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Críticas
e elogios se equilibram em SP |
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LOURIVAL SANT'ANNA |
Domingo,
30 de maio de 2010
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Na calçada
de um restaurante na Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros,
oito profissionais liberais e pequenos empresários paulistanos,
na faixa de 28 a 46 anos, expuseram, numa noite de sexta-feira, o vasto
espectro de modos de pensar que caracteriza a classe média alta
de São Paulo. Eles veem pontos positivos e negativos nos governos
do presidente Lula e do ex-governador José Serra, e gostam da senadora
Marina Silva. "Tenho as mesmas
queixas que qualquer empresário tem: burocracia, carga tributária",
enumera Rogério Acquadro, 28 anos, sócio de um escritório
de consultoria em informática. "Mas, para mim, tem melhorado.
" Em 2006, Rogério deixou a segurança de um emprego
com carteira assinada para abrir seu negócio. Hoje, fatura entre
R$ 200 mil e R$ 300 mil por ano, tem três funcionários e
oito clientes. "A crise do último
ano não aconteceu comigo", testemunha Rogério, formado
em física. "Ao menos no meu ramo, com meus clientes, não
senti. " Segundo ele, "as queixas são as mesmas: o imposto
é alto, trabalha-se muito e ganha-se pouco, mas as pessoas não
se queixam como se queixavam antes". À pergunta sobre se já
pensou em como votará, ele responde: "Já. Continuísmo.
" "Tem mudanças
significativas para pessoas com carência econômica",
reconhece Itamar Gonçalves, de 46 anos, coordenador de programas
da filial brasileira de uma organização não-governamental
internacional, que atua contra o abuso e a exploração sexual
de crianças. "O Bolsa-Família é uma necessidade",
atesta Itamar. "Isso pode não ser sentido aqui em São
Paulo. Mas atuo muito em comunidades carentes de Pernambuco. Lá
faz total diferença na vida das pessoas. " Mas Itamar critica
a falta de políticas para que as pessoas deixem de precisar do
benefício. "O Bolsa-Família não pode se perpetuar,
e não vejo solução para ele", diz Itamar, formado
em geografia com especialização em psicologia. "Eu
gostaria de um governo que criasse condições para as pessoas
terem dignidade, sem cair nessa linha assistencialista. " Itamar
está desapontado com o PT: "Eu tinha uma esperança
de que pudesse ser diferente. Com as composições feitas
(no Congresso), não vejo diferença entre os governos do
PSDB e do PT. A política monetária é a mesma. " "Eu tinha um
sentimento de que fôssemos superar a corrupção",
continua Itamar. "O governo Lula foi tal e qual (os anteriores),
e isso me abalou muito, causou muita descrença. É um governo
muito corrupto. " Ele pretende votar em Marina, "em busca de
alternativa, mesmo sabendo que ela também teria de fazer composições
que não seriam muito diferentes". Itamar diz que sua escolha
"não é só uma questão programática,
mas também de ter pessoas dignas no governo". Ele acha que
Marina não tem chances: "É para mostrar que tem uma
insatisfação contida. " "As coisas básicas,
como segurança, educação e saúde, não
melhoram", impacienta-se Camila Aló, de 31 anos. Formada em
administração, ela trabalhou durante dez anos em grandes
empresas, como Ambev, Nokia e Unilever, da qual saiu há um ano
para estudar pedagogia na PUC. "Para quem tem
uma condição de vida ruim, que não é o caso
aqui da entrevista, melhorou", admite Camila, que vive da poupança
que fez quando trabalhava. "O governo Lula tem uma política
totalmente voltada para o social, com que às vezes eu não
concordo", afirma ela. "O Bolsa-Família é um escândalo.
As pessoas burlam as regras. É uma vergonha, uma enganação.
" "A política
é uma mesmice", queixa-se Camila, que vai votar em Marina.
"Acho que ela tem ideias que fogem do padrão, mas não
temos a consciência coletiva para fazer isso", afirma, prevendo
que sua candidata não será eleita. "Gosto da visão
social, mas não da Dilma (Rousseff). Não sou contra o Serra,
até porque o PSDB também tem essa preocupação
social. " O publicitário
Alexandre Martins, de 42 anos, discorda de Camila quanto à saúde.
Ele diz que teve infecção intestinal e foi a um posto de
saúde em São Roque, a 60 km de São Paulo, onde possui
um sítio, foi bem atendido e ganhou remédios. Alexandre,
que trabalha num banco, acredita que a saúde melhorou, e atribui
isso aos três níveis de governo. O publicitário
conta que demitiu seu caseiro, que tem quatro filhos, e só depois
de desempregado ele foi pedir Bolsa-Família. "Em lugares menores,
as coisas são mais bem geridas", acha Alexandre. "Lá
tem assistente social que passa de casa em casa. " Ele votou no senador
Cristovam Buarque (PDT) para presidente em 2006. Apesar de seu relativo
otimismo, não pretende votar este ano: "Nenhum dos candidatos
que estão aí merece meu voto. " Numa coisa, Alexandre
e Camila concordam: "Lula é populista. " O produtor de eventos
Paulo Tosetti, 38 anos, também votou em Cristovam no primeiro turno,
e em Lula no segundo. "Tenho restrições com relação
ao Serra", diz Paulo, formado em história. "Prometeu
terminar o mandato como prefeito e foi candidato a governador. Não
confio mais nele. " Paulo diz que não sabe muito sobre Dilma.
"Foi criada porque o PT perdeu seus candidatos na crise do mensalão.
Estou esperando a campanha para conhecê-la mais. " "Economicamente,
o Brasil nunca viveu uma época como esta", reconhece Paulo,
que abriu sua empresa há nove anos, depois de trabalhar como pesquisador
de história e gerente de bar. "Atribuo a um caminho que vem
sendo trilhado, desde Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula. O mérito
que dou ao Lula é que nenhum governo pensou tanto no social quanto
o dele. " No ano passado, seu
negócio sofreu uma queda forte com a crise econômica mundial.
"As empresas não investiam em eventos por medo, não
porque não tinham dinheiro", analisa. "Depois se descobriu
que era uma marola. " Paulo estima que o impacto sobre o Brasil foi
menor por ser mais exportador de matéria-prima, para a qual sempre
há demanda, do que de serviços ou tecnologia. "O mérito
do governo federal foi saber usar isso. " "Para mim, o
que mais pesa é o social", diz Paulo. "Aprovo os programas
sociais. Podem ser melhorados. Itamar e FHC estabilizaram a economia.
Os próximos governos precisam continuar cuidando da estabilidade
para poder olhar para o social - saúde, segurança, as condições
básicas. " Ele acha que Marina se preocupa com isso, mas lhe
falta um partido forte. "Quem não tem força do partido
para fazer política vai pagar mensalão. " Em 2002, Fernando
Molina, de 28 anos, votou em Lula porque achava que o Brasil precisava
de mudança. Ele aprovara a estabilização da economia
e a privatização por Fernando Henrique Cardoso, mas achava
que era hora de "dar chance aos que não tinham chances e também
pagam imposto". E, de fato, "essas pessoas melhoraram de vida"
no governo Lula, diz ele. "Não acredito
que seja a melhor solução dar alguma coisa, porque as pessoas
tendem a dar menos valor àquilo que elas ganham do que àquilo
que elas trabalham para conseguir", pondera Fernando, formado em
administração de empresas, com MBA. "Mas não
é justo eu falar que o Bolsa-Família é uma proposta
errada quando vim de uma família que me proporcionou condição
de batalhar pelas coisas que tenho. Quem nunca teve nada ter uma oportunidade
de ter alguma coisa é justo. " Mesmo assim, Fernando desgostou do governo Lula, por causa de sua aliança com o PMDB de José Sarney. "O PMDB não prega mais nada, só busca permanência nos cargos que tem", critica. "Apesar de eu acreditar que as propostas do PSDB sejam mais certas, Lula tem um grande trunfo, que é o seu carisma, inclusive fora do país", observa. "Votaria no Serra por alinhamento com o PSDB. PT e PSDB fogem dos extremos, caminham no centro", elogia. "O errado é que não procuraram se unir. Preferiram buscar o poder. É muito triste ter de escolher entre um e outro." "Tenho grande
aversão a Lula, porque simplesmente deu continuidade ao que já
estava sendo feito", rejeita Eduardo Coen, de 35 anos, que há
5 saiu de uma multinacional para criar uma microempresa de venda de artigos
para festas pela internet. "É um governo de desinformação,
de projetos populistas, muito levado na brincadeira", diz Eduardo,
formado em biologia. "Ele ficou com fama grande no exterior, não
entendo como. É 'o cara', só não se sabe do quê.
Deu uma sorte danada. "A
proximidade de Lula com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez,
e do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, perturba Eduardo. "Ele não
sabe o que está fazendo, é muito mal assessorado. " O empresário
conta que a crise do ano passado afetou os negócios, mas em dezembro
seus efeitos estavam superados. Nem a condução da política
econômica pelo governo Lula, porém, o entusiasma. "Fernando
Henrique teve o mérito de ter estabilizado a economia. Ele arrumou
a casa e o Lula pegou a coisa pronta. " Eduardo votou em FHC e Serra;
teria votado em Geraldo Alckmin, se não estivesse viajando. "Agora,
estou numa complicação, porque não enxergo mais o
PSDB como antes. Ainda acho que é mais sério do que o PT.
Mas também mantém um nível alto de corrupção.
Pretendo votar em Serra por eliminação. Não é
um voto feliz. " Eduardo acha "uma
piada" a expansão do metrô de São Paulo, um dos
destaques da gestão Serra. "Para resolver o problema do trânsito,
teria que ser uma obra muito maior. " Ele lembra também o
acidente na obra da Estação Pinheiros, em 2007. Para Eduardo,
"o PSDB procura dar uma aparência de eficiência e honestidade
de gestão, mas é falso". Eduardo conclui: "Eu
me desapontei com a política. " Trabalhando com marketing
em multinacionais de eletroeletrônicos há 10 anos, Graziela
Carmezini, de 30, é testemunha da explosão de consumo das
classes mais baixas sob o governo Lula, graças, sobretudo, à
facilidade de crédito. Mas não se empolga. "Nunca votei
nem votaria no PT", descarta Graziela, que fez publicidade e MBA
em marketing. "Acho que Lula tentou continuar o governo Fernando
Henrique, que é 'o cara', é quem trabalhou com a inflação.
" Para ela, a gestão Lula "foi um governo de consumidor".
Graziela admite: "Para quem trabalha com isso, é muito bom.
Mas, mesmo querendo vender, penso além. Os impostos e os juros
são altos. O consumidor é enganado pelo crediário.
" Ela não concorda
com o Bolsa Família: "Esses recursos deveriam ser investidos
na educação. " Graziela gostaria de votar em Marina,
mas prefere um candidato capaz de derrotar Dilma. "Vou votar no Serra,
mas não considero que ninguém seja bom. Governos são
muito corruptos. Não acredito que tenha político confiável." Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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