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Menos poluído, mas nada de peixe |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
8 de janeiro de 2006
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Enquanto se acomodam em sua calha, as águas do Rio Tietê vão ficando um pouco menos imundas. O programa de despoluição do rio já está na sua segunda etapa. A primeira, entre 1996 e 2001, consumiu US$ 1 bilhão, com a construção de cinco estações de tratamento de esgoto (ETEs), rede de coleta e interceptores - dois tubos de 24,5 quilômetros, de cada lado do Tietê, que levam o esgoto para a ETE de Barueri e impedem a passagem de novas galerias clandestinas rumo ao rio. Até 1995, 22%
do esgoto coletado na cidade de São Paulo era tratado. Essa fatia
subiu para 68%. Na segunda etapa, que vai até 2007, outros US$
400 milhões estão sendo aplicados em 150 mil ligações
de esgoto e na ampliação da ETE de Barueri, uma das maiores
do mundo, com capacidade de vazão de 12 metros cúbicos por
segundo. O Tietê vai
ficar menos poluído, mas não vai virar um Tâmisa ou
um Sena, os rios de Londres e de Paris que perderam o mau cheiro e voltaram
a ter peixes. Pelo menos não enquanto 38% do esgoto da Grande São
Paulo continuar desaguando in natura no rio. Ele é produzido por
7,2 milhões de pessoas - mais do que a população
do Rio, a segunda maior cidade do País, com 6 milhões de
habitantes. O esgoto não
é tratado nas cidades que circundam São Paulo, mas lançado
em rios e córregos que deságuam no Tietê. É
o caso do Rio Cabuçu de Cima, que traz os dejetos do 1,2 milhão
de habitantes de Guarulhos. De Diadema, uma parte vai direto para a Represa
Billings, a outra vem pelo Rio Tamanduateí, juntamente com o esgoto
de Santo André e de São Bernardo do Campo. População
das três: 1,85 milhão. A vocação
do Rio Tietê é parecida com a da avenida que o margeia: por
ele passa um esgoto que não pertence a São Paulo; por ela,
uma carga cuja origem e destino não são a cidade. Foi o que os franceses
fizeram no Sena. Construíram piscinões e taparam as galerias
que despejavam esgoto no rio. 'Aqui, não há nem espaço
para isso', garantiu Arce. Diante do Sena e do Tâmisa, o Tietê
fica em desvantagem, também, pelo volume de água. O Sena
tem uma profundidade média de 29 metros. O Tâmisa, de 23
metros. Com o aprofundamento da calha, em época de seca, o Tietê,
nesse trecho, ficou com uma profundidade de 4 metros. A luta é inglória:
sua vazão na seca é de 10 m³/s, enquanto a do esgoto
lançado nele é de 50 m³/s. Se São Paulo, que
produz 60 m³/s de esgoto, ficasse na divisa com o Paraná,
onde o Tietê é um rio muito mais encorpado, seria diferente. E há o lixo.
Muitos moradores da Grande São Paulo ainda encaram os córregos
e rios como esteiras de lixo. Doze toneladas de pneus, garrafas, embalagens,
pedaços de móveis caem no Tietê todos os dias. No
meio do percurso de 1h30, a lancha teve de parar e reverter a hélice,
para se livrar da sujeira. Durante a obra, foram
retirados 150 mil pneus do rio. Parte foi misturada ao concreto das defensas,
para lhes dar mais flexibilidade. Chamadas de new jersey, as defensas
ricocheteiam menos que os guardrails, devolvendo o carro para a pista
da esquerda, além de não terem pedaços roubados,
como seus antecessores de ferro. Mas isso não
quer dizer que nada esteja melhorando. Antes, diz Mauro Arce, a poluição
do rio chegava até Barra Bonita, a 250 quilômetros de São
Paulo. Agora, em Salto, a menos de 100 quilômetros, o Tietê
já tem peixe. Para isso, a condição é conter
no mínimo 6 miligramas de oxigênio por litro de água.
Um rio normal tem 8 mg/l. O Tietê, na região metropolitana,
tem zero. Arce prevê que o Pinheiros se despoluirá mais depressa,
porque só recebe esgoto da Sabesp, cujo tratamento vem crescendo. O Almirante do Lago, barco de dois andares que agora pode navegar pelo trecho do Tietê com a calha rebaixada e no qual o grupo Teatro da Vertigem tem encenado peças, já levou 3 mil crianças de escolas para um passeio de 1 hora de duração, com palestras de educação ambiental. 'Precisamos conscientizar a população de que ela não deve sujar o rio', diz o secretário Arce. O Tietê é uma aposta no futuro. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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