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Morales: mandato forte e
equipe fraca |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo, 29 de janeiro
de 2006
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LA PAZ Não contente,
Morales pediu ao vice-presidente e aos presidentes da Câmara e do
Senado, todos de seu partido, que fossem morar com ele na residência
oficial de San Jorge, moderno complexo que ocupa um quarteirão
no bairro de classe alta do sul de La Paz. Assim, quando não estão
enfiados no palácio, podem trocar idéias sobre o governo
e os projetos de lei, em vez de se ocuparem com futilidades, como, por
exemplo, dormir. A Bolívia tem
um presidente de 46 anos, saudável e workaholic. A pergunta é:
toda essa energia e dedicação levará a algum lugar?
Morales assume com uma vantagem sem precedentes na tumultuada história
recente da Bolívia: seu mandato é inequívoco, guindado
por uma votação de 54% que o elegeu no primeiro turno, sem
necessidade de o Colégio eleitoral referendá-lo. Sua popularidade,
depois da eleição, supera os 60%. E, mais importante ainda,
seu partido, o Movimento ao Socialismo, goza de maioria absoluta na Câmara
e no Senado. A sombra recai sobre
a qualidade de seu gabinete e sobre o conteúdo errático
e populista de suas propostas. É bem verdade que Morales não
correu riscos ao nomear os responsáveis por duas áreas vitais:
a economia e os combustíveis (que a sustentam), nisso lembrando
seu amigo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O novo ministro da Fazenda, Luis Arce, é funcionário de carreira do Banco Central e professor de economia na Universidade Católica Boliviana (UCB). A escolha foi bem vista. "Creio que o governo será prudente e manterá a estabilidade macroeconômica", diz o economista Gonzalo Chávez, também professor na UCB. "A estabilidade é um patrimônio nacional, depois da hiperinflação de meados dos anos 80." Os indicadores bolivianos
são bons, apesar das turbulências políticas por que
tem passado o país, que está no seu terceiro presidente
em três anos e meio: 4,51% de inflação nos últimos
12 meses, déficit público de 1,5% em 2005, exportações
de US$ 2,7 bilhões (24% mais que em 2004) e reservas de US$ 1,7
bilhão, expressivas para um Produto Interno Bruto de US$ 8 bilhões.
O Banco Central é
independente e há salvaguardas contra ataques populistas ao Tesouro,
ao estilo da Lei de Responsabilidade Fiscal brasileira. Chávez
tem uma inquietude, no entanto: "A questão é saber
se haverá demasiadas pressões sociais por distribuição
de renda, e se o Fisco resistirá a elas." O novo ministro de
Hidrocarbonetos, Andrés Soliz Rada, tem fortes pendores nacionalistas,
e criticou no passado a atuação de empresas estrangeiras
como a Petrobrás, mas, pelo menos, é um conhecedor. Advogado
de formação e jornalista, Soliz tem-se dedicado ao tema
nos últimos anos. E o novo presidente da estatal Yacimientos Petrolíferos
Fiscales Bolivianos (YPFB) é engenheiro de petróleo. Ambos
têm exercitado moderação depois da posse, e falado
em negociar com as companhias os novos contratos de exploração
do gás, assim como a eventual renacionalização das
duas refinarias em poder da Petrobrás. Aqui terminam as boas
notícias. A maioria dos outros ministros é de um despreparo
alarmante, concordam os observadores. Sem curso superior, sem experiência
em suas respectivas áreas, são predominantemente militantes
sociais, que se dedicaram, nos últimos anos, a promover bloqueios
de estradas e manifestações estridentes, que, em última
análise, levaram à queda dos dois últimos presidentes
e à ascensão de Morales ao poder. É natural que o
presidente seja grato a eles, mas é difícil apostar nessas
credenciais como garantia de sucesso gerencial. E há, claro,
a sensibilidade às pressões dos movimentos sociais, cujos
líderes peregrinaram pelos gabinetes dos novos ministros, nessa
primeira semana de trabalho. Ecoando suas velhas conexões e predileções
ideológicas, Morales anunciou, como uma de suas primeiras medidas
de governo, um programa de erradicação do analfabetismo
que terá pedagogia e professores cubanos (24) e financiamento venezuelano
(US$ 1,5 milhão). Quando percorreu três
continentes com sua indefectível malha listrada, entre eleição
e posse, Morales viajava num avião emprestado por seu outro amigo,
o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que ofereceu trocar petróleo
por soja, inspirado no escambo do óleo por açúcar
cubano. |
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