, o Parlamento e a sociedade não entenderem que estamos jogando o nosso destino, podemos mergulhar em grave crise", advertiu Mesa, respondendo a uma pergunta sobre suas chances de obter respaldo suficiente no Congresso, em sua primeira entrevista coletiva, no palácio presidencial. "Na democracia, um governo sem partido
com o apoio de todos parece uma fórmula absurda, mas a Bolívia
não tem alternativa", avaliou o presidente, que está
formando um gabinete sem coloração partidária. "Para
os partidos, a solução é mostrar desprendimento,
para recuperar sua credibilidade, severamente abalada", recomendou
Mesa, empossado na noite de sexta-feira, depois da renúncia do
presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Mesa, que rompeu com Sánchez de Lozada
em repúdio à violenta repressão das manifestações
que pediam a sua renúncia, resultando em 74 mortes em uma semana,
admitiu que suas relações com as Forças Armadas foram
estremecidas. "As Forças Armadas sempre têm uma tarefa
difícil e contraditória, quando se trata de lidar com manifestações
e bloqueios", ponderou. "Nesse caso, lamentavelmente, o resultado
para mim não pareceu tolerável. Mas creio que as Forças
Armadas estão demonstrando boa vontade." Jornalista e historiador, sem partido, Mesa,
de 50 anos, prometeu convocar uma Assembléia Constituinte e realizar
nova eleição presidencial. A decisão de não
cumprir todo o mandato, que iria até 2007, foi tomada pelo próprio
Mesa, eleito vice-presidente em julho do ano passado, na chapa de Sánchez
de Lozada. Minutos antes de Mesa tomar posse, na noite de sexta-feira,
Sánchez de Lozada embarcou com a mulher e três filhas para
Miami. Não está claro quais partidos
darão sustentação ao novo governo. Para os analistas
políticos, o fato de Mesa não ter vínculos partidários
- embora seja simpatizante do Movimento Nacionalista Revolucionário,
de Sánchez de Lozada - pode até ser uma vantagem, no atual
momento de acirramento político e de descrédito dos partidos. "O governo de Mesa é produto
de uma sublevação popular, não da atuação
dos partidos", observa o analista Álvaro García Linera.
"Mas não ter estrutura partidária pode ser um complicador,
em decisões difíceis no Congresso." Seja como for,
todos concordam que será uma transição delicada.
O presidente adiou de ontem para hoje o anúncio de seu gabinete. Numa amostra das dificuldades que o novo
presidente enfrentará, o líder indígena Felipe Quispe,
um dos protagonistas do movimento que derrubou Sánchez de Lozada,
qualificou Mesa de um "lacaio" dos EUA e previu que seu governo
durará 90 dias. Já Evo Morales, líder dos plantadores
de coca, anunciou para hoje cedo uma "marcha" com dezenas de
milhares de pessoas em Cochabamba, para "manter a mobilização".
Gás - Mesa anunciou também
a realização de um referendo "vinculante" sobre
as exportações de gás, estopim dos protestos. Na
quarta-feira, na tentativa de apaziguar o movimento por sua renúncia,
Sánchez de Lozada havia anunciado a realização de
um referendo "consultivo", em que a população
seria ouvida, mas a decisão final caberia ao governo, ao contrário
do "vinculante". Os protestos começaram depois que
o governo decidiu exportar gás para a Califórnia por meio
do porto chileno de Iquique. Em guerra contra o Chile, os bolivianos perderam,
em 1883, a saída para o Pacífico. A derrota originou ressentimentos
até hoje explorados por líderes nacionalistas. O novo presidente disse que fará ainda
uma revisão da Lei de Combustíveis, prometida também
por Sánchez de Lozada, em sua tentativa de última hora de
se manter no cargo. Os críticos da atual legislação
preferem que o gás natural abasteça todos os lares da Bolívia
a preço acessível e receba valor agregado antes de ser exportado,
em vez de sair diretamente da boca do poço para os países
importadores. O Estado perguntou a Mesa se o referendo
e a revisão da lei poderiam afetar os contratos já firmados,
como o da exportação de gás da Bolívia para
o Brasil, por intermédio de um gasoduto construído pela
Petrobrás. "Deixar de exportar esse gás para o Brasil
não está sendo considerado pelo povo boliviano", garantiu
o presidente. Segundo ele, é com relação
aos contratos futuros que o país tentará "distribuir
as regalias dadas aos investidores e os impostos de maneira diferente,
que beneficie a todos". Mesa observou que há, na Bolívia,
muita "desinformação" sobre o tema, e o papel
do governo será mostrar que o país tem reservas de gás
suficientes para se abastecer e exportar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
convidou ontem Mesa a visitar o Brasil. |