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R$ 1 bilhão.
E o Tietê renasce em SP |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
8 de janeiro de 2006
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Dizem que os rios
são espelhos das cidades por onde passam. Durante décadas,
São Paulo virou a cara para não ver o que o Tietê
refletia. Em épocas de fortes chuvas, o rio e seus afluentes, convertidos
em esgoto a céu aberto, devolveram o desprezo, suas águas
fétidas violando impunemente o direito de ir e vir, inundando casas,
matando gente. Ao longo de muitos anos, a reação de governos
foi paliativa. Milhões de dólares foram enterrados nas margens
lamacentas, enquanto caçambas faziam um trabalho de formiga, transportando
areia e argila retiradas do leito. Sedimentos logo repostos pelos 59 córregos
e 4 rios (Tamanduateí, Aricanduva, Cabuçu de Cima e de Baixo)
que deságuam no Tietê, levando 800 mil metros cúbicos
de detritos por ano. Quem primeiro atacou
as causas do problema foi o governador Mário Covas. Com financiamento
japonês, Covas rebaixou a calha do Tietê nos 16 quilômetros
entre a Barragem Edgard de Souza, em Santana de Parnaíba, e o Cebolão,
entre abril de 1998 e dezembro de 2000. Covas deixou o cargo, doente,
em 22 de janeiro de 2001, dia em que o governador Geraldo Alckmin anunciou
o projeto de aprofundar em 2,5 metros a calha do Tietê nos 24,5
km do Cebolão à Barragem da Penha, alargá-lo para
o mínimo de 40 m e revestir as margens de concreto, para evitar
que a terra continuasse caindo no rio. O projeto, que envolveu
explodir rochas no leito e reforçar estruturas de quatro pontes
e da Marginal, não saiu barato. Quando Covas firmou convênio
com o Japan Bank for International Cooperation (Jbic), em junho de 2000,
ele foi orçado em R$ 730 milhões. Desses, 75% seriam bancados
pelo Jbic, e o resto pelo Estado. Iniciada em abril de 2002, a obra que
será entregue este mês custou R$ 1,07 bilhão. O Jbic
bancou 65%. O aprofundamento e
o alargamento aumentaram em 80% a capacidade de vazão, de 600 metros
cúbicos por segundo para 1.048. Sem isso, chuvas como as que caíram
desde o réveillon na capital teriam efeitos bem piores. Agora o
rio consegue assimilar, sem transbordar, 99 milímetros de chuva
sobre toda a Bacia do Tietê durante 12 horas, ou 122 mm durante
24 horas. Na última enchente do Tietê, choveu mais que isso:
entre 16 horas do dia 24 de maio e 9 horas do dia 25, foram 140,4 mm.
Assim, não dá para bradar 'enchentes nunca mais'. 'Depende
da chuva', diz Mauro Arce, secretário de Energia, Recursos Hídricos
e Saneamento do Estado. Mas a obra deve reduzir a freqüência
de cheias e eliminar os pontos de alagamento sob as Pontes das Bandeiras,
da Casa Verde e Anhangüera. Na aparência,
o Tietê ganhou, entre a Barragem da Penha e o Cebolão, a
feição dos rios que cortam as grandes cidades de países
desenvolvidos. Virou um canal, com taludes de concreto. Nove milhões
de m³ de rocha, solo local e proveniente do assoreamento foram retirados
do Tietê. Desses, 300 m³ eram material contaminado, fruto de
hábitos como jogar baterias nos afluentes. Foram levados para aterros
especiais. O resto serviu para aterrar a Lagoa de Carapicuíba,
buraco feito pela extração de areia que o Tietê inundou.
Ali está sendo construído um parque de 150 mil m².
O aterro não passou despercebido da ONG Grito das Águas,
que o denunciou ao Ministério Público, que, por sua vez,
obteve a sua interdição. A obra praticamente parou de agosto
de 2003 a novembro de 2004, quando o governo venceu no Supremo Tribunal
Federal. Além de evitar
enchentes, o aprofundamento da calha permite a navegação
do rio, para transporte. E para manutenção, afinal, 800
mil m³ de areia e argila seguirão entrando no rio por ano,
trazidos por seus afluentes. 'O grande desafio de quem ficar depois da
gente é a manutenção', diz Arce. 'Depois de cada
cheia, vai ter que limpar. No Brasil, não gostam de pagar manutenção.'
O secretário estima que sejam necessários 100 operários
para o trabalho. Não é muito, perto da média de 1.180,
com picos de 3.100, empregada na obra nesses quase quatro anos - houve
3 mortes em acidentes no período. Será que a obra pode ser vitimada pela politicagem, se um governador adversário for eleito este ano? Arce espera que não. ' O metrô entrou em operação em 1974 e continua com a mesma qualidade', diz. 'Esta obra foi aceita pela população, todo mundo está achando bonito. Se quem vier depois a abandoná-la, vai ser muito cobrado.' O projeto inclui, além de 9 mil árvores nas margens, holofotes sobre o Tietê, que Arce considera tão importantes quanto os 100 mil m² de concreto usados. Eles ajudarão os paulistanos a enxergar o seu rio. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |