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Na Favela do Alemão,
eleição ocorre sob o impacto das obras do PAC |
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LOURIVAL
SANT'ANNA |
Domingo,
30 de maio de 2010
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RIO Ao meio-dia de um
sábado, na rua principal do Morro do Alemão, o Estado
ouviu três gerações de uma família no alpendre
da casa que lhe pertence há 54 anos. Ainda que vivendo no mesmo
bairro e pertencendo à mesma família, o impacto do PAC sobre
cada entrevistado é diverso - assim como sua visão do governo,
dos políticos e das condições de vida na favela e
no País. Laerte Pereira Quaresma,
de 61 anos, foi atingido em cheio pelas obras. O bar que ele alugava havia
quatro anos foi um dos pontos comerciais e casas derrubados para o alargamento
da via. A título de indenização, o governo lhe pagou
aluguel social, em três parcelas de R$ 250. Achei
péssimo, diz Laerte, que há 18 anos possui bar. O
ponto era razoável. Estava trabalhando direitinho. Ele alugou
um bar na Penha, onde está tirando entre R$ 1.000 e R$ 1.200 por
mês, ao passo que no Alemão ganhava cerca de R$ 2.000. Apesar disso, Laerte
não é contra o PAC. Se for concretizado igual está
no papel, vai sair coisa boa, mas tem que sair do papel, insiste
Laerte, que acumulava o bar com o trabalho na recepção de
um hospital particular antes de se aposentar há seis anos. Não
é o teleférico que empolga Laerte: É obra de
faraó. Não era preciso. É para fins eleitoreiros. Ele está animado
com o alargamento da rua principal do Morro do Alemão, exatamente
o que levou à demolição de seu bar: Para mim,
a estrada vai ser muito boa, porque os micro-ônibus vão poder
atravessar o morro e ir para outros bairros. Hoje o que há
são Kombis que chegam até a metade do morro e têm
de dar meia-volta, porque a rua acaba. Ainda não
vi governo igual a esse, elogia Laerte. Para mim, foi o melhor.
Pobre agora pode ter eletrodomésticos, por causa das facilidades
que ele obrigou as empresas a dar para os trabalhadores. Laerte
gostaria que Lula continuasse na Presidência, mas reconhece que
isso não é permitido pela lei. Ele votou em José
Serra em 2002, gostou do primeiro mandato de Lula e votou nele em 2006.
Agora, votará em Dilma Rousseff. Se ela fizer pelo menos
metade do que ele fez, ou continuar com o trabalho dele, já tá
bom. Ela sendo eleita, ele vai continuar por trás. Laerte acredita que,
mesmo se o resultado for outro, o PAC não deve parar: O dinheiro
é federal. Vai ter de ter continuidade. Até Serra vai continuar.
Ninguém vai querer perder essa chance. Serra não está
sendo contrário à obra de Lula. Laerte não
fala em causa própria: para o seu negócio, a diferença
foi mínima no decorrer dos últimos anos; sua aposentadoria
de R$ 780 não aumentou e o reajuste não vale nada,
avalia. Estou dizendo o País em geral, que teve melhora ampla.
Sua mãe, Laura
Pereira Quaresma, de 87 anos, concorda: Ele está fazendo
muitas coisas. Laura diz que é bem atendida no posto de saúde,
mas não vê diferença em relação a dez
anos atrás, por exemplo. Ela recebe um salário mínimo
de aposentadoria. Para mim, que sou sozinha, tá bom,
contenta-se Laura, viúva há quatro anos de um encarregado
de limpeza aposentado. Eu votaria no mesmo que está lá,diz
Laura, que acredita que por causa da idade não a deixam votar mais
(o que não é verdade). Rogéria Pereira
de Souza, de 43 anos, outra filha de Laura, tem há 4 anos um bar
em frente à casa da mãe. Graças a Deus não
mexeram nem com meu bar nem com minha casa, diz ela, referindo-se
ao alargamento da rua pelo PAC. Como Laerte, ela acha que as obras do
PAC saem independentemente de quem se eleger. (José) Serra
não vai querer se queimar por causa de R$ 4,5 milhões. Rogéria não
tem dúvidas de que as condições de vida no Brasil
estão melhorando: Vamos pelo básico. Quando é
que pobre comia alcatra, contrafilé, comprava coca-cola todos os
dias? Antes, só comia galinha aos domingos. Ovo agora é
opção, não necessidade. Para o almoço
do Dia das Mães, no dia seguinte, o cardápio na casa de
Laura incluiria: lombo de porco, bacalhoada, carne assada, feijão,
arroz e macarrão ao alho e óleo. Além dos oito filhos
e dos netos, os almoços na casa precisam ter muita comida por causa
do movimento de vizinhos: Todo mundo conhece a gente aqui,
explica Laudelina Brum Rosas, a Dina, de 55 anos, outra filha de Laura.
Passam aqui e a gente dá (comida). Até a
educação melhorou, continua Rogéria. As
crianças não estudam melhor por falta de incentivo dos pais.
O governo paga para os adolescentes estudar, e mesmo assim eles não
querem. Por causa de seu bar, Rogéria tem contato direto
com os jovens da favela. Crio uma afinidade muito grande, o que
não é bom, porque acontece alguma coisa com esses meninos,
fico sentida, porque são gente boa. Estão lá não
entendo por quê, diz ela, referindo-se ao envolvimento com
o crime. Seu marido, de 47 anos, trabalhava como agente comunitário de saúde, até ter um tumor raro diagnosticado há 5 anos, passando a viver de cama. Seu tratamento é feito no hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Fundão. Rogéria está contente com o serviço: Não é fácil conseguir atendimento no Fundão, mas, na hora que precisa, faz todos os exames e recebe os medicamentos. Ela acha que muitas das queixas da população se devem ao fato de não conhecer a finalidade de cada unidade de saúde. Dina tem uma visão
mais crítica do serviço de saúde. Ela conta que começou
a sentir dor no braço na semana anterior. Foi ao Hospital Rodolpho
Rocco, mas o aparelho de raios X não estava funcionando. Na Unidade
de Pronto Atendimento (UPA) inaugurada recentemente no Alemão pelo
governo estadual, disseram que não era emergência e a encaminharam
à Guanabara, uma clínica particular conveniada com o SUS.
Teve de chegar às 4h porque lá só atendem 15 pessoas
por dia, e de pagar R$ 50 por uma radiografia. Ainda precisou ir ao Getúlio
Vargas, hospital federal, fazer ressonância magnética. Dina
conclui: "Graças a Deus não fico doente, não
preciso tanto. As poucas vezes que fui me decepcionei. " Costureira, ela se
aposentou há três anos. Tinha um salário razoável,
mas recebia boa parte por fora da carteira. Contribuiu pouco com o INSS
e recebe cerca de R$ 500 de aposentadoria. Agora com o aumento vou
ultrapassar o salário mínimo. Não está
satisfeita. Lula está sabendo enganar bonitinho todo mundo,
acusa Dina. Fernando Henrique e (Fernando) Collor foram o que foram.
Lula não mostra realmente o que é. Dina votou em Lula,
e considera que seu governo foi melhor que o de Fernando Henrique. Agora
não sei em quem voto. Por mim, não votaria em ninguém,
mas é pior, pondera. Vou ser obrigada a votar na Dilma.
Não conheço muito bem o que ela fez. Pode até ganhar,
mas Lula vai ficar por trás, igual foi o (ex-governador Anthony)
Garotinho com Rosinha (sua mulher e sucessora). "A Dilma sozinha vai arrasar isso aqui, vai acabar com a UPA, com tudo", diz Dina. Ao contrário de seus irmãos, ela teme que o PAC não tenha continuidade. Eu tenho receio de que quando Lula sair fique tudo esburacado. Eles entram pensando em dinheiro. Falam em ajudar, mas querem comer mais ainda. Igual quando caiu Niterói, compara, lembrando os deslizamentos de abril. Dina gosta do PAC: Acho que a obra está ficando muito boa, está saindo do aspecto de favela e virando bairro. Ela conta que, dois
dias antes, sua filha de 27 anos, formada em biblioteconomia, terminando
pós-graduação e empregada numa empresa do bilionário
Eike Batista, passou mal, chamaram táxi e o motorista se recusou
a subir o morro, com medo dos criminosos. Com as obras do PAC, acredita
ela, os táxis virão. Não precisará mais
ficar implorando: Pelo amor de Deus, moro 100 metros acima, os meninos
são bons. Seu sobrinho Victor
dos Santos Brum, de 26 anos, está desempregado desde julho de 2008.
Durante quatro anos, ele trabalhou como estoquista. Pediu demissão
para cuidar de sua mãe, que sofreu derrame e morreu em outubro
daquele ano. Com ensino médio completo e curso de massoterapia,
ele diz que procura emprego todos os dias. Mas não culpa o governo
Lula pelo seu desemprego. Conseguiu vaga de segurança em uma loja,
mas uma das empresas em que trabalhou não mandou seus documentos
para a matriz, e não o chamaram. Victor tira R$ 600
por mês fazendo bico como garçom em festas. Como estoquista,
ganhava entre R$ 700 e R$ 800, somando salário, comissão
e vale-transporte. Sua mulher trabalha há quatro meses no PAC,
cadastrando casas para regularização fundiária, e
recebe um salário mínimo. O governo Lula está
me deixando satisfeito pelo que vem fazendo pelas comunidades carentes,
diz Victor. As pessoas que têm situação melhor
não estão gostando. Se ele pudesse se reeleger, manteria
ele. Infelizmente não pode. Mas, com Dilma junto com ele nessa
empreitada, vamos votar nela. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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