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O apagão informativo de Kashgar |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Quarta-feira,
6 de agosto de 2008
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KASHGAR, China No início da
noite de segunda-feira, ao desembarcar na cidade, já tinha tido
a sensação de que algo estava invertido: era como se eu
estivesse em Kashgar, e os moradores é que estivessem chegando
de outro planeta incomunicável. Do motorista de táxi à
funcionária do Hotel Yiquan, semidestruído pelo atentado,
ninguém tinha conhecimento do acontecido. Ontem fui conversar
com o gerente de uma casa lotérica embaixo do hotel, também
danificada pela explosão. "O fato ocorreu às 6h (hora
usada pelos moradores de Kashgar, embora oficialmente só exista
o fuso horário de Pequim, duas horas mais tarde). Eu não
estava aqui", esquivou-se o rapaz. "Não sabemos bem o
que aconteceu, e não tenho nada a dizer sobre isso." Perguntas
mais "profundas" foram rechaçadas com impaciente polidez
- como o que ele, como uigur (muçulmano de etnia túrquica),
pensa sobre esses grupos terroristas que dizem representar suas aspirações
de separação da China. Ao sair da casa lotérica,
minha intérprete uigur, estudante de medicina e guia turística
profissional, disse que não podia mais trabalhar comigo. Além de não
quererem falar do assunto com estranhos, os moradores de Kashgar realmente
não sabem bem o que aconteceu. Alguns me disseram ter ficado sabendo
do episódio na tarde de ontem - cerca de 30 horas depois. Assim
como a maioria dos moradores de Xinjiang, que nunca saíram da província
em sua vida, a informação simplesmente não circula
na China. A TV local noticiou apenas que 16 policiais tinham sido mortos
e outros 16 feridos, sem maiores detalhes. O Diário de Kashgar,
o único da cidade de 390 mil habitantes (a Grande Kashgar tem mais
de 3 milhões), deu a informação no rodapé
da primeira página. Sua manchete de ontem foi sobre a doação
de 5,98 milhões de iuanes (US$ 854 mil), por 70.555 filiados ao
Partido Comunista, para as vítimas do terremoto ocorrido em maio
na província de Sichuan. Detalhe: a doação mensal
é compulsória, e muitos filiados se queixam de que ela reduziu
suas rendas. O Diário de
Xinjiang, que circula em toda a Região Autônoma Uigur, nem
sequer colocou o assunto na capa. A notícia foi dada numa pequena
nota no rodapé da página 2. Era o mesmo texto publicado
pelo Diário de Kashgar, sob o título "Policiais atingidos
violentamente": "Dois suspeitos atacaram com um veículo
um grupo de patrulheiros da fronteira de Kashgar durante exercício
matinal quando passavam pelo Hotel Yiquan. Havia explosivos no veículo.
Dezesseis morreram e 16 ficaram feridos. Dois suspeitos foram presos.
O caso está sob investigação." Dificilmente
algum jornal do mundo noticiou o atentado de forma tão sucinta
quanto o diário editado na cidade em que ele ocorreu. |
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