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Morales esboça a
política para a coca |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 29 de janeiro
de 2006
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SHINAHOTA O presidente Evo Morales
fez ontem o primeiro esboço de sua política para o cultivo
de coca na Bolívia. Falando a uma multidão de 30 mil cocaleiros
em Shinahota, na região do Chapare, Morales exigiu que cada família
limite seus cultivos à área de um "cato", equivalente
a 1.600 metros quadrados, conforme acordo firmado com o governo anterior,
em 2004. E se comprometeu a combater o narcotráfico. "O Movimento
ao Socialismo (MAS) foi parido com folha de coca", disse o presidente,
referindo-se ao seu partido, surgido no Chapare, região tropical
do centro-oeste do país, no Departamento de Cochabamba. "Ela
jamais será abolida pelo MAS. Mas é importante cumprir com
nossos acordos." Morales prometeu realizar
um estudo sobre a demanda de folha de coca para abastecer a Bolívia
para o consumo tradicional - o hábito de mascar a folha, usá-la
em medicamentos naturais, como base para cosméticos e em rituais
sagrados. O estudo está previsto numa lei de 1988, que instituiu
um limite de 12 mil hectares para o cultivo de coca apenas no Vale dos
Yungas, no Departamento de La Paz, mas nunca foi feito. "O estudo virá.
Por enquanto, respeitem o cato de coca", disse Morales, em sua primeira
visita ao seu reduto como presidente. No Chapare, o acordo de 2004 prevê
o cultivo de 3.200 hectares. Imagens de satélite indicam, no entanto,
que ele ocupe cerca de 10 mil hectares. "Queremos contribuir
para a luta contra o narcotráfico nacionalizando o consumo da folha
de coca boliviana", continuou Morales. Mais adiante, numa aparente
contradição, o presidente disse que será formada
uma comissão de trabalho para propor a liberação
da venda de folha de coca boliviana para a Argentina. Segundo ele, o presidente
Néstor Kirchner lhe contou que o consumo da folha é permitido
no norte da Argentina, que faz fronteira com a Bolívia, mas a sua
importação é proibida. Liberal com as palavras, Morales
aparentemente quis dizer, com "nacionalização",
o consumo tradicional pelas comunidades indígenas, mesmo que fora
da Bolívia. O presidente anunciou
que o novo responsável pela área será Felipe Cáceres,
líder cocaleiro da região do Trópico de Cochabamba.
Sua pasta também mudará de nome, de Vice-Ministério
do Desenvolvimento Alternativo para Vice-Ministério da Coca e do
Desenvolvimento Integral. "Tenho em minha
casa em Cochabamba produtos de coca industrializados no Peru", disse
Morales. "Por que isso não pode ser feito na Bolívia?"
Ele pediu apoio de prefeitos e governadores para a criação
de laboratórios de industrialização da coca. Em seu discurso de
50 minutos, no início da tarde de ontem, concluído com a
expressão "Causachún coca" ("Viva a coca",
em quétchua), Morales não usou uma única vez a palavra
"erradicação", o núcleo das políticas
dos governos anteriores. Para quem temia que o líder cocaleiro
anunciasse o fim dessa política, pode ser uma boa notícia,
embora possa parecer desanimador para quem esperasse que ele garantisse
a sua continuidade. "Ele não pode simplesmente acabar com
a erradicação, porque a Bolívia precisa do apoio
da comunidade internacional", disse ao Estado um oficial da
Polícia Antinarcóticos. Numa viagem carregada
de simbolismo, o presidente aterrissou às 11h40 (13h40 em Brasília)
na Base de Chimoré, a 10 quilômetros de Shinahota, onde várias
vezes foi detido e torturado, como líder dos cocaleiros da região.
A base abriga a força-tarefa de erradicação dos cultivos
de coca, que conta com 800 policiais, 500 soldados do Exército
e mais 50 homens da Marinha e 30 da Força Aérea, que dão
apoio logístico. Vestido com uma camisa
cinza de manga curta e calça de brim preta, e calçando tênis,
Morales passou a tropa em revista, a maior parte do tempo olhando para
o chão da pista, enquanto caminhava ao lado do coronel José
Luís Rodo Aparicio, comandante da 9ª Divisão do Exército.
Ao desembarcar, ele recebeu uma guirlanda com flores e folhas de coca.
Em Shinahota, o ornamento foi complementado com um chapéu de palha
também coberto com as folhas da planta. |