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O estigma de ser uigur |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Quinta-feira,
7 de agosto de 2008
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ÜRÜMQI,
China Depois de viajar quatro
horas de avião, que separam Pequim de Ürümqi, a capital
da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, minha intérprete
precisa, tanto quanto eu, de um tradutor para entender os uigures, muçulmanos
de origem túrquica. É verdade que ela não precisaria
ir tão longe. Em Hunan, sua província natal (sudoeste),
vilarejos distantes entre si 20 km falam dialetos mutuamente incompreensíveis.
Têm em comum a escrita em mandarim, que os torna todos hans. Os
uigures, por sua vez, cujo alfabeto deriva do árabe, não
entendem os casaques, tajiques, quirguizes, usbeques e huis com os quais
compartilham o Islã e Xinjiang, gigantesco território de
1,7 milhão de km² - um sexto da China. Tanta diversidade
é campo fértil para muitos atritos. Sentindo-se à
vontade com minha intérprete han, e feliz por aceitarmos pagar
o dobro da corrida para não termos de dividir o táxi com
outro passageiro (exigência dos motoristas depois que o litro da
gasolina saltou de 4,28 iuanes para 7,63, há um mês), o taxista
han que nos levou do aeroporto ao hotel foi de uma franqueza embaraçosa:
"Não se aproximem dos uigures. Eles são criminosos."
Segundo ele, os casaques e os mongóis se comportam bem. "O
problema são os uigures." Caminhando às 3 da tarde pela movimentada Avenida da Liberação do Sul, em frente ao Grande Bazar de Ürümqi, presenciei uma cena que prejudicou meus esforços de afastar esse estereótipo como um preconceito odioso. Um homem com uma longa pinça tentava calmamente arrancar algo do bolso da frente da calça de outro homem, distraído olhando os jornais de uma banca. Alertada por um terceiro, a vítima olhou com ar de enfado e resmungou algo para o trombadinha, que pediu desculpas e saiu caminhando placidamente, em busca de uma nova vítima. "Isso é normal aqui", explicaram moradores de Ürümqi. "Ninguém chama a polícia porque os ladrões pertencem a grupos poderosos." Em cidades grandes
como Pequim e Xangai, os vendedores ambulantes uigures, imigrantes, despertam
nos transeuntes o medo de serem roubados - ou, no mínimo, enganados.
Nem todos os hans
têm uma visão tão negativa dos uigures. "A maioria
é boa", disse Shi Lian, contadora numa fábrica de cimento.
"São só uns poucos loucos que apóiam o terrorismo."
Fora de Xinjiang, no entanto, para muitos chineses, o terrorismo está
associado ao Islã em geral e aos uigures em particular. O atentado
de segunda-feira em Kashgar (oeste de Xinjiang), em que dois uigures separatistas
islâmicos mataram 16 policiais hans e feriram outros 16, não
ajuda a dissipar esse estigma. |
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