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Terra fértil, vida dura |
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LOURIVAL
SANTANNA |
Sábado,
23 de agosto de 2008
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GAO, China Gao se tornou um dos
símbolos dos desmandos dos secretários locais do Partido
Comunista, que ignoram as diretrizes do governo central e criam as próprias
regras para enriquecer e permanecer no poder. A onda de protestos dos
camponeses em várias aldeias de Anhui, província pobre e
essencialmente agrícola do leste da China, preocupou o governo
em Pequim pelo seu potencial desestabilizador. Isso foi há
15 anos. Hoje, Gao e outras aldeias de Anhui vivem em aparente calma.
Há cinco anos, conta o agricultor Zhang Zhen, o primeiro-ministro
Wen Jiabao conseguiu finalmente eliminar a cobrança, pelos chefes
locais, de impostos sobre a produção agrícola - proibida
por lei em 1999 em Anhui e estendida em 2001 para todo o país.
A retenção das verbas pelo chefe da aldeia também
acabou, acrescenta Gao Xiangzhi, depois que o governo central começou
há três anos a enviá-las para a sede do distrito,
em Linchen, a 10 km de Gao (os níveis administrativos na China
são: aldeia, distrito, condado, província e governo central). Os problemas, agora, são outros: o custo do fertilizante e do óleo diesel para os tratores. Toda família costuma ter um pequeno trator, com uma carreta, para trazer o milho, o trigo, a soja, o algodão e o amendoim da roça para a aldeia, onde os compradores vêm buscar de Bengbu, cidade a 60 km de Gao. A terra dessa região
é boa e não falta água - ao contrário, o Rio
Beituo inundou no ano passado, arruinando a safra. Mesmo assim, Zhang
gasta em fertilizantes 300 iuanes (US$ 44,11) por ano em cada mu (área
equivalente a 1/15 hectare). Ele tem 10 mus (0,6 hectare) de terra - poucos
agricultores chegam a ter 1 hectare na China. Há dois anos, o governo
começou a subsidiar o fertilizante, dando 50 iuanes (US$ 7,35)
por mu. Os 2.500 iuanes (US$ 367) que Zhang coloca do bolso por ano em
fertilizantes pesam no seu orçamento: num ano bom, como este, cada
mu rende mil iuanes - 10 mil (US$ 1.470), no seu caso. É pouco,
para sustentar os oito membros da família que vivem da terra -
ele e a mulher, três filhos e dois netos. E há ainda o diesel,
a 6,2 iuanes (US$ 0,91) o litro. Com renda tão
baixa e despesas tão altas, muitos agricultores trabalham como
pedreiros nas entressafras. E não só os homens. Gao Liushan,
de 35 anos, mostra os sapatos e as meias sujos de lama, voltando de uma
obra em Linchen. Ela e o marido, Qunmeng, da mesma idade, ganham 60 iuanes
(US$ 8,82) por dia na construção civil. Seu filho de 15
anos passa de segunda a sexta em sua escola no povoado de Huangwan, a
6 km da aldeia, onde come e dorme, e a mãe de Qunmeng, de 76 anos,
cuida da casa. Huang Jiasheng, de
22 anos, ganha mil iuanes (US$ 147) por mês trabalhando como pedreiro
em Suzhou, a 360 km de Zhang. Ele vem nos períodos de colheita
para a aldeia, onde sua mulher e seu bebê moram na casa de seus
pais. Os moradores de Zhang e de Gao podem ir buscar sustento longe -
mas nunca abandonam sua aldeia. "A vida está melhorando a
cada tempo que passa", assegura Zhang. |
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