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Governo
tem de impor autoridade, diz vice de Uribe |
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| LOURIVAL
SANTANNA Enviado especial |
Domingo,
2 de junho de 2002
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BOGOTÁ Num governo alvo de imensas expectativas, ele é uma espécie de reserva moral e de ponto de contato com o país real. Jovem, de boa família, bem educado e preparado, e ao mesmo tempo uma pessoa comum, que nunca se meteu em política e que sofreu na pele o grande flagelo colombiano: o seqüestro. O vice-presidente eleito Francisco Santos, de 40 anos, é personagem de Notícia de um Seqüestro, de Gabriel García Márquez, que narra os oito meses que o herdeiro do principal jornal da Colômbia, El Tiempo, passou acorrentado num cativeiro em Bogotá, entre setembro de 1990 e maio de 1991, seqüestrado pelo bando de Pablo Escobar, que chantageava o governo para não extraditar os chefes do narcotráfico para os Estados Unidos. Pacho Santos, como é conhecido, emprestou à chapa do presidente eleito, Álvaro Uribe, não só um sobrenome de peso e confiabilidade, mas, também, uma enorme simpatia de rapaz bem nascido e bem intencionado. Ao deixar o cativeiro, fundou a organização País Livre, que presta assistência às vítimas de seqüestros, e que promoveu manifestações que reuniram mais de 3 milhões de pessoas. Graduado em jornalismo pela Universidade do Kansas e em Comunicações pela do Texas, estudou também Ciências Políticas em Harvard, onde conheceu Uribe, em 1996. Era diretor de redação de El Tiempo em 2000, quando teve que deixar a Colômbia, ao se revelar um complô das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para matá-lo. Desde então, foi assistente de direção do jornal espanhol El País, até ser convidado, este ano, para integrar a chapa de Uribe. O vice-presidente eleito recebeu o Estado no fim da tarde de quarta-feira, na Casa Dann Carlton, o hotel convertido em quartel-general - literalmente, pelo esquema de segurança que o cerca - de Uribe e de Santos, que está trabalhando e vivendo lá. Sem gravata, recostado na poltrona, com os pés - só de meias - sobre a mesa de centro, informal e sereno. Santos enfatizou o princípio da autoridade que deve nortear o novo governo e disse que, nessa nova etapa, a Colômbia espera mão firme também do Brasil contra a narcoguerrilha. Ao fim da entrevista, quis saber da situação dos seqüestros no Brasil. Diante do quadro descrito, advertiu: "Se não fizerem algo já, isso vai crescer." Estado - Num conflito tão intrincado e multifacetado como o colombiano, por onde começar? Francisco Santos - Por eficiência nas Forças Armadas, por uma política de autoridade. Aqui, temos sido muito frouxos, muito moles. Não temos levado a sério o tema do conflito armado. É hora de o levarmos a sério, de a sociedade assumir a responsabilidade e pagar mais pela ordem pública. Exigir dos militares e da polícia é importante, e dar credibilidade à força pública. Estado - Uma moldura mais clara e firme para as negociações pode ter duas conseqüências: impulsioná-las para valer ou travá-las, no caso de uma das partes não aceitar as condições da outra. As condições do futuro governo são negociáveis? Santos - Por agora, não. Este país abriu uma porta de negociações muito grande no governo que está terminando. E infelizmente não funcionou. (Os guerrilheiros) não demonstraram a seriedade necessária. Então, é preciso apertar as condições novamente. Parte do esforço de autoridade é esse. Com as Farc, não chegamos a lugar algum. Estado - É possível vencer as Farc pelas armas? Santos - Creio que sim, mas será necessário um esforço tão grande e a destruição pode ser tanta que não sei se a sociedade colombiana está disposta a pagar por isso. O que sim será feito é mudar totalmente a situação militar para que eles entendam que é melhor a negociação política; que entendam que, com as armas, não há nada a fazer: o poder de dissuasão. Se estamos assim (põe as duas mãos quase no mesmo nível), que, em dois anos, estejamos assim (a mão que estava encima sobe e a que estava embaixo, desce). Alcançarmos uma diferença tão grande, de modo que a rentabilidade política das armas fique infinitamente menor que a da negociação. Estado - Para isso, é preciso dinheiro, não? Santos - Sim. Estado - Imposto de guerra, ajuda americana... Santos - Estamos olhando tudo. O certo é que a sociedade colombiana precisa fazer um esforço muitíssimo maior. Estado - Os paramilitares se dissolvem com o fim da guerrilha ou será necessário lidar com eles especialmente? Santos - Não se deve deixar aí coisas soltas. Melhor é derrotá-los. Mas é tão difícil quanto com as Farc. Os paras já têm narcotráfico, têm base social, estão se parecendo cada vez mais com a guerrilha em tudo, inclusive na barbaridade. O ideal é derrotar ambos. Mas, num momento dado, será preciso mostrar aos paramilitares o custo de uma derrota militar. Estado - A base das negociações seria a mesma da guerrilha? Santos - Como vamos saber? Estado - Vocês vão começar pela guerrilha? Santos - Sem dúvida. Se eles quiserem. Se não, não há negociação. Estado - Espera-se algo do Brasil, que ainda não tenha feito? Santos - (Faz uma pausa de 10 segundos) Sim, esperam-se muitas coisas. Estado - No campo militar, também? Santos - Seria importante que tivéssemos um arranjo militar, porque essa fronteira é porosa. O narcotráfico continua sendo muito importante no Brasil, o segundo ou terceiro maior consumidor de drogas do mundo. Aí, há uma tarefa grande. Se não a fizerem já, terão um problema muito sério, muito em breve. E têm que estar conosco no sentido de ver que as Farc estão prejudicando sua sociedade. Estado - O sr. tem falado em se dedicar à questão dos seqüestros, que está muito ligada ao problema do conflito armado, em geral. É possível tratá-la pontualmente, isoladamente? Santos - Sim, com grupos especializados, inteligência dedicada quase de maneira exclusiva ao tema dos seqüestros; e contra-inteligência, porque há elementos que se desviam. Focalizar o problema e dedicar toda uma estratégia do Estado a resolvê-lo. Estado - Será criada uma estrutura especial para isso? Santos - Não. É política de Estado. Com 3 mil seqüestros (por ano), a Colômbia nunca teve uma política séria para os seqüestros. É por isso que temos o problema que temos. Estado - Será usada a polícia mesma? Santos - A polícia e o Exército, sobretudo. Estado - O sr. é visto como um garante de que o próximo governo vai respeitar os direitos humanos. E o sr., que garantias tem sobre as relações de Uribe com os paramilitares? Santos - Estou absolutamente seguro de que não há nenhuma. Se não, não estaria aqui. Estado - Nunca houve? Santos - Nunca houve. Esse é o homem certo para o momento, um homem que jamais viola a lei. Estado - E com o narcotráfico, no passado? Santos - Também não. Estado - E a licença para avionetas de narcotraficantes (quando era diretor da Aviação Civil, nos anos 80, segundo denúncia do jornalista Joseph Contreras, em sua Biografia Não-Autorizada de Álvaro Uribe Vélez, lançada este mês)? Santos - Também não. Estou plenamente seguro. É um homem cujo patrimônio é transparente. Por Deus, é um homem que tem sido honesto. Estado - Faz tempo que o conhece? Santos - Não. Eu o conheci em Harvard, onde estudamos nos anos 96 e 97. Estado - Como surgiu o convite para ser seu candidato a vice? Santos - Foi numa conversa, aqui mesmo, alguns andares acima. Estivemos falando de política. Ele conhece minha trajetória. Falamos de uma quantidade de temas e ele me disse: "Quer ser vice?" E eu disse: "Sim." Estado - Os partidos sempre foram muito importantes na Colômbia. O sr. acha que seria bom "institucionalizar" este governo, talvez com o Partido Liberal? Santos - Não sei se com este governo, mas sei que é preciso institucionalizar o Partido Liberal. Estado - O sr. é liberal? Santos - Sim. Mas nunca militei no partido. Sempre votei independente. Estado - Quando falem de ou com o governo, os jornalistas de El Tiempo, a partir de agora, estarão falando, indiretamente, num certo sentido... Santos - ... com o chefe. Estado - Como o sr. imagina essa nova relação? Santos - De total respeito e independência, como foi até agora. Não penso em ligar para El Tiempo, de maneira alguma tentar influir. Copyright © O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados |
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