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Biodiesel,
até agora uma boa idéia |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
12 de março de 2006
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MOJU, PARÁ De tempos em tempos,
aparece no Brasil uma solução mágica. A do momento
é o biodiesel, promovido incansavelmente pelo presidente Lula.
No mês passado, na solenidade de assinatura dos primeiros contratos
de compra de biodiesel pela Petrobrás, Lula sentenciou: "Não
teremos medo, porque o dia em que alguém disser 'não tem
mais petróleo', nós estaremos dizendo 'pois bem, nós
temos alternativa, pode começar a comprar que é nosso'."
No imaginário
do presidente, o biodiesel está encarnado na mamona, o fruto resistente
do semi-árido que ele conheceu na infância, e que sintetiza
a perseverança nordestina diante da adversidade. Na mesma cerimônia,
o presidente segredou que viaja com fotos de mamona na mala, para apresentar
o exótico fruto. O biodiesel é
uma boa idéia. "Energia do sol acumulada na planta",
como define Ildo Sauer, diretor de Gás e Energia da Petrobrás,
ele tem um espaço a ocupar, diante do compromisso mundial de reduzir
emissões de gases do efeito estufa, do interesse brasileiro em
diminuir consumo de óleo diesel e da conveniência de envolver
agricultores familiares em sua produção. Se parássemos de comer e entregássemos todo o óleo vegetal produzido no mundo aos postos de combustíveis, supriríamos 3% do total de óleos minerais ou 13% de diesel e aquecimento. "Dizer que, se o petróleo acabar amanhã, estamos preparados para substituí-lo, é prova de ignorância do assunto", diz Marcello Brito, diretor comercial da Agropalma, produtora de óleo de dendê. A mamona é
um negócio complicado. Graças a sua resistência a
temperaturas muito altas e muito baixas, seu óleo tem aplicação
nobre na indústria, e é commodity cara. Assim, seu custo
de oportunidade, expresso no preço para exportação,
supera facilmente o que o governo brasileiro pode pagar pelo litro do
biodiesel - R$ 1,90 no primeiro leilão, em novembro. MERCADO SENSÍVEL
Arnoldo Campos, coordenador
do Programa de Biodiesel no Ministério do Desenvolvimento Agrário,
garante que a possibilidade é remota, por causa dos controles do
governo. E porque o mercado é muito sensível a aumentos
de oferta. No ano passado, a produção de óleo cresceu
50%, e o preço do litro caiu de R$ 0,80 para R$ 0,25. A produção
média na agricultura familiar do Nordeste é de 700 quilos
de semente por hectare (kg/ha). Para torná-la viável economicamente,
seriam precisos 1.600 kg/ha, segundo Weber Amaral, coordenador do Pólo
Nacional de Biocombustíveis, da USP. O governo montou um programa de isenção para os produtores de biodiesel, por meio de um selo social, que incentiva a compra de matéria-prima de agricultores familiares, com ênfase na mamona do Nordeste e no dendê do Norte. De acordo com o consultor
André Pessoa, os assentamentos têm eficiência média
de 3%. "Se formos depender dessa eficiência para um programa
energético, estamos lascados", diz. "Vai-se enterrar
muito dinheiro nisso. O programa está todo equivocado. Uma coisa
é programa social, outra coisa é programa energético."
"Esse mercado
é para profissionais, não para amadores", diz Marcello
Brito, da Agropalma, que investe na parceria com posseiros e assentados
no Pará. "Montar um programa de biodiesel à base de
agricultura familiar é absurdo." Ildo Sauer, da Petrobrás,
filho de pequenos agricultores de Missão (RS), acha que é
preciso dar crédito à agricultura familiar. Ele sugere "um
modelo híbrido de produção familiar e de grande porte".
Essa era a idéia inicial do Proálcool. Os especialistas do
governo não dão tanta importância à mamona.
"Nossa idéia é estabelecer no País a possibilidade
de não trabalhar com uma oleaginosa. Isso seria ruim", diz
Arnoldo Campos, coordenador do programa. "Queremos diversificar ao
máximo." Segundo ele, a soja, a maior commodity do mundo,
será a matéria-prima mais importante, seguida da mamona
e do dendê. Mas há sólidas
apostas na mamona. A Brasil Ecodiesel já investiu R$ 60 milhões
e vai pôr outros R$ 120 milhões na produção
de óleo de mamona nos nove Estados do Nordeste e em Tocantins e
Minas Gerais, com capacidade instalada de 280 milhões de litros/ano
em janeiro de 2007. O projeto envolve 30 mil famílias, que plantam
em média de 1,5 hectare a 2 hectares. O biodiesel não
é uma solução mágica, mas pode dar resultados.
"Se for só programa energético, eu temo. Se for só
social, eu temo também. Se for os dois, balanceados, vai ser maravilhoso",
sintetiza Brito. "Tem é de fazer com muito carinho." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |