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Como
fazer para sair do apagão |
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| LOURIVAL SANTANNA |
Segunda-feira,
9 de abril de 2007
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O caos no transporte
aéreo do Brasil não é causado por falta de dinheiro,
mas de planejamento e de gestão. As decisões no setor têm
sido tomadas de forma aleatória, sem uma política articulada
a orientá-las, e sem um responsável de quem se possa cobrar
os resultados. A Infraero, a estatal
que administra os aeroportos, investiu R$ 2,19 bilhões entre 2004
e 2006, e tem previsto investir outro R$ 1 bilhão este ano. Mas
suas decisões não são tomadas com base numa estratégia
nacional para o transporte aéreo. É por isso que os passageiros
têm agora horas e horas para admirar as paredes de mármore
e deitar-se nos pisos de granito dos aeroportos, enquanto, por falta de
radares, pistas e controladores, os aviões não conseguem
decolar nem pousar. "O controle de
tráfego aéreo sofre de um gap tecnológico de 20 anos",
estima o brigadeiro Adyr Leite, doutor em infra-estrutura aeroportuária
e presidente no Brasil do Institut du Transport Aérien, com sede
na França. "A obra tem precedência sobre a tecnologia.
Há mais de uma dezena de aeroportos com sistemas de automação
incompletos, porém situados em verdadeiras catedrais arquitetônicas." A racionalidade por
trás dos investimentos, se alguma, é obscura. O aeroporto
de Congonhas recebeu novos fingers, mas não tem pistas adequadas.
O aeroporto de Brasília ganhou uma segunda pista, mas não
há espaço suficiente no pátio para os aviões,
ônibus para transportar os passageiros nem lugar para todos eles
no terminal. Pela cidade de São
Paulo passa 40% do tráfego aéreo do País, mas nem
Cumbica nem Congonhas foram contemplados com uma segunda pista em que
possa haver pousos e decolagens simultâneos à outra existente.
Além de Brasília, o outro agraciado com uma segunda pista
foi o Galeão, no Rio. "Houve uma priorização
errada de investimentos", constata Adalberto Febeliano, vice-presidente
executivo da Associação Brasileira de Aviação
Geral (Abag). Enquanto o tráfego
aéreo cresce o triplo da economia, o número de controladores
de vôo permanece estagnado há vários anos. "Cada
controlador vem arrastando um crescimento de 10% a 15% ao ano", contabiliza
Adyr Leite, ex-presidente da Infraero (1995-1998). O Sindicato Nacional
dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo estima que seja
necessário abrir, de imediato, no mínimo 500 novas vagas.
Para evitar os problemas
enfrentados nos últimos meses, é preciso criar uma carreira
única para os controladores. Não é necessário
pagar os altos salários que a categoria recebe nos Estados Unidos
e na Europa, concordam os especialistas, mas seria razoável pelo
menos dobrar os atuais R$ 1.650 iniciais e R$ 3.154 para quem tem 30 anos
de serviço. Muitas incongruências
seriam evitadas, acreditam os especialistas, se a administração
dos aeroportos e a gestão do tráfego aéreo estivessem
submetidas a um mesmo órgão político, uma Secretaria
Nacional do Transporte Aéreo, que por sua vez falasse diretamente
com um ministério poderoso, de decisão, como a Casa Civil.
Esse ministério elaboraria uma política para o setor - hoje
inexistente - e a secretaria se encarregaria do planejamento e da gestão
para executá-la, sendo cobrada dos resultados. "Controle de
tráfego aéreo é um bem público", ressalta
Thomaz Guedes da Costa, da National Defense University, em Washington.
"A responsabilidade fica no colo de quem está em cima, tomando
decisões políticas. Numa democracia, compete ao cidadão
cobrar responsabilidades. Para isso, é preciso unificar o planejamento
e a decisão." Para um diagnóstico
da situação, seria necessária uma auditoria técnica
independente sobre o sistema: seus equipamentos, sua infra-estrutura e
seu pessoal. Simplesmente não há informações
sobre o setor. A Aeronáutica trata do controle do tráfego
aéreo - que, no Brasil, está associado à defesa do
espaço aéreo - como segredo militar. E a Infraero é
uma caixa-preta que o Tribunal de Contas da União e o Ministério
Público têm tido muito trabalho para abrir, identificando
grande número de possíveis irregularidades. A auditoria foi uma
das 13 recomendações feitas, em 14 de dezembro, por um Grupo
de Trabalho Interministerial, formado a pedido do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, no começo do apagão aéreo. O próprio
presidente ignorou depois as recomendações. "A sociedade
precisa saber o que está acontecendo com o controle de tráfego
aéreo", diz Célio Eugênio de Abreu Jr., consultor
de segurança de vôo do Sindicato Nacional dos Aeronautas,
que participou do grupo interministerial. Introduzir transparência,
racionalidade e planejamento no sistema não vai adiantar muito
se as receitas das taxas de embarque e das tarifas cobradas das companhias
aéreas não forem empregadas em equipamentos, infra-estrutura
e pessoal. O governo contingencia sistematicamente o dinheiro dos fundos
Aeronáutico e Aeroviário. No momento, os fundos têm
R$ 2,07 bilhões retidos no Tesouro, segundo a ONG Contas Abertas.
Mesmo a fatia liberada é muitas vezes usada pela Aeronáutica
para outros fins. "Usar dinheiro
do Fundo Aeronáutico para outras coisas é um equívoco
estrutural", avalia Guedes da Costa. "Se foram estipuladas taxas
destinadas ao fundo, alguém deve ter planejado isso. O desvio do
dinheiro é um desvirtuamento desse planejamento." Assim como não
adianta ter aeroportos elegantes se os aviões não conseguem
voar, também não adianta se os passageiros não conseguem
chegar. O aeroporto de Congonhas opera no seu limite, enquanto Guarulhos
e, sobretudo, Viracopos, em Campinas, vivem subutilizados porque todo
mundo quer ir para Congonhas. Viracopos fica longe demais e uma chuva
ou um caminhão quebrado param a Marginal do Tietê e tornam
Guarulhos inacessível. A solução são trens rápidos ligando Guarulhos e Viracopos à região central de São Paulo, e um metrô interligando-os a Congonhas. Na verdade, em países sérios, quando se planeja um aeroporto, se prevê juntamente o acesso terrestre, em geral com trens rápidos. Pode-se dar muitas voltas, mas sempre se chega ao mesmo lugar: a falta de planejamento. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |