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Brasil e China:
sócios sem dólares |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Sábado,
4 de abril de 2009
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LONDRES "Não sei
se vai ser possível", disse o presidente, reconhecendo que
a iniciativa envolve dificuldades técnicas e até "convencer
a sociedade". "Estamos tentando. Já fizemos com a Argentina.
Queremos fazer com o Mercosul e com a América do Sul." Segundo
o presidente, a vantagem é que "um pequeno empresário
não tem que ir atrás de dólar para comprar, ou seja,
ele faz o negócio na moeda do seu país e nós fazemos
na nossa". "Essa crise nos
ensina que ao longo do tempo nós vamos ter de começar a
trocar essas moedas para não ficarmos dependendo do dólar",
declarou o presidente ontem de manhã em Londres, antes de embarcar
de volta para Brasília. "Essa crise mostrou uma coisa fantástica.
O país que tem a maior crise são os Estados Unidos. Mas,
como o dólar é a moeda universal, o dinheiro sai dos países
emergentes e vai para os títulos do Tesouro americano, o que é
um contra-senso." De acordo com Lula,
isso acontece porque os EUA "têm a maquininha de produzir dólar".
Pela lógica, disse ele, "o dinheiro deveria estar fugindo
dos Estados Unidos e comprando títulos do Tesouro brasileiro, porque
temos uma economia muito mais sólida, temos bancos muito mais sólidos".
Lula observou que "esse dinheiro vai para o Tesouro americano e não
volta para o comércio". "Há um fosso, um vazio
de dinheiro que precisamos colocar para funcionar", declarou o presidente.
Ele ponderou que não
se trata de "desbancar" o dólar, mas de criar uma "terceira
moeda", considerando o euro a segunda. A China é justamente
o maior detentor de títulos do Tesouro americano, seguida pelo
Japão, Grã-Bretanha e o Brasil, em quarto lugar. O governo
chinês tem pedido aos Estados Unidos proteção para
esses títulos. O presidente do Banco
Popular da China (banco central), Zhou Xiaochuan, sugeriu há dez
dias a criação de uma "moeda de reserva internacional
desvinculada de nações individuais, que possa permanecer
estável no longo prazo, com o objetivo de remover deficiências
inerentes provocadas pelo uso de moedas baseadas em crédito".
Zhou citou como possível
embrião dessa nova moeda os direitos de saque especiais (SDRs,
em inglês), papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional
cujo valor é calculado segundo uma cesta de moedas. Ele admitiu
que se trata de uma meta de longo prazo, que requer "visão
e coragem" dos governantes. Lula fez as declarações
depois de visitar as obras da Vila Olímpica de Londres, que será
sede dos Jogos em 2012 (ver Lula
politiza disputa pela sede da Olimpíada). Durante a entrevista
coletiva que se seguiu à visita, uma repórter do jornal
The Times pediu, antes de fazer uma pergunta: "Presidente, desculpe
por meus olhos azuis e minha pele clara." Foi uma referência
à declaração de Lula, na semana passada, ao lado
do primeiro-ministro Gordon Brown, em Brasília, de que a crise
foi causada por "gente branca de olhos azuis". Lula não
se abateu: "Enquanto você fazia a pergunta, fiquei olhando
para os seus olhos azuis. Você faz parte das pessoas de olhos azuis
que não têm jeito de banqueiro. Não tem responsabilidade
por essa crise. Parece vítima da crise." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |