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Um pedaço do Tibete em Chengdu |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Sábado,
9 de agosto de 2008
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CHENGDU, China Sobre o televisor,
um pôster azulado mostra Mao Tsetung, o líder da revolução,
caminhando alegremente entre dois tibetanos. No canto esquerdo da parede,
uma foto do Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, vestido com
as cores tradicionais do budismo, o amarelo e o vermelho, parece burlar-se
do jogo de cores. A imensa maioria dos chineses nunca ouviu falar do Dalai
Lama. Uma engenheira eletrônica de 24 anos me conta que só
ficou sabendo de sua existência há dois anos, quando viajou
para fora da China. Mas sua imagem está em quase todas as lojas
e restaurantes do bairro. Este é meu
terceiro dia em Chengdu, e é a primeira vez que vejo policiais.
Todos parecem estar na Ximianqiao Hengjie (Rua da Ponte Onde se Lava o
Rosto), a via principal do bairro tibetano de Chengdu, o maior da China
(fora do Tibete, naturalmente), onde vivem cerca de 10 mil tibetanos.
A entrada e a saída da rua são controladas por policiais
armados de metralhadoras. A cada vez que se olha para a rua, vêem-se
carros e motos da polícia, além de veículos típicos
dos agentes de segurança à paisana, com as indisfarçáveis
lanternas giratórias no teto. Enquanto minha intérprete
e eu conversávamos com os tibetanos nas lojas, um policial parou
sua viatura no meio da avenida, atrapalhando o tráfego, para observar-me.
Eu caminhava, ele avançava. Eu parava, ele freava. A polícia controla
o bairro desde os protestos de março no Tibete pelo 49º aniversário
da ocupação chinesa, duramente reprimidos. A partir de então,
disse a dona de uma loja de roupas e artesanato do Tibete, tem sido praticamente
impossível para os tibetanos que vivem no interior da província
de Sichuan virem a Chengdu, a capital. Os turistas também desapareceram,
com medo de atentados. Estrangeiros só
entram no Tibete em grupos com guias e autorização do governo
chinês. Desde março, jornalistas estão proibidos de
entrar. "Eles dizem que os estrangeiros apóiam o Dalai Lama",
comentou sorrindo a dona de outra loja. O separatismo tibetano, assim
como o separatismo uigur (muçulmanos de origem túrquica
do noroeste do país) é tabu na China. O Tibete e a Região
Autônoma Uigur de Xinjiang somam 2,9 milhões de km²
- 30% do território da China. Ambos são regiões estratégicas,
com vastas fronteiras e minérios - sem falar no seu valor político
e simbólico. Assim como os uigures,
os tibetanos são vistos com enorme desconfiança pela maioria
han. Os taxistas de Chengdu não pegam passageiros tibetanos, e
dizem que eles são "perigosos" e "ladrões".
É o mesmo que dizem sobre os uigures os taxistas hans de Ürümqi
e Kashgar, em Xinjiang. A repressão de março - que deixou
20 mortos segundo as autoridades chinesas e 203 segundo o governo tibetano
no exílio - foi seguida de protestos na Europa contra a passagem
da tocha olímpica, e de manifestações pelo boicote
aos Jogos de Pequim. Ontem, na cerimônia de abertura, repleta de
chefes de Estado, tudo isso parecia distante - tão distante quanto
o presumível sonho de independência dos tibetanos. |
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