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A
CPI dos Correios já recebeu 80% das informações que
pediu aos bancos e às operadoras de telefonia. É a maior
quebra de sigilo telefônico desde a privatização.
Desse estonteante banco de dados de 1 milhão de ligações
telefônicas e 200 mil documentos bancários, muito pouco se
sabe até agora. Os dois meses e meio transcorridos desde a instalação
da CPI, em 17 de junho, foram consumidos no pedido de informações
e na sua sistematização.
"O grosso não foi divulgado ainda", diz o deputado Gustavo
Fruet (PSDB-PR), sub-relator de movimentação financeira.
"É agora que vai começar." O maior inimigo da
CPI é o tempo: o prazo regimental de 180 dias para a conclusão
dos trabalhos termina em meados de dezembro, coincidindo com o início
do recesso dos parlamentares. Até lá, os seis técnicos
- dois do Banco Central, um do Senado e três do Tribunal de Contas
da União (TCU) - obviamente não terão passado os
olhos em tudo.
Dependerá do
faro da equipe para ir atrás das pistas quentes. E de sua capacidade
de análise. "Temos que ter a sabedoria de aproveitar os dados",
diz o deputado. "Não adianta ver que tem lá 200 mil
documentos e não tirar proveito." De qualquer forma, o material
não será esgotado pela CPI. "Não vamos fechar
100% essa história", resigna-se Fruet, em entrevista ao Estado.
"Não porque não queiramos, mas porque não há
tempo hábil."
Como está
o ritmo da CPI?
Nosso prazo
final é novembro, mas nosso tempo é diferente. Temos um
desafio. Entramos numa fase que supera a guerrilha e vai para a qualificação.
Para qualificar, primeiro precisamos de acesso aos dados. Demorou muito.
Principalmente a movimentação bancária e o sigilo
telefônico. Quando começaram a chegar, os dados vieram em
padrões diferentes. Não era possível a análise
desse material, porque cada um mandava num formato. Agora é que
as informações estão chegando padronizadas, a pedido
da CPI.
Isso levou quanto
tempo?
Trinta dias,
no mínimo. O volume de informações é muito
extenso. Já temos no sistema 177 contas pertencentes a 50 empresas
e 30 pessoas físicas num período de cinco anos. Temos 1
milhão de ligações telefônicas de duas operadoras
(de um total de 25 de telefonia fixa e 33 de celular existentes no
País). Nunca
se fez o levantamento de tantos sigilos telefônicos como agora.
É a maior CPI depois da privatização. Se você
liga para a mesma operadora que a sua, você tem a origem, destino
e nomes. Quando liga para uma operadora diferente, você tem a origem,
mas só tem o número do destino. Então,
você precisa ter a base de dados das duas para fazer o confronto
de informações. E não há nenhum órgão
no Brasil com acesso a todas as bases de dados das operadoras. Essa checagem
também levou no mínimo 30 dias. Uma coisa é o usuário,
outra o dono do telefone. Ali aparece muita ligação para
telefone internacional e para nome de empresa ou da própria operadora
- ou seja, não identifica o usuário. Para isso, precisamos
do apoio da Polícia Federal. Quando
a gente quebra o sigilo telefônico de alguém, a Anatel não
sabe quantos telefones essa pessoa tem. Você tem que pedir para
cada operadora. Da mesma forma, o Banco Central também não
sabe quantas contas tem. Tem que pedir para cada instituição
financeira (de um total de 2.473).
E já chegou
tudo?
Já
temos hoje quase 80% (das informações pedidas). Começamos
a carregar (os dados no sistema) na semana passada, e acho que
vai até esse final de semana. Mas em uma semana avançou
o que não tinha avançado em dois meses. Não adianta
a gente ficar numa gincana até o último dado, o último
cheque, a última conta. Temos que ter o sistema carregado para
fazermos agora a análise. E
para isso temos uma equipe competente de auditores. Na hora que tivermos
isso sistematizado, a gente abre. Os membros da CPI podem analisar e a
gente pode dar publicidade a muita coisa.
Tem muita coisa
que vocês já sabem e ainda não foi divulgada?
O grosso não foi divulgado ainda. É agora que vai começar.
Por exemplo, na movimentação financeira do Marcos Valério,
é impressionante a deliberada confusão na contabilidade
dele. É uma forma de evitar rastreamento. Vamos
supor que a origem do dinheiro sejam empréstimos dos bancos. Por
si só seria grave, porque historicamente esses bancos não
emprestam para partidos. O que seria lógico? Emprestou, o dinheiro
entra na conta do Marcos Valério e paga o PT ou as pessoas que
o Delúbio (Soares, ex-tesoureiro do PT) indicar. Mas não
é assim. O
dinheiro faz um passeio por outras contas, inclusive de pessoas estranhas
à empresa. Achamos uma conta na contabilidade dele que era usada
para esse fim. E
era justamente essa conta que tinha a maior omissão de dados, quando
pedimos informação. Outro problema é que, no início,
o material vinha em papel. São mais de 200 mil documentos. A CPI
ia levar anos para analisá-los.
Agora está
tudo em arquivos eletrônicos?
Está.
Mas agora se some a isso a questão dos contratos, que estão
sendo auditados pelo TCU. São cem auditores auditando 38 contratos
prioritariamente dos Correios, em várias áreas: publicidade,
informática, compras de bens. E vai começar a chegar agora
material sobre os fundos de pensão. Tenho defendido junto ao presidente
(senador Delcidio Amaral, do PT-MS) que tem que montar uma outra equipe
para cuidar disso. O volume de material dos fundos de pensão, se
não tomar cuidado, engole a CPI.
Diante dessa monumental
quantidade de informações, é possível passar
os olhos em tudo antes de escrever um relatório final?
Não.
Por isso temos que montar um sistema, e para isso é que tem uma
equipe de auditores e o pessoal da área financeira do Banco Central.
Temos que ter a sabedoria de aproveitar os dados. Numa situação
normal, o TCU levaria de seis meses a um ano para fazer a auditoria desses
contratos. Estamos tentando fazer em um mês e meio. Na
análise do cruzamento de informação bancária,
em contas como a do (publicitário) Duda Mendonça
no exterior, a Polícia Federal leva normalmente de um a dois anos.
Nós não
temos isso. Mesmo no ritmo intenso que está sendo feito, com a
pressão que existe, que é legítima, mas com a necessidade
de poder qualificar e ter acesso aos dados, não vamos fechar 100%
essa história. Não porque não queiramos, mas porque
não há tempo hábil para isso.
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