Estudo analisa perspectivas para jornal impresso no Brasil

Marcelo Coelho 

 

Boas e más notícias. Boa notícia: a circulação de jornais cresce no mundo (9,39% nos últimos cinco anos). Más notícias: cresce mais ainda se contarmos os jornais distribuídos gratuitamente (14,3% no mesmo período).
Cresce em países como China e Índia, e cai na Europa e nos Estados Unidos.
Boa notícia: jornais e revistas, juntos, ganham mais com anúncios do que a televisão. Má notícia: os anúncios pela internet cresceram 32,45% no mundo. Boa notícia: prevê-se que os ganhos com jornais on-line dobrem nos próximos cinco anos.

Estes dados saíram recentemente num site especializado, o www.pressgazette.co.uk.
No Brasil, as notícias recentes são em geral muito boas. De 2006 para 2007, a circulação cresceu 11,8%, e a participação dos jornais no bolo das receitas publicitárias em geral aumentou 6%, segundo a Associação Nacional de Jornais (www.anj.org.br).

Mesmo assim, parece difícil acreditar no futuro do jornal impresso a longo prazo, e sua substituição por edições on-line ainda esbarra com incógnitas quanto aos ganhos publicitários que podem ser obtidos pelo novo meio.
Lourival Sant’Anna é repórter especial de “O Estado de S. Paulo”. Sua dissertação de mestrado, defendida em 2007, é agora publicada pela editora Record, com o título “O Destino do Jornal”.

Traçar perspectivas sobre o futuro do jornalismo impresso -ou do jornalismo em geral- é uma tarefa arriscadíssima. Ainda mais no caso brasileiro, dadas as recentes variações da economia e o curto intervalo de tempo dos dados disponíveis para análise.

Paradoxos
“Quando o projeto deste estudo foi esboçado, no fim de 2003, os jornais estavam imersos numa crise”, escreve Lourival Sant’Anna. “Dois anos depois, quando os diretores de redação do “Estado”, da “Folha” e do “Globo” concederam entrevistas para este livro, celebravam o aumento da circulação dos jornais e marcas inéditas de lucratividade.”

Natural, portanto, que o autor tenha sido prudente e matizado em suas conclusões. Nada é simples na indústria jornalística e este livro permite ao leitor interessado familiarizar-se com alguns dos diversos paradoxos e situações contra-intuitivas que envolvem esse ramo de atividades.

Bolsa e modelo familiar
A abertura de capitais na Bolsa, supostamente mais moderna do que o modelo mais tradicional da empresa familiar, pode trazer distorções no desempenho dos jornais. É que o crescimento dos lucros a curto prazo, evidentemente interessante para os acionistas, pode ser fatal num prazo de tempo maior. Consegue-se grande lucratividade cortando custos e piorando o produto, porque demora um tempo até o consumidor desistir do jornal que habitualmente lê.

Temas como estes são analisados com clareza em “O Destino do Jornal”, que também sofre, entretanto, algumas das desvantagens do meio gutemberguiano em que é veiculado.

Os números que analisa vão apenas até o ano de 2006. Num clima de tão rápidas transformações, a internet mais uma vez mostra sua superioridade relativa. Mas, quando se trata de formular perguntas, e de estabelecer os quadros analíticos a serem alimentados por novas informações, um livro como o de Lourival Sant’Anna é ainda (como o jornal, espero) indispensável.

De um ponto de vista administrativo e financeiro, com estudos de caso muito interessantes e raciocínios estatísticos um bocadinho mais complexos, o livro de Philip Meyer “Os Jornais Podem Desaparecer?” (editora Contexto) será uma leitura valiosa para quem quiser se aprofundar no assunto.

Publicado na Folha de S. Paulo Ilustrada. Copyright: Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados.

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