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Agricultores familiares
aprovam programas, mas cobram preço mínimo |
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LOURIVAL
SANT'ANNA |
Domingo,
30 de maio de 2010
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RIO DO SUL Numa tarde ensolarada
de terça-feira, oito integrantes da Cravil - sete descendentes
de alemães e um de italianos -, de diversos municípios da
região, sentaram-se numa ampla sala de reuniões da sede
da cooperativa, em Rio do Sul, a 200 km de Florianópolis, para
conversar com o Estado. Na faixa de idade de 39 a 69 anos, seu ponto de
vista é inevitavelmente emoldurado pelos êxitos e fracassos
de seu negócio: a produção de alimentos para o mercado
interno. Não podemos
dizer que esse governo foi ruim, começa Frederico Seyffert,
de 61 anos. Só que, como pequenos produtores, tivemos diversos
problemas. Com os preços baixando e subindo, tivemos dificuldade
de pagar os empréstimos. Pedro Locks, de 51 anos, acrescenta:
O pequeno produtor não tem certeza de que vai poder honrar
seus compromissos. Ele recorda que o pior ano foi 2008: O
preço do adubo estava muito alto e entramos muito descapitalizados.
Harry Dorow, de 63
anos, produtor de leite em Itajaí e presidente da cooperativa,
explica que os produtores precisariam de garantia do governo para vender
seus produtos pelo preço da produção, e não
pelo preço de mercado da cesta básica, que fica abaixo do
custo. Esse preço não sustenta o pagamento do crédito. Se o governo
estabelecesse o preço mínimo com garantia, estaria desempenhando
o papel de governo, define Harry. Ele lembra que os produtores tiveram
essa garantia durante os governos de José Sarney e de Fernando
Henrique Cardoso. Harry explica que os sucessivos governos têm mantido,
no papel, uma política de preços mínimos, pelo mecanismo
da Aquisição do Governo Federal (AGF). Mas diz que, na prática,
as compras, a cargo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), atingem
um volume muito irrisório. Os produtores reconhecem
as virtudes de algumas iniciativas do governo. Segundo Pedro Locks, um
programa que ajuda muito é o Mais Alimento, que dá dois
anos para pagar máquinas agrícolas, com 3% de juros ao ano
e dois anos de carência. Já Moacir Warmling, de 43 anos,
agrônomo da Cravil, cita o Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar (Pronaf), destinado ao custeio e ao investimento.
Mas insiste que, se
não tem garantia de preço, o produtor compra sementes a
um preço alto, na entressafra, e vende sua produção
a um preço reduzido pela oferta abundante no período da
safra. Não tem como pagar, conclui Moacir. Além
do preço mínimo baseado no custo da produção,
o agrônomo acha que o governo deveria estipular uma renda
mínima para o produtor. É apoiado por todos. Os produtores sentem
que estão arcando com o ônus pelo preço baixo dos
alimentos no Brasil, enquanto enfrentam o preço alto dos insumos,
que varia de acordo com o mercado internacional. Segundo Harry, 70% dos
alimentos da cesta básica são produzidos pela agricultura
familiar. (O preço baixo) é bom para quem compra comida,
mas é ruim para quem produz, observa Adílson Stédile,
de 39 anos, o único italiano do grupo. É
bom em termos, porque pode faltar no ano seguinte, pondera Pedro,
referindo-se à falta de estímulo para plantar. O Bolsa-Família
também é visto desse ângulo. É uma maneira
de escoar a produção e dar alimento aos que precisam,
analisa Harry. Em si, não é ruim. Mas o agricultor,
com sua renda baixa, está sustentando esse tipo de programa via
alimento barato. Segundo ele, com o tratamento que a agricultura
vem recebendo ao longo dos anos, não só nesse governo,
1% dos agricultores tem abandonado suas terras a cada ano. Muitos
vão morar na favela, precisam de alimento e recebem Bolsa-Família,
diz ele, desenhando um círculo vicioso. O problema, concordam
todos, não é a capacidade de produzir, mas de gerar renda.
Isso fica patente no êxodo dos jovens, filhos dos agricultores,
que deixam suas terras em busca de oportunidades nas cidades. Na
grande maioria das famílias, a idade média passa dos 50,
estima Baldoíno Schütze, de 63 anos. (Nossa terra) está
virando dormitório, sorri Henrique Backmeier, de 65. Como
veem que não conseguem renda adequada na produção,
os filhos vão para a cidade, procuram outro tipo de trabalho e
continuam morando com os pais, explica Harry. Frederico tem uma
filha e um filho com mais de 30 anos, e um sobrinho de 38 que ele criou,
que trabalham nos 33 hectares de terra dele em Pouso Redondo, dos quais
24 hectares de arroz. Já as outras duas filhas com menos de 30
trabalham na cidade - uma casou-se e foi para Manaus. Ele ainda arrenda
as terras de três vizinhos: um tem filho farmacêutico, outro
tem duas filhas que estudaram direito e o terceiro tem filhos pequenos
e não mora na terra. O filho de Pedro de
26 anos formou-se em direito e está indo trabalhar em Indaial,
a 70 km de Rio do Sul; o outro, de 23, tem oficina de eletrodomésticos.
A agricultura familiar da região já enfrenta grande dificuldade
de encontrar mão de obra. Trabalhadores vêm de Pernambuco
para a colheita do algodão. Eles se queixam também
da situação das estradas para escoar a produção.
A BR-470 não tem nem acostamento, diz Pedro. Ela liga
a região ao oeste de Santa Catarina, onde se concentra a indústria
do Estado, e aos portos de Itajaí e Navegantes. A BR-282
até um tempo atrás estava feia, agora está boa,
observa Baldoíno, referindo-se à outra estrada federal que
dá acesso à região. O novo governo deveria
incrementar a estrada de ferro e a navegação fluvial,
opina Harry. Diminuiria nossos custos de transporte e escoamento
da produção. Outra preocupação
dos agricultores é com as exigências ambientais. Segundo
eles, as normas do Código Florestal Brasileiro - 20% de reserva
de mata legal mais as Áreas de Preservação Permanente
(APPs), que são as encostas de morro e as beiras de água
- não são aplicáveis na região. Aqui tem muitas nascentes, rios que cruzam a propriedade inteira, explica Henrique, que admite que já foi multado em sua propriedade de 47 hectares, em que produz milho, feijão e leite. Se for respeitar, fica inviável. Baldoíno diz que nunca foi multado, mas ameaçado: O agricultor é tratado como bandido. A polícia vem com fuzil até. Comprou, pagou, e de repente não pode usar. Os agricultores acham que deveriam ser remunerados pelo serviço ambiental de manter as matas. À pergunta
sobre qual foi a melhor fase para os agricultores. Baldoíno responde
que para ele foi o começo do governo de Fernando Henrique Cardoso,
quando o dólar estava em paridade com o real e os preços
dos seus produtos faziam frente aos custos dos insumos, que têm
um componente cambial. Investi a partir de 1996 e consegui fazer
muita reserva em seis anos. Depois, foi embora. Harry explica: Como
o agricultor familiar produz a cesta básica para o mercado interno,
a valorização do real é importante. Frederico
complementa: Os insumos ficaram muito caros em relação
aos produtos nos últimos anos. Tivemos problemas antes desse governo,
mas nos últimos anos vêm se agravando. Os defensivos
dobraram de preço, afirma Henrique. Em contrapartida, ele
diz que há oito anos vendeu milho a R$ 25 a saca e hoje vende a
R$ 15. Harry observa que os sucessivos governos se preocuparam muito
pouco em diminuir a dependência do Brasil de insumos importados,
como fertilizantes e matéria-prima para defensivos. Foi um
dos grandes equívocos de (José) Sarney, (Fernando) Collor,
FHC e Lula, diz ele. Lula só recentemente anunciou
que a Vale do Rio Doce e a Petrobrás iam explorar fósforo
e potássio. Eles acham cedo para escolher o candidato. Só posso dizer que vou votar no candidato, brinca Frederico, excluindo Dilma Rousseff e Marina Silva. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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