|
Periferia de Curitiba
sente boom de trabalho |
|
|
LOURIVAL
SANT'ANNA |
Domingo,
30 de maio de 2010
|
|
CURITIBA O motorista José
Aparecido da Silva, de 39 anos, era empregado de um supermercado até
dezembro. Saí porque o serviço era muito puxado, trabalhava
sábado, domingo e feriado e o salário era baixo: R$ 700.
Agora, ele presta serviços para uma empresa que transporta passageiros
em vans para São Paulo, onde fazem compras na Rua 25 de Março.
Aparecido sai às 6 horas e volta às 6 do dia seguinte. Por
cada viagem, ganha R$ 150. Tira R$ 1.000 por mês. Trabalho
menos e ganho mais. Sua mulher, uma cabeleireira
de 45 anos, também deixou há 6 anos um emprego para abrir
o próprio negócio. Ela trabalhava num salão
de gente rica no centro e agora atende a gente pobre aqui, descreve
Aparecido. Seu salário era de R$ 1.000. Agora ela tira R$ 1.500
por mês. Ambos estão pensando em formalizar-se pelo programa
Pequeno Empreendedor, do governo federal, passando a pagar INSS. Na
minha opinião, melhorou a situação do Brasil,
opina Aparecido. No feriadão as estradas estão lotadas
de carros e a rodoviária está cheia. Se estão viajando,
é porque está sobrando dinheiro. Há oito meses,
o radialista e eletricista Jânio Silva, de 50 anos, comprou o seu
primeiro carro, um Fusca 74, por R$ 2.500. Acho que nos últimos
anos as coisas têm melhorado, diz Jânio, que apresenta
um programa de música sertaneja gaúcha na rádio comunitária,
e faz bico de eletricista. Está tendo bastante emprego, às
vezes as pessoas é que não estão capacitadas. É o caso de
Adalberto Difert, que não pôde participar de um concurso
de agente de saúde do bairro porque não tinha o primeiro
grau completo. Aos 55 anos, ele voltou a estudar em fevereiro. Entrou
no equivalente à 5.ª série e agora está na 6.ª.
Este ano termino o primeiro grau, anima-se. Tive de
me emendar depois da meia idade. Comecei a sonhar de novo. Depois de ter trabalhado
como auxiliar de escritório, frentista de posto de gasolina e porteiro,
Adalberto tornou-se em 1989 sacoleiro de cigarros do Paraguai. Dez anos
mais tarde, quebrou, com a desvalorização do real. Desde
então, vive de bico, e tira de R$ 500 a R$ 600 por mês pintando
portões e casas. Sua mulher, viúva, complementa a renda
com uma pensão de R$ 600. O sonho de Adalberto, mesmo, é
voltar a ser porteiro. Diabético e
com perda parcial da visão, Armando Ferreira, de 49 anos, está
há 3 afastado do trabalho de motorista de ônibus urbano,
e recebe um benefício de R$ 1.300, equivalente a 70% de seu salário.
Ele se queixa do serviço público de saúde. Sua mulher,
de 48 anos, que trabalhava como servente numa creche, também se
afastou há 2 anos, por causa de um transtorno psíquico,
e recebe R$ 510. Ambos lutam para serem definitivamente aposentados, mas
não conseguem. Para garantir o benefício, eles têm
de voltar periodicamente ao médico para perícia. Às
vezes não conseguem marcar consulta a tempo, e ficam até
cinco meses sem receber o dinheiro. Apesar desses problemas,
sua avaliação do governo é positiva.
Graças às facilidades de crédito, Armando conseguiu
trocar seu Escort 87 por um Clio 2008, em 60 prestações
de R$ 700. Hoje tenho computador e internet em casa, a R$ 35 por
mês. Ele diz que votou em Lula em todas as eleições
e não se arrependeu. Só na área da saúde
é que estão tapando muito o sol com a peneira. Por
isso, pensa em votar em José Serra, ex-ministro da Saúde:
Na área de saúde ele até que foi bom, introduziu
os genéricos. E Lula deixou muito a desejar. Lula se imortalizou,
caiu nas graças do povo com o Bolsa-Família, elogia
Adalberto. Ele fez o pobre comer picanha. Depois de Getúlio
Vargas, ele foi o cara. O pintor sentencia: Em
time que está ganhando não se mexe. Se Lula já plantou
a mulher e o partido votou, você não vai arriscar a entregar
para um partido que vendeu o País, completa, referindo-se
à privatização sob o governo do PSDB. Aparecido lembra que
FHC teve o mérito de implementar o Plano Real. Isso ninguém
tira dele. Mas sempre votou em Lula. Agora acho que a gente
tem de manter o que está aí, que é a Dilma.
O comerciante Amado
Pires, de 65 anos, também está contente com o presidente:
Lula é obrigado a sair, mas devia de ficar. Ele tem
ressalvas quanto a sua candidata. Nunca fui de acreditar em mulher
pela história bíblica, confessa Amado, que foi da
Igreja Cristã do Brasil, da qual teve de afastar-se por problemas
conjugais. A Bíblia diz que a mulher, se quiser aprender
alguma coisa a mais, tem de indagar ao marido, porque autoridade Deus
deu só ao homem, não à mulher, afirma Amado.
Mas porque o brasileiro é muito frágil, as mulheres
estão tomando partido, analisa. Como Lula está
apresentando Dilma, vou votar nela. Vou arriscar na palavra dele, para
complementar o processo que ele começou. Amado prosperou nesses
anos de governo Lula, e atribui isso à facilidade de crédito.
Ao lado da banca de bicho que tem no bairro há 14 anos, ele abriu
há um ano uma lojinha de presentes. Mora num sobrado e tem outro
sobrado e uma casa alugados, que lhe rendem R$ 700. Possui ainda um Ford
Ka 2000. O povo brasileiro nunca teve oportunidades como hoje, facilidades
de comprar carro, moradia, celebra Amado, que antes votava no PMDB.
Para a cabeleireira Salete Lúcia Perin, de 57 anos, o melhor período da vida foram os últimos 6 anos, quando ela construiu a casa onde mora e funciona seu salão, e mais o sobrado geminado, que aluga para a rádio comunitária. Consegui por causa da economia do Brasil, avalia. Salete votou contra Lula nas duas últimas eleições. Nem lembro quem era o outro candidato. Eu era anti-PT, conta ela. Agora, vou virar PT, porque a economia foi bem. Acho que tem de dar continuidade no que foi bom. |
| Anterior |