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Tradição e leis em conflito |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Domingo,
10 de agosto de 2008
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CHENGDU, China Chen teve uma terceira
filha, Yan. Hoje com 24 anos, ela conta que seus pais cortavam o seu cabelo
curto e a tratavam como um garoto. Por causa dela, seu pai e sua mãe
efetivamente perderam seus empregos públicos, e tiveram de ir trabalhar
no campo, no interior da província de Hunan, sudeste da China.
A família foi condenada à pobreza pela decisão de
Chen de tentar ter um filho. Até 1988 não havia energia
elétrica em sua casa, iluminada por lamparina a querosene. A primeira
televisão foi adquirida em 1998. Sendo terceira filha,
era "ilegal", e não teve documentos até os dez
anos, quando seus pais pagaram uma taxa para "legalizá-la".
A multa varia de lugar para lugar. Os pais da guia turística Milai,da
etnia uigur, de 24 anos, tiveram de pagar 10 mil iuanes (US$ 1.430) pelos
dois filhos extras que tiveram. Por serem minoria, eles podem ter dois
filhos na cidade e três no campo. Para matricular Yan na escola
pública, aos sete anos, Chen teve que pagar a mais. Quando cada uma de
suas duas filhas mais velhas chegaram à idade de casar, Chen pediu
aos futuros genros, ambos com irmão homem, que colocassem o sobrenome
dele nos filhos, já que a transmissão do nome de suas famílias
estava assegurada. Ambos recusaram, considerando a oferta um insulto.
Uma sobrinha de Chen
não pode ter filhos, e "comprou", há três
anos, uma garota de dois meses num vilarejo de Hunan, pagando aos pais
também 10 mil iuanes. Assim como Chen, os pais da garota tiveram
uma terceira filha mulher, na tentativa de ter um filho homem. Os dois
casais assinaram um contrato, pelo qual os pais biológicos se comprometeram
a nunca revelar a sua paternidade. O pai adotivo é secretário
da prefeitura em sua cidade, e a família é considerada "rica"
para os padrões locais. Sendo instruídos, não se
importam de ter uma filha do sexo feminino. E, de qualquer forma, um filho
homem seria muito difícil de "comprar", mesmo de uma
família muito pobre. Na época da Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, o líder Mao Tsetung encorajava as chinesas a terem muitos filhos. Eram chamadas de "yingxiong muqin" (mães-heroínas). A política de um filho foi adotada abruptamente menos de uma década depois, no início dos anos 80, variando o ano de acordo com a região.É apenas um exemplo do conflito entre as tradições e as leis chinesas. Há outros. Uma lei chinesa obriga a cremar os mortos nas cidades, por falta de áreas disponíveis. Pela tradição, se o corpo não é enterrado, a alma vaga, errante, sem repouso. Na zona rural, os enterros ainda são permitidos. Mas o ritmo frenético da urbanização significa que cada vez mais chineses têm de abandonar suas crenças. Em vez de transição
geracional, o que se vive aqui é uma transformação
drástica de valores, no período de uma vida. O novo valor
supremo a guiar muitos chineses foi enunciado pelo reformista Deng Xiaoping,
o sucessor de Mao, quando autorizou: "Ficar rico é glorioso." |
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