|
Classe emergente
festeja progressos |
|
|
LOURIVAL
SANT'ANNA |
Domingo,
30 de maio de 2010
|
|
SALVADOR O taxista Luis Estrela,
de 34 anos, conta que afundou em dívidas entre 1998,
no final do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso,
e 2003, início do governo Lula. O poder aquisitivo diminuiu
muito, diz, e, com ele, o movimento de passageiros. Tudo que
eu tinha tive que botar na fogueira, recorda Luis. Em 2003, ele
devia R$ 30 mil a duas financeiras. Quando entrou o governo Lula,
comecei a respirar. O número de passageiros foi aumentando
- ele reconhece que também por causa da violência nos ônibus
de Salvador - e os juros dos empréstimos caíram. Luis reuniu todas
as suas dívidas em um banco. Zerei meu nome nos bancos, cartões
de crédito e celular. Comprou um terreno com uma construção
por R$ 7 mil à vista e terminou a casa com um empréstimo
na Caixa Econômica Federal (CEF) de R$ 17 mil, pelo qual pagou R$
23 mil, em 24 meses. Equipou a casa com TV de plasma, computador, máquina
de lavar, geladeira nova e ar- condicionado. Coisas que nunca pude
ter noutros governos, diz ele. Luis instalou até um DVD player
para os passageiros de seu táxi, que é arrendado. O taxista afirma que
ganha entre R$ 4 mil e R$ 4.600 por mês, e paga com facilidade a
despesa mensal de R$ 3.500, incluindo o colégio da enteada de 12
anos, o sustento do filho de 1 ano e meio e um plano de saúde.
Graças a Deus, dá para manter uma situação
muito boa. Para mim, melhorou
muito, concorda Cristiane Caetano, de 31 anos, que fez curso técnico
de enfermagem e é uma espécie de governanta na casa de duas
irmãs de meia-idade. Consegui financiar minha casa.
Cristiane paga prestação de R$ 146 na CEF pelo seu apartamento,
que se encaixa bem na sua renda de R$ 800 (salário mínimo
de R$ 510 mais diárias de R$ 35, que faz noutras casas). No dia em que conversou
com o Estado, ela tinha colocado anúncio no jornal procurando
emprego como enfermeira. Mando currículo todo dia; nunca
me chamaram, talvez por não ter experiência, diz Cristiane,
formada há quatro anos em Itapetinga, sua cidade natal, a 562 km
de Salvador. Ela não culpa o governo por não ter encontrado
vaga em sua área. Em Itapetinga, todo mundo que fez o meu
curso está empregado, diz Cristiane, cuja mãe trabalha
como enfermeira em um hospital da cidade. Lá tem bastante
emprego. Trabalhei seis anos na fábrica de sapatos da Azaléia.
Meus quatro irmãos também. Mas toda vida quis morar em Salvador.
Ela conseguiu seu primeiro emprego em 1999, na época de Fernando
Henrique. Não tem opinião sobre o ex-presidente. O namorado de Cristiane,
funcionário da prefeitura de Pojuca, a 67 km de Salvador, não
gosta do governo Lula. Ele é contra o Bolsa-Família,
explica Cristiane. Fala que tem que dar trabalho. Só que
muita gente não tem condições de trabalhar.
Cristiane cita o caso de uma vizinha de sua família em Itapetinga,
largada pelo marido com três filhos pequenos. Com o dinheiro do
Bolsa Família, ela abriu uma venda em sua casa, e assim pode trabalhar
e ao mesmo tempo cuidar dos filhos. Desde a eleição
de Lula, facilitou muito, avalia o segurança Arlindo Barbosa
da Silva Filho, de 50 anos. Qualquer pobre tem condições
de ter TV, micro-ondas... Antes era mais difícil. Arlindo
foi demitido em 2008 de uma grande empresa em Salvador, onde trabalhara
18 anos. Recebeu R$ 46 mil do Fundo de Garantia, indenização
e férias e outros R$ 3.800 de seguro-desemprego, em cinco parcelas.
Deu R$ 40 mil de entrada num apartamento que vale R$ 120 mil, paga prestação
de R$ 400 e cobra aluguel de R$ 500. Juntou o restante com suas economias,
investiu quase R$ 20 mil numa casa que já possuía e aumentou
o aluguel de R$ 400 para R$ 700. Além disso,
a pensão de sua sogra, cujo marido era ex-combatente da Marinha
e funcionário do Correio, deu um salto no governo Lula. Ela recebe
R$ 6 mil por mês, que repassa para a filha e o genro. Sua mulher
está fazendo curso de publicidade. Como empregado, Arlindo ganhava
R$ 700 líquidos. Agora, tira R$ 1.800, somando a renda de aluguéis
de R$ 1.200 e os R$ 600 que ganha como motorista autônomo. Esse
governo é bom, resume. Ficou mais fácil investir
e conseguir crédito. Arlindo tem um carro
Vectra financiado em 36 meses, e paga R$ 418 por mês. Com
trabalho honesto, querendo, conseguem-se as coisas. Cristiane completa:
E nome limpo. Ela conta que uma amiga vendedora de produtos
Avon comprou um carro. O marido desconfiou e foi averiguar. Explicaram
que ela tinha rendimento e nome limpo. No transcurso do governo
Lula, José Antonio dos Santos Vieira, o Zé do Acarajé,
de 45 anos, transformou-se em arrendatário e pequeno empresário.
Ele abriu seu primeiro ponto de acarajé em Piatã há
16 anos, mas só contratou o primeiro funcionário em 2002.
Hoje, tem 10 funcionários, e do ano passado para cá abriu
mais dois pontos. Formado em educação
física, Zé do Acarajé é professor da rede
estadual. Em 2007, fez empréstimo consignado de R$ 13 mil como
servidor estadual no Banco do Brasil e transformou o sobrado em que vivia
em sete unidades residenciais, que aluga por R$ 1.700. Paga R$ 380 de
prestação. Pegou dinheiro emprestado com sua cunhada, comprou
terreno e construiu casa num condomínio na Estrada Velha do Aeroporto.
Em sua nova casa, montou uma cozinha industrial. Financiou também
a compra de sua picape Saveiro e de um Gol para a filha, que estuda engenharia
de produção. Outra faz ciências contábeis.
O governo federal ajudou quando segurou os juros, analisa
Zé do Acarajé, que faz último ano de direito. Se
não tivesse essa facilidade de financiamento, eu não teria
conseguido fazer o que fiz. Os entrevistados não
gostam de Lula apenas porque melhoraram de vida durante seu governo. Esse
presidente foi o primeiro que teve coragem de mandar prender corruptos,
que mostrou os bastidores da política, cita Luis. Não
é que mandou prender, não mandou soltar, assinala
Zé do Acarajé. A Polícia Federal agora está
trabalhando, acrescenta Arlindo. Lula enfrentou os empresários
em favor das pessoas de baixa renda. Antes o governo era muito do lado
da classe alta. Lula foi o primeiro que olhou para o Nordeste, que era
esquecido. Apesar de estarem
satisfeitos com Lula, nem todos definiram em quem vão votar em
outubro. Embora esteja contente com esse governo, ainda tem muito
que melhorar, principalmente na educação, diz Zé
do Acarajé. Mesmo gostando de Lula, ainda não escolhi
meu candidato, afirma Cristiane. Não sou ligada em
política. Só parei para prestar atenção em
Lula porque senti a mudança, que foi um choque mesmo. Ainda é
cedo para tecer opinião em relação a candidato,
declara Arlindo. Estou em dúvida ainda. Não gosto
muito de política. Eu sou Lula. Minha opinião pode mudar
até setembro. Luis é bem mais assertivo: Com
o que a gente tinha antes, muda não. Ele já escolheu:
Quero que continue o pessoal de Lula, Dilma. Se continuar como está,
já é muita coisa. Não quero que piore. Do jeito que
está, está bom demais. |
| Anterior |