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Toninho do PT: a promessa esquecida |
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LOURIVAL SANTANNA |
Domingo,
28 de agosto de 2005
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| No início de
setembro de 2001, Antonio da Costa Santos escreveu num bilhete, que deixou
sobre sua escrivaninha: A primavera vem aí. Toninho do
PT, como era conhecido o prefeito de Campinas, estava feliz e confiante
de que ia poder realizar muitas coisas.
Mas eram dias de tensão. Entre as muitas batalhas que travava, uma o preocupava em particular: a retirada de moradores de favelas para expansão do Aeroporto de Viracopos enfrentava resistência do narcotráfico, que usava a área para esconder carregamentos de drogas. Estou mexendo em coisas lá em Viracopos, não sei exatamente o quê, advertiu sua mulher, a psicanalista Roseana Garcia, pedindo atenção redobrada para a segurança da única filha do casal, Marina, então com 14 anos. Em 1999, Toninho já havia provocado a ida da CPI do Narcotráfico a Campinas, entregando um dossiê à comissão, com indícios contra empresários poderosos da cidade. Arquiteto e urbanista, Toninho estava também decidido a conter a especulação imobiliária na cidade, incentivando ocupação de áreas centrais e dificultando empreendimentos em áreas de proteção ambiental e do patrimônio histórico. Quando vice-prefeito e secretário de Obras na gestão de Jacó Bittar (1989-92), Toninho já havia motivado escândalo, denunciando o prefeito por superfaturar contratos. Bittar, amigo de Luiz Inácio Lula da Silva, viu sua carreira arruinada, e teve de deixar o PT que ajudara a fundar. Agora como prefeito, Toninho obtivera, depois de duras negociações, a redução do valor do contrato de coleta de lixo, de R$ 133 milhões para R$ 93 milhões, em quatro anos. Toninho também começava a enfrentar os bingos da cidade. Lançando mão de uma lei que impedia a instalação de duas casas a menos de 500 metros de distância, ele negou o alvará a um luxuoso bingo. Era um prefeito chato, resume Roseana. Na noite daquela segunda-feira, 10 de setembro de 2001, Toninho e Roseana se encontraram na academia. Depois de elogiar os resultados da ginástica nas pernas do marido, Roseana emendou com brincadeira de psicanalista: Agora só falta você fazer análise. Ao que o arquiteto devolveu: Ninguém é perfeito. Foi a penúltima frase que dirigiu à mulher. A última: Rô, faz um macarrão ao alho e óleo, que estou com vontade. Mais tarde, Roseana não teria coragem de jogar fora o macarrão que Toninho não comeu. Ficou guardado num pote de vidro, como um desejo aprisionado. O casal estava em dois carros. Toninho saiu na frente, no seu Palio prata 2000, no qual ia e voltava do trabalho, já que se recusava a usar carro oficial fora de atividades de prefeito. Foi buscar dois ternos novos que ficaram para ajustes na loja. Um deles, pretendia usar no dia seguinte, em encontro com o ex-presidente do Chile Eduardo Frei. No curto percurso do shopping para casa, Toninho foi executado com três tiros. O assassinato do prefeito deu início a uma seqüência impressionante de ações desastrosas da polícia. Antes da perícia, o local do crime foi invadido por curiosos, o corpo foi revirado, objetos desapareceram do carro, reaparecendo meses depois. Projéteis andaram de mão em mão, antes de se tornarem uma frágil conexão entre o assassinato e outras ações da quadrilha acusada do crime. Policiais acusados de envolvimento com narcotráfico, inclusive na CPI que Toninho trouxe a Campinas, participaram da investigação. Apesar de haver carros na frente e atrás do de Toninho, a polícia chegou à conclusão de que ele foi morto por estar atrapalhando a fuga de quatro bandidos. Três deles, inclusive o suposto autor dos disparos, a polícia se encarregou de executar antes de ouvir, em duas ações mal explicadas. O quarto confessa outros crimes, mas não este. Diante disso, Roseana passou a pedir que a Polícia Federal investigasse o caso. A entrada da PF seria a possibilidade de haver investigação isenta, feita por pessoas realmente interessadas em descobrir a verdade, diz ela. Segundo pesquisa de opinião, 70% da população de Campinas não acredita na versão da polícia, encampada pelo Ministério Público. Quando esteve na cidade, em comício para 25 mil pessoas antes da eleição de 2002, o então candidato Lula prometeu colocar a PF no caso, se se elegesse. Depois que assumiu, o presidente mudou de idéia. No dia 19 de maio do ano passado, Roseana foi recebida pelo presidente, por cinco minutos, no Palácio do Planalto. Ela trazia um abaixo-assinado de 53 mil pessoas, pedindo a investigação do caso pela PF. Lula pediu que ela o entregasse ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que por sinal fora seu advogado até assumir o cargo. O presidente disse a Roseana, porém, que não poderia colocar a PF no caso. Em vez disso, uma comissão, criada pelo então secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, faria averiguação. A comissão ainda não chegou a parecer oficial, mas um de seus membros já adiantou a Roseana que vai endossar as conclusões da polícia e do MP. O Ministério da Justiça informou ao Estado que a PF não pode mais investigar o caso porque ele está sub judice, ou seja, aguardando julgamento. Somente o juiz poderia reabrir a investigação, recomendando a participação da PF. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |